A perspectiva evolucionista retorna, caracterizando o gradualismo com que a arte de Machado se
desenvolveu no tempo, até atingir a maturidade de que as Memórias póstumas de Brás Cubas são o sinal:
Também foi gradualmente que na prosa se desenvolveu a sua índole de maravilhoso
humorista, que no Brás Cubas atinge o sumo grau de originalidade e independência. Os
germes de tal pendor apenas se lhe adivinham nos primeiros contos e romances pela
preocupação psicológica e moralística: mas ainda os caracteres humanos lhe fornecem
antes recursos dramáticos para o enredo e o desenlace da ação, que estímulos para o
exercício de sua magistral ironia (p. 181).
Mesmo Sílvio Romero, que ataca com violência inusitada e, segundo os comentários da época,
vingativa, o escritor, reitera a ótica que vinha se tornando dominante. Divide a obra de Machado em três
fases, equivalendo às três décadas até então percorridas por ele, e vê entre essas uma articulação na
direção do progresso constante. Compreende o momento atual do novelista como a grande fase da
maturidade; e estabelece entre as “maneiras” antiga e nova uma continuidade, asseguradora da unidade da
obra.
Romero, como os demais, compreende o passado em relação à atualidade; e, embora analise obras
individuais, como Falenas e Americanas, não evita o foco evolucionista, mais forte nele que nos
anteriores, pois associa as fases aos períodos da vida do autor. Porém, não submete os livros ao fluxo da
história, nem o oposto, pois um dos objetivos de sua crítica parece ser o de atestar a irrelevância do artista
para o percurso da literatura brasileira. Descartado o mérito, ele sai fora da moldura temporal até então
privilegiada, de modo que a ausência do relacionamento é ainda sintomática de seu emprego enquanto
critério de avaliação.
A polêmica suscitada por Silvio Romero levou a crítica brasileira a se concentrar na obra
propriamente dita de Machado de Assis. Respondendo àquele, os defensores desse — Magalhães de
Azeredo ou Lafayette Rodrigues — vão se voltar às peculiaridades da prosa e da poesia e destacar as
virtudes de seu estilo e pensamento, cujo pessimismo assume tonalidades de filosofia. Lafayette vai ver
em Machado a representação de um patamar de urbanidade e civilização que Romero, um “bárbaro”, não
poderia reconhecer, nem sequer identificar ou entender. E Azeredo justifica as fases diferentes do escritor
como “maneiras [distintas] do mesmo temperamento”.
Consolida-se, assim, o modo de descrever a obra já encontrado em Araripe: a segmentação em
fases, a articulação entre elas sem “solução de continuidade” conforme pensam Azeredo e também
Romero, o aperfeiçoamento crescente que representa a passagem de uma a outra. Porém, é José
Veríssimo quem dá o toque final a essa imagem, aceita pelo próprio Machado, conforme indicam sua
correspondência e as apresentações às novas edições dos primeiros romances.
Revisão da obra inicial
A análise de Iaiá Garcia, quando do lançamento da segunda edição do livro, reforça e dá consistência às
idéias circulantes sobre a criação machadiana. Saudando o aparecimento do romance, José Veríssimo
atribui-lhe uma qualidade suplementar: “tem esse livro delicioso e honesto o picante de ser da primeira
maneira do autor”.
6
Esta, por sua vez, não difere da segunda em termos de oposição, e sim a precede,
antecipando em ponto menor os valores que, depois, alcançam a plenitude:
Todo o Sr. Machado de Assis está efetivamente nas suas primeiras obras; de fato ele não
mudou, apenas evolveu. O mais individual, o mais pessoal, o mais “ele” dos nossos
escritores, todo o germe dessa individualidade que devia atingir em Brás Cubas, em
5
AZEREDO, Carlos Magalhães de. Machado de Assis. ln: _____ . Homens e livros. Rio de Janeiro, Garnier, 1902. p. 179. A
citação seguida provém igualmente desta edição.
6
VERISSIM0, José. A1guns livros de 1895 a 1898. In:_____ Estudos de literatura brasileira. 1ª série. Belo Horizonte, Itatiaia;
São Paulo, EDUSP. 1976. p. 156. As outras citações serão também retiradas desta edição.Quincas Borba, nos Papéis avulsos e em Várias histórias o máximo de virtuosidade,
acha-se nos seus primeiros poemas e nos seus primeiros contos (p. 157).
Eis por que a segunda maneira não é mais que “o desenvolvimento lógico, natural, espontâneo da
primeira, ou antes não é senão a primeira com o romanesco de menos e as tendências críticas de mais” (p.
157). Veríssimo não está fugindo à regra de seu tempo, apenas a legitima aos olhos do próprio Machado e
de seu público na condição de seu crítico mais credenciado. Ao mesmo tempo, ratifica a noção evolutiva
e ascensional, o que, por tabela, classifica os livros da “primeira maneira” a partir de sua natureza
transitória e, em certa medida, preparatória, “pré-histórica”. A presença de outra imagem biológica
esclarece mais uma vez o modo como cada obra individual é percebida, alinhada cronologicamente e em
relação a determinado resultado obtido depois:
Nas páginas emocionais de Iaiá Garcia, como dos Contos fluminenses, da Helena e da
Ressurreição, e nos seus mesmos versos, se faz a gestação de Brás Cubas (p. 158,
sublinha nossa).
Machado de Assis se toma, nesta medida, prisioneiro de sua própria cronologia, a que Veríssimo
subordina o entendimento dos livros: “Em Iaiá Garcia esta feição do gênio do escritor, reconhecível
desde os seus primeiros ensaios, que se desenvolverá no Brás Cubas, no Quincas Borba e nos contos da
sua segunda maneira, já é mais manifesta que na Ressurreição ou na Helena” (p. 159). Mas pode-se
cogitar que o escritor não achou a idéia tão desagradável, pois, tão logo leu a crítica do amigo, enviou-lhe
uma carta com as impressões que a repartição em maneiras produzia nele:
O que você chama a minha segunda maneira naturalmente me é mais aceita e cabal que a
anterior, mas é doce achar quem se lembre desta, quem a penetre e desculpe, e até
chegue a catar nela algumas raízes dos meus arbustos de hoje.
7
Aparentemente as imagens retiradas da história natural, freqüentes, como se percebe, davam
prazer ao escritor,que, de certo modo, as havia antecipado, empregando-as nos títulos de seus livros de
poesia, Crisálidas e Falenas. Porém, não as repetirá, embora reforce, nas edições posteriores dos livros, a
concepção relativa à cronologia de produção das obras. Ela aparece, por exemplo, na carta dirigida a seu
editor, Garnier, quando este, comprando os direitos autorais do conjunto da criação machadiana,
providenciava o relançamento dos textos mais antigos, um deles sendo os contos fluminenses:
Quanto aos Contos fluminenses, remeto-lhe um exemplar, segundo vosso pedido, com
pequenas correções para a próxima edição. Não corrigi o estilo, nem a composição,
porque cada livro deve guardar a marca de seu tempo, e este dos Contos Fluminenses é
meu primeiro neste gênero.
8
E retornam principalmente na Advertência à segunda edição de Helena, o primeiro a ser
republicado depois de consolidado o modo de descrever a trajetória intelectual de Machado de Assis:
Esta nova edição de Helena sai com várias emendas de linguagem e outras, que não
alteram a feição do livro. Ele é o mesmo da data em que o compus e imprimi, diverso do
que o tempo me fez depois, correspondendo assim ao capitulo da história do meu espírito,
naquele ano de 1876. Não me culpeis pelo que lhe achardes romanesco. Dos que então
fiz, este me era particularmente prezado. Agora mesmo, que há tanto me fui a outras e
diferentes páginas, ouço um eco remoto ao reler estas, eco de mocidade e fé ingênua. É
claro que, em nenhum caso, lhe tiraria a feição passada; cada obra pertence ao seu tempo
(p. 51).
7
Assis, Machado de. Correspondência. Coligida e anotada por Fernando Nery. Rio de Janeiro, São Paulo, W. M. Jackson Inc.
Editores, 1937. P.145.
8
MINISTÉRIO DE EDUCAÇÃO E SAÚDE. Exposição Machado de Assis. Centenário do nascimento. 1839-1939. Rio de
Janeiro. MES, 1939. p. 200.As reedições de Ressurreição, no mesmo ano de 1905, e A mão e a luva, o último a voltar após o
contrato com a Garnier, reiteram a idéia. Do primeiro, diz que “como outras que vieram depois, e alguns
contos e novelas de então, pertence à primeira fase da minha vida literária”;
9
sobre o segundo previne:
“Os trinta e tantos anos decorridos do aparecimento desta novela à reimpressão que ora se faz parece que
explicam as diferenças de composição e de maneira do autor. Se este não lhe daria agora a mesma feição,
é certo que lha deu outrora, e, ao cabo, tudo pode servir a definir a mesma pessoa”,
10
reforçando mais
uma vez a idéia de que mudou, provavelmente melhorou, mas o fez de modo contínuo e progressivo, num
esforço de permanente aperfeiçoamento. Antes mesmo de encerrada a produção literária, Machado de
Assis tinha já fixada e estabelecida a concepção que descrevia e catalogava sua obra, sendo aceita pelas
gerações seguintes de críticos.
Com isso, Helena, romance onde, como se viu, se internalizam mais poderosamente as amarras
com a cronologia, ficou presa a uma imagem congelada: submeteu-se ao vir-a-ser do escritor, primeiro
por a crítica compreender a obra de Machado de Assis da frente para trás, depois por ele a aceitar e
referendar nas advertências que abrem o livro e preparam a leitura da narrativa, predispondo o
sentimento do leitor.
Helena-livro e Helena-personagem protagonizam, assim, um duplo de submissão. A da segunda
transparece na sua decisão: sendo a possibilidade de ruptura do universo fechado representado no
romance, par se tratar da pessoa menos integrada a ele, converte-se em sua principal defensora e vítima,
por paradoxal que sua situação se torne. Não se revolta, embora sofra todos os prejuízos possíveis,
quando poderia ter se rebelado sem ter de abrir mão das vantagens conquistadas no início e depois do
primeiro segmento da intriga. Camargo, seu único antagonista, percebe como a moça ganhou terreno e
procura refreá-la, apelando para o ponto fraco dela. Talvez nem precisasse fazê-lo, pois a heroína
sucumbe com facilidade às contradições em que sua posição a coloca. Derrotada por sua honestidade e
temperamento, depois pela inautenticidade da situação, transforma-se no exemplo de uma docilidade sem
dúvida desejada por certo segmento social, o de Estácio.
Este, todavia, não mais detinha o poder de modo hegemônico quando Machado publica o livro. A
estas alturas, os republicanos, associados aos grupos urbanos emergentes, já contavam com seus próprios
clubes e jornais, não precisando fugir para a clandestinidade, nem temendo as reações políticas que
poderiam provocar. Pela mesma razão, Machado não podia localizar a ação da história no presente; tal
exemplo de submissão não mais convencia, sendo aceito, contudo, como próprio a 1850. E sendo, ao
mesmo tempo, reconhecível, porque, no intervalo, as mudanças ocorridas poucas alterações trouxeram
para a situação da mulher. Helena talvez fosse mais dócil que suas leitoras, já que heroínas machadianas
em situação similar como Guiomar e Iaiá Garcia, conseguiram melhorar seu status sem sacrifícios. Não é,
porém, o caso de Estela, esta um pouco mais velha que a enteada, portanto, mais próxima de Helena, e
que, como Lalau, de “Casa Velha”, teve de aceitar um marido pertencente a um grupo social equivalente
ou inferior ao seu.
Por isso, a margem de ação Helena é ínfima, menor que a de Estela, por sobre quem não pesa a
situação de ilegitimidade filial, persistente durante todo o relato de Helena. Como a protagonista deste
só pode se sujeitar, torna-se o contra-exemplo da ruptura, desatualizando o romance: faz com que ele se
alinhe à cronologia e explique-se por ela. A crítica e o próprio Machado endossaram essa ótica, e Helena
viu-se prisioneira de uma análise colateral, que a examina em relação a um outro, com o qual não se
assemelha e diante do qual fica inferiorizada.
Emancipar a leitura de Helena é talvez tão importante quanto liberar a personagem de seus
condicionantes sociais e ideológicos. E, de certo modo, os dois projetos se equivalem, o segundo
decorrente do primeiro: este depende de ser o romance considerado na relação que estabelece com o
leitor, que, se não pode fugir à mediação resultante do lugar do livro na cronologia de Machado de Assis,
pode questioná-lo e resgatar a identidade da obra. Porém, ao fazê-lo, não deixará igualmente de
questionar a protagonista, contrapondo a solução dada pelo escritor cm seu tempo e a que seria dada hoje.
Helena, na atualidade, parece anacrônica: sua sujeição às classes dominantes, discutível, talvez
inaceitável. Porém, foi o comportamento possível num certo período, e Machado soube traduzi-lo,
independentemente da coloração sentimental com que o pintou. E se, ao fazê-lo, o corroborou, não
9
Assis, Machado de. Ressurreição. In:______ Obra completa. Org. por Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro,
José Aguilar. 1962. v. 1, p. 114.
10
Idem. A mão e a luva. Ibidem, p. 196.procedeu tão docilmente quanto a heroína: ao mesmo tempo, propôs um jogo entre passado e presente,
desde a diferença temporal entre época de produção e de representação, e de identificação e
distanciamento, dado o vaivém prospectivo/retrospectivo analisado. Não há por que então deixar de
reintroduzir nesse jogo a perspectiva de um novo presente, o do leitor, intensificando sua operação. O
romance ganha em dinamicidade, sem que sua estrutura seja afetada; e indica que, se pode não ser atual
sua visão, nem aceitável sua ideologia conformista, conservadora e moralista, projeta por meio de suas
fissuras a comparação entre a situação apresentada e a contemporânea, reativando um diálogo que o torna
vivo e interessante.
Limitado pelas opções existenciais feitas pela protagonista, nem por isso Helena deixa de se
comunicar com o leitor, no presente deste. Porém, isto pode acontecer se se respeita o passado que
incorpora e manifesta, olhando para trás e para frente ao mesmo tempo, por cima, todavia, da linha
cronológica que o vem imobilizando e emudecendo.
ZILBERMAN, Regina. Estética da Recepção e História da Literatura. São Paulo: Ática, 1989.