HELENA: um caso de leitura

A perspectiva evolucionista retorna, caracterizando o gradualismo com que a arte de Machado se
desenvolveu no tempo, até atingir a maturidade de que as Memórias póstumas de Brás Cubas são o  sinal:
Também foi gradualmente que na prosa se desenvolveu a sua índole de maravilhoso
humorista, que no  Brás Cubas atinge o sumo grau de originalidade e independência. Os
germes de tal pendor apenas se lhe  adivinham nos primeiros contos e romances pela
preocupação psicológica e moralística: mas ainda os  caracteres humanos lhe fornecem
antes recursos dramáticos para o enredo e o desenlace da ação, que estímulos para o
exercício de sua magistral ironia (p. 181).
Mesmo Sílvio Romero, que ataca com violência inusitada e, segundo os comentários da época,
vingativa, o escritor, reitera a ótica que vinha se tornando dominante. Divide a obra de Machado em três
fases, equivalendo às três décadas até então percorridas por ele,  e vê entre essas uma articulação na
direção do progresso constante. Compreende o momento atual do novelista como a grande fase da
maturidade; e estabelece entre as “maneiras” antiga e nova uma continuidade, asseguradora da unidade da
obra.
Romero, como os demais, compreende o passado em relação à atualidade; e, embora analise obras
individuais, como  Falenas e  Americanas, não evita o foco evolucionista, mais forte nele que nos
anteriores, pois associa as fases aos períodos da vida do autor. Porém, não submete os livros ao fluxo da
história, nem o oposto, pois um dos objetivos de sua crítica parece ser o de atestar a irrelevância do artista
para o percurso da literatura brasileira. Descartado o mérito, ele sai fora da moldura temporal até então
privilegiada, de modo que a ausência do relacionamento é ainda sintomática de seu emprego enquanto
critério de avaliação.
A polêmica suscitada por Silvio Romero levou a crítica brasileira a se concentrar na obra
propriamente dita de Machado de Assis. Respondendo àquele, os defensores desse — Magalhães de
Azeredo ou Lafayette Rodrigues — vão se voltar às peculiaridades da prosa e da poesia e destacar as
virtudes de seu estilo e pensamento, cujo pessimismo assume tonalidades de filosofia. Lafayette vai ver
em Machado a representação de um patamar de urbanidade e civilização que Romero, um “bárbaro”, não
poderia reconhecer, nem sequer identificar ou entender. E Azeredo justifica as fases diferentes do escritor
como “maneiras [distintas] do mesmo temperamento”.
Consolida-se, assim, o modo de descrever a obra já encontrado em Araripe: a segmentação em
fases, a articulação entre elas sem “solução de continuidade” conforme pensam Azeredo e também
Romero, o aperfeiçoamento crescente que representa a passagem  de uma a outra. Porém, é José
Veríssimo quem dá o toque final a essa imagem, aceita pelo próprio Machado, conforme  indicam sua
correspondência e as apresentações às novas edições dos primeiros romances.
Revisão da obra inicial
A análise de Iaiá Garcia, quando do lançamento da segunda edição do livro, reforça e dá  consistência às
idéias circulantes sobre a criação machadiana. Saudando o aparecimento do romance, José  Veríssimo
atribui-lhe uma qualidade suplementar: “tem esse livro delicioso e honesto o picante de ser da primeira
maneira do autor”.
6
 Esta, por sua vez, não difere da segunda em termos de oposição, e sim  a precede,
antecipando em ponto menor os valores que, depois, alcançam a plenitude:
Todo o Sr. Machado de Assis está efetivamente nas suas primeiras obras; de fato ele não
mudou, apenas  evolveu. O mais individual, o mais pessoal, o mais “ele” dos nossos
escritores, todo o germe dessa individualidade que devia atingir em  Brás Cubas, em
                                             
5
 AZEREDO, Carlos Magalhães de. Machado de Assis. ln: _____ . Homens e livros. Rio de Janeiro,  Garnier, 1902. p. 179. A
citação seguida provém igualmente desta edição.
6
 VERISSIM0, José. A1guns livros de 1895 a 1898. In:_____ Estudos de literatura brasileira. 1ª série. Belo Horizonte, Itatiaia;
São Paulo, EDUSP. 1976. p. 156. As outras citações serão também retiradas desta edição.Quincas Borba, nos Papéis avulsos e em Várias  histórias o máximo de virtuosidade,
acha-se nos seus primeiros poemas e nos seus primeiros contos (p.  157).
Eis por que a segunda maneira não é mais que “o desenvolvimento lógico, natural, espontâneo da
primeira, ou antes não é senão a primeira com o romanesco de menos e as tendências críticas de mais” (p.
157). Veríssimo não está fugindo à regra de seu tempo, apenas a legitima aos olhos do próprio Machado e
de seu público na condição de seu crítico mais credenciado. Ao mesmo tempo, ratifica a noção evolutiva
e ascensional, o que, por tabela, classifica os livros da “primeira maneira” a partir de sua natureza
transitória e, em certa medida, preparatória, “pré-histórica”. A presença de outra imagem biológica
esclarece mais uma vez o modo como cada obra individual é percebida, alinhada cronologicamente e em
relação a determinado resultado obtido depois:
Nas páginas emocionais de  Iaiá Garcia, como dos Contos fluminenses, da Helena e da
Ressurreição, e nos  seus mesmos versos, se faz a gestação de  Brás Cubas (p. 158,
sublinha nossa).
Machado de Assis se toma, nesta medida, prisioneiro de sua própria cronologia, a que Veríssimo
subordina o entendimento dos livros: “Em  Iaiá Garcia esta feição do gênio do escritor, reconhecível
desde  os seus primeiros ensaios, que se desenvolverá no Brás Cubas, no Quincas Borba e nos contos da
sua  segunda maneira, já é mais manifesta que na Ressurreição ou na Helena” (p. 159). Mas pode-se
cogitar  que o escritor não achou a idéia tão desagradável, pois, tão logo leu a crítica do amigo, enviou-lhe
uma  carta com as impressões que a repartição em maneiras produzia nele:
O que você chama a minha segunda maneira naturalmente me é mais aceita e cabal que a
anterior, mas é  doce achar quem se lembre desta, quem a penetre e desculpe, e até
chegue a catar nela algumas raízes dos  meus arbustos de hoje.
7
Aparentemente as imagens retiradas da história natural, freqüentes, como se percebe, davam
prazer ao escritor,que, de certo modo, as havia antecipado, empregando-as nos títulos de seus livros de
poesia, Crisálidas e Falenas. Porém, não as repetirá, embora reforce, nas edições posteriores dos livros, a
concepção relativa à cronologia de produção das obras. Ela aparece, por exemplo, na carta dirigida a seu
editor, Garnier, quando este, comprando os direitos autorais do conjunto da criação machadiana,
providenciava o relançamento dos textos mais antigos, um deles sendo os contos fluminenses:
Quanto aos Contos fluminenses, remeto-lhe um exemplar, segundo vosso pedido, com
pequenas  correções para a próxima edição. Não corrigi o estilo, nem a composição,
porque cada livro deve guardar  a marca de seu tempo, e este dos Contos Fluminenses é
meu primeiro neste gênero.
8
E retornam principalmente na Advertência à segunda edição de  Helena, o primeiro a ser
republicado depois de consolidado o modo de descrever a trajetória intelectual de Machado de Assis:
Esta nova edição de Helena sai com várias emendas de linguagem e outras, que não
alteram a feição do  livro. Ele é o mesmo da data em que o compus e imprimi, diverso do
que o tempo me fez depois, correspondendo assim ao capitulo da história do meu espírito,
naquele ano de 1876. Não me culpeis pelo  que lhe achardes romanesco. Dos que então
fiz, este me era particularmente prezado. Agora mesmo, que  há  tanto me fui a outras e
diferentes páginas, ouço um eco remoto ao reler estas, eco de mocidade e fé  ingênua. É
claro que, em nenhum caso, lhe tiraria a feição passada; cada obra pertence ao seu tempo
(p. 51).
                                             
7
 Assis, Machado de. Correspondência. Coligida e anotada por Fernando Nery. Rio de Janeiro, São Paulo, W. M. Jackson Inc.
Editores, 1937. P.145.
8
 MINISTÉRIO DE EDUCAÇÃO E SAÚDE. Exposição Machado de Assis.  Centenário do nascimento. 1839-1939. Rio de
Janeiro. MES, 1939. p. 200.As reedições de Ressurreição, no mesmo ano de 1905, e A mão e a luva, o último a voltar após o
contrato com a Garnier, reiteram a idéia. Do primeiro, diz que “como outras que vieram depois, e alguns
contos e novelas de então, pertence à primeira fase da minha vida literária”;
9
 sobre o segundo previne:
“Os trinta e tantos anos decorridos do aparecimento desta novela à reimpressão que ora se faz parece que
explicam as diferenças de composição e de maneira do autor. Se este não lhe daria agora a mesma feição,
é certo que lha deu outrora, e, ao cabo, tudo pode servir a definir a mesma pessoa”,
10
 reforçando mais
uma vez a idéia de que mudou, provavelmente melhorou, mas o fez de modo contínuo e progressivo, num
esforço de permanente aperfeiçoamento. Antes mesmo de encerrada  a produção literária, Machado de
Assis tinha já fixada e estabelecida a concepção que descrevia e catalogava sua obra, sendo aceita pelas
gerações seguintes de críticos.
Com isso, Helena, romance onde, como se viu, se internalizam mais poderosamente as amarras
com a  cronologia, ficou presa a uma imagem congelada: submeteu-se ao vir-a-ser do escritor, primeiro
por a  crítica compreender a obra de Machado de Assis da frente para trás, depois por ele a aceitar e
referendar  nas advertências que abrem o livro e preparam a leitura da narrativa, predispondo o
sentimento do leitor.
Helena-livro e Helena-personagem protagonizam, assim, um duplo de submissão. A da segunda
transparece na sua decisão: sendo a possibilidade de ruptura do universo  fechado representado no
romance, par se tratar da pessoa menos integrada a ele, converte-se em sua principal defensora e vítima,
por paradoxal que sua situação se torne. Não se revolta, embora sofra  todos os prejuízos possíveis,
quando poderia ter se rebelado sem ter de abrir mão das vantagens conquistadas no início e depois do
primeiro segmento da intriga. Camargo, seu único antagonista, percebe como a moça ganhou terreno e
procura refreá-la, apelando para o ponto fraco dela. Talvez nem precisasse fazê-lo, pois a heroína
sucumbe com facilidade às contradições em que sua posição a coloca. Derrotada por sua honestidade e
temperamento, depois pela inautenticidade da situação, transforma-se no exemplo de uma docilidade sem
dúvida desejada por certo segmento social, o de Estácio.
Este, todavia, não mais detinha o poder de modo hegemônico quando Machado publica o livro. A
estas alturas, os republicanos, associados aos grupos urbanos emergentes, já contavam com seus próprios
clubes e jornais, não precisando fugir para a clandestinidade, nem temendo as reações políticas que
poderiam provocar. Pela mesma razão, Machado não podia localizar a ação da história no presente; tal
exemplo de submissão não mais convencia, sendo aceito, contudo, como próprio a 1850. E sendo, ao
mesmo tempo, reconhecível, porque, no intervalo, as mudanças ocorridas poucas alterações trouxeram
para a situação da mulher. Helena talvez fosse mais dócil que suas leitoras, já que heroínas machadianas
em situação similar como Guiomar e Iaiá Garcia, conseguiram melhorar seu status sem sacrifícios. Não é,
porém, o caso de Estela, esta um pouco mais velha que a enteada, portanto, mais próxima de Helena, e
que, como Lalau, de “Casa Velha”, teve de aceitar um marido pertencente a um grupo social equivalente
ou inferior ao seu.
Por isso, a margem de ação Helena é ínfima, menor que a de Estela, por sobre quem não pesa a
situação de ilegitimidade filial, persistente durante todo o relato de Helena. Como a protagonista deste
só pode se sujeitar, torna-se o contra-exemplo da ruptura, desatualizando o romance: faz com que ele se
alinhe à cronologia e explique-se por ela. A crítica e o próprio Machado endossaram essa ótica, e Helena
viu-se prisioneira de uma análise colateral, que a examina em relação a um outro, com o qual não se
assemelha e diante do qual fica  inferiorizada.
Emancipar a leitura de  Helena é talvez tão importante quanto liberar a personagem de seus
condicionantes sociais e ideológicos. E, de certo modo, os dois projetos se equivalem, o segundo
decorrente do primeiro: este depende de ser o romance considerado na relação que estabelece com o
leitor, que, se não pode fugir à mediação resultante do lugar do livro na cronologia de Machado de Assis,
pode questioná-lo e resgatar a identidade da obra. Porém, ao fazê-lo, não deixará igualmente de
questionar a protagonista, contrapondo a solução dada pelo escritor cm seu tempo e a que seria dada hoje.
Helena, na atualidade, parece anacrônica: sua sujeição às classes dominantes, discutível, talvez
inaceitável. Porém, foi o comportamento possível num certo período, e Machado soube traduzi-lo,
independentemente da coloração sentimental com que o pintou. E se, ao fazê-lo, o corroborou, não
                                             
9
 Assis, Machado de. Ressurreição. In:______ Obra completa. Org. por Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro,
José Aguilar. 1962. v. 1, p. 114.
10
 Idem. A mão e a luva. Ibidem, p. 196.procedeu tão docilmente quanto a heroína: ao mesmo tempo, propôs um jogo entre passado e presente,
desde a diferença temporal entre época de produção e de representação, e de identificação e
distanciamento, dado o vaivém prospectivo/retrospectivo analisado. Não há por  que então deixar de
reintroduzir nesse jogo a perspectiva de um novo presente, o do leitor, intensificando sua operação. O
romance ganha em dinamicidade, sem que sua estrutura seja afetada; e indica que, se pode não ser atual
sua visão, nem aceitável sua ideologia conformista, conservadora e moralista, projeta por meio de suas
fissuras a comparação entre a situação apresentada e a contemporânea, reativando um diálogo que o torna
vivo e interessante.
Limitado pelas opções existenciais feitas pela protagonista, nem por isso  Helena deixa de se
comunicar com o leitor, no presente deste. Porém, isto pode acontecer  se se respeita o passado que
incorpora e manifesta, olhando para trás e para frente ao mesmo tempo, por cima, todavia, da linha
cronológica que o vem imobilizando e emudecendo.
ZILBERMAN, Regina. Estética da Recepção e História da Literatura. São Paulo: Ática, 1989.
— Nhanhã Helena disse que já vem.
— Há dez minutos, observou D. Úrsula ao sobrinho.
— Naturalmente não tarda, respondeu este. Que tal?
D. Úrsula estava pouco habilitada a responder ao sobrinho. Quase não vira o rosto de
Helena; e esta, logo que ali chegou, recolheu-se ao aposento que lhe deram, dizendo ter
necessidade de repouso. O que D. Úrsula pôde afiançar foi somente que a sobrinha era moça
feita. Ouviu-se descer a escada um passo rápido, e não tardou que Helena aparecesse à porta
da sala de jantar. Estácio estava então encostado à janela que ficava em frente da porta e dava
para a extensa varanda, donde se viam os fundos da chácara. Olhou para a tia como esperando
que ela os apresentasse um ao outro. Helena detivera-se ao vê-lo.
— Menina, disse D. Úrsula com o tom mais doce que tinha na voz, este é meu
sobrinho Estácio, seu irmão.
— Ah! disse Helena, sorrindo e caminhando para ele.
Estácio dera igualmente alguns passos.
— Espero merecer sua afeição, disse ela depois de curta pausa. Peço desculpa da
demora; estavam à minha espera, creio eu.
— Íamos para a mesa agora mesmo, interrompeu D. Úrsula, como protestando contra
a idéia de que ela os fizesse esperar.
Estácio procurou corrigir a rudez da tia.
— Tínhamos ouvido o seu passo na escada,  disse ele. Sentemo-nos, que o almoço
esfria.
D. Úrsula já estava sentada à cabeceira da mesa; Helena ficou à direita, na cadeira que
Estácio lhe indicou; este tomou lugar do lado oposto. O almoço correu silencioso e desconsolado; raros monossílabos, alguns gestos de assentimento ou recusa, tal foi o dispêndio da
conversa entre os três parentes. A situação não era cômoda nem vulgar. Helena, posto
forcejasse por estar senhora de si, não conseguia vencer de todo o natural acanhamento da
ocasião. Mas, se o não vencia de todo, podiam ver-se através dele certos sinais de educação
fina. Estácio examinou aos poucos a figura da irmã.
Era uma moça de dezesseis a dezessete anos, delgada sem magreza, estatura um pouco
acima de mediana, talhe elegante e atitudes modestas. A face, de um moreno-pêssego, tinha a
mesma imperceptível penugem da fruta de que tirava a cor; naquela ocasião tingiam-na uns
longes cor-de-rosa, a princípio mais rubros, natural efeito do abalo. As linhas puras e severas
do rosto parecia que as traçara a arte religiosa. Se os cabelos, castanhos como os olhos, em
vez de dispostos em duas grossas tranças lhe caíssem espalhadamente sobre os ombros, e se
os próprios olhos alçassem as pupilas ao céu, disséreis um daqueles anjos adolescentes que
traziam a Israel as mensagens do Senhor. Não exigiria a arte maior correção e harmonia de
feições, e a sociedade bem podia contentar-se com a polidez de maneiras e a gravidade do
aspecto. Uma só coisa pareceu menos aprazível ao irmão: eram os olhos, ou antes o olhar,
cuja expressão de curiosidade sonsa e suspeitosa reserva foi o único senão que lhe achou, e
não era pequeno.
Acabado o almoço, trocadas algumas palavras, poucas e soltas, Helena retirou-se ao
seu quarto, onde durante três dias passou quase todas as horas, a ler meia dúzia de livros que
trouxera consigo, a escrever cartas, a olhar pasmada para o ar, ou encostada ao peitoril de
uma das janelas. Alguma vez desceu a jantar, com os olhos  vermelhos e a fronte pesarosa,
apenas com um sorriso pálido e fugitivo nos lábios. Uma criança, subitamente transferida ao
colégio, não desfolha mais tristemente as primeiras saudades da casa de seus pais. Mas a asa
do tempo leva tudo; e ao cabo de três dias, já a fisionomia de Helena trazia menos sombrio
aspecto. O olhar perdeu a expressão que primeiro lhe achou o irmão, para tornar-se o que era
naturalmente, mavioso e repousado. A palavra saía-lhe mais fácil, seguida e numerosa; a
familiaridade tomou o lugar do acanhamento.
No quarto dia, acabado o almoço, Estácio encetou uma conversa geral, que não passou
de um simples duo, porque D. Úrsula contava os fios da toalha ou brincava com as pontas do
lenço que trazia ao pescoço. Como falassem da casa, Estácio disse à irmã:
— Esta casa é tão sua como nossa; faça de conta que nascemos debaixo do mesmo
teto. Minha tia lhe dirá o sentimento que nos anima a seu respeito. Helena agradeceu com um olhar longo e  profundo. E dizendo que a casa e a chácara lhe
pareciam bonitas e bem dispostas, pediu a D. Úrsula que lhas fosse mostrar mais detidamente.
A tia fechou o rosto e secamente respondeu:
— Agora não, menina; tenho por hábito descansar e ler.
— Pois eu lerei para a senhora ouvir, replicou a moça com graça; não é bom cansar os
seus olhos; e, além disso, é justo que me  acostume a servi-la. Não acha? continuou ela
voltando-se para Estácio.
— É nossa tia, respondeu o moço.
— Oh! ainda não é minha tia! interrompeu Helena. Há de sê-lo quando me conhecer
de todo. Por enquanto somos estranhas uma à outra; mas nenhuma de nós é má.
Estas palavras foram ditas em tom de  graciosa submissão. A voz com que ela as
proferiu, era clara, doce, melodiosa; melhor do que isso, tinha um misterioso encanto, a que a
própria D. Úrsula não pôde resistir.
— Pois deixe que a convivência faça falar o coração, respondeu a irmã do conselheiro
em tom brando. Não aceito o oferecimento da leitura, porque não entendo bem o que os
outros me lêem; tenho os olhos mais inteligentes que os ouvidos. Entretanto, se quer ver a
casa e a chácara, seu irmão pode conduzi-la.
Estácio declarou-se pronto para acompanhar a irmã. Helena, entretanto, recusou.
Irmão embora, era a primeira vez que o via, e, ao que parece, a primeira que podia achar-se a
sós com um homem que não seu pai. D. Úrsula, talvez porque preferisse ficar só algum
tempo, disse-lhe secamente que fosse. Helena acompanhou o irmão. Percorreram parte da
casa, ouvindo a moça as explicações que lhe dava Estácio e inquirindo de tudo com zelo e
curiosidade de dona da casa. Quando chegaram à porta do gabinete  do conselheiro, Estácio
parou.
— Vamos entrar num lugar triste para mim, disse ele.
— Que é?
— O gabinete de meu pai.
— Oh! deixe ver!
Entraram os dois. Tudo estava do mesmo modo que no dia em que o conselheiro
falecera. Estácio deu algumas indicações relativas ao teor da vida doméstica de seu pai;
mostrou-lhe a cadeira em que ele costumava ler, de tarde e de manhã; os retratos de família, a
secretária, as estantes; falou  de quanto podia interessá-la. Sobre a mesa, perto da janela,
estava ainda o último livro que o conselheiro lera: eram as Máximas do Marquês de Maricá.
Helena pegou nele e beijou a  página aberta. Uma lágrima brotou-lhe dos olhos, quente de
todo o calor de uma alma apaixonada e sensível; brotou, deslizou-se e foi cair no papel.
— Coitado! murmurou ela.
Depois sentou-se na mesma cadeira em que o conselheiro costumava dormir alguns
minutos depois de jantar, e olhou para fora. O dia começava a aquecer. O arvoredo dos
morros fronteiros estava coberto de flores-da-quaresma, com suas pétalas roxas e tristemente
belas. O espetáculo ia com a situação de ambos. Estácio deixou-se levar ao sabor de suas
recordações da meninice. De envolta com elas veio pousar-lhe ao lado a figura de sua mãe;
tornou a vê-la, tal qual se lhe fora dos braços, uma crua noite de outubro, quando ele contava
dezoito anos de idade. A boa senhora morrera quase moça, — ainda  bela, pelo menos, —
daquela beleza sem outono, cuja primavera tem duas estações.
Helena ergueu-se.
— Gostava dele? perguntou ela.
— Quem não gostaria dele?
— Tem razão. Era uma alma grande e nobre; eu adorava-o. Reconheceu-me; deu-me
família e futuro; levantou-me aos olhos de todos e aos meus  próprios. O resto depende de
mim, do juízo que eu tiver, ou talvez da fortuna. Esta última palavra saiu-lhe do coração como um suspiro. Depois de alguns segundos
de silêncio, Helena enfiou o  braço no do irmão e desceram à chácara. Fosse influência do
lugar ou simples mobilidade de espírito, Helena tornou-se logo outra  do que se revelara no
gabinete do pai. Jovial, graciosa e travessa, perdera aquela gravidade quieta e senhora de si
com que aparecera na sala de jantar; fez-se lépida e viva, como as andorinhas que antes, e
ainda agora, esvoaçavam por meio das árvores e por cima da grama. A mudança causou certo
espanto ao moço; mas ele a explicou de si para si, e em todo o caso não o impressionou mal.
Helena pareceu-lhe naquela ocasião, mais do que antes, o complemento da família. O que ali
faltava era justamente o gorjeio, a graça, a travessura, um elemento que temperasse a austeridade da casa e lhe desse todas as feições necessárias ao lar doméstico. Helena era esse
elemento complementar.
A excursão durou cerca de meia hora. D. Úrsula viu-os chegar, ao cabo desse tempo,
familiares e amigos, como se  houvessem sido criados juntos. As sobrancelhas grisalhas da
boa senhora contraíram-se, e o lábio inferior recebeu uma dentada de despeito.
— Titia... disse Estácio jovialmente; minha irmã conhece já a casa toda e suas
dependências. Resta somente que lhe mostremos o coração.
D. Úrsula sorriu, um sorriso amarelo e  acanhado, que apagou nos olhos da moça a
alegria que os tornava mais lindos. Mas foi breve a má impressão; Helena caminhou para a
tia, e pegando-lhe nas mãos, perguntou com toda a doçura da voz:
— Não quererá mostrar-me o seu?
— Não vale a pena! respondeu D. Úrsula com afetada bonomia; coração de velha é
casa arruinada.
— Pois as casas velhas consertam-se, replicou Helena sorrindo.
D. Úrsula sorriu também; desta vez porém, com expressão melhor. Ao mesmo tempo,
fitou-a; e era a primeira vez que o fazia. O olhar, a princípio indiferente, manifestou logo
depois a impressão que lhe causava a beleza da moça. D. Úrsula retirou os olhos; porventura
receou que o influxo das graças de Helena  lhe torcessem o coração, e ela queria ficar
independente e inconciliável.
CAPÍTULO IV
As primeiras semanas correram sem nenhum sucesso  notável, mas ainda assim
interessantes. Era, por assim dizer, um tempo de espera, de hesitação, de observação
recíproca, um tatear de caracteres, em que de uma e de outra parte procuravam conhecer o
terreno e tomar posição. O próprio Estácio, não obstante a primeira impressão, recolhera-se a
prudente reserva, de que o arrancou aos pouco o procedimento de Helena.
Helena tinha os predicados próprios a captar a confiança e a afeição da família. Era
dócil, afável, inteligente. Não eram estes, contudo, nem ainda a beleza, os seus dotes por
excelência eficazes. O que a tornava superior e lhe dava probabilidade de triunfo, era a arte de
acomodar-se às circunstâncias do momento e a toda a casta de espíritos, arte preciosa, que faz
hábeis os homens e estimáveis as mulheres. Helena praticava de livros ou de alfinetes, de
bailes ou de arranjos de casa, com igual interesse e gosto, frívola com os frívolos, grave com
os que o eram, atenciosa e ouvida, sem entono nem vulgaridade. Havia nela a jovialidade da
menina e a compostura da mulher feita, um acordo de virtudes domésticas e maneiras
elegantes.
Além das qualidades naturais, possuía Helena algumas prendas de sociedade, que a
tornavam aceita a todos, e mudaram em parte o teor da vida da família. Não falo da magnífica
voz de contralto, nem da correção com que sabia usar dela, porque ainda então, estando fresca
a memória do conselheiro, não tivera ocasião de  fazer-se ouvir. Era pianista distinta, sabia
desenho, falava correntemente a língua francesa, um pouco a inglesa e a italiana. Entendia de costura e bordados e toda a sorte de trabalhos feminis. Conversava com graça e lia
admiravelmente. Mediante os seus recursos,  e muita paciência, arte e resignação, — não
humilde, mas digna, — conseguia polir os ásperos, atrair os indiferentes e domar os hostis.
Pouco havia ganho no espírito de D. Úrsula; mas a repulsa desta já não era tão viva
como nos primeiros dias. Estácio cedeu de todo, e era fácil; seu coração tendia para ela, mais
que nenhum outro. Não cedeu,  porém, sem alguma hesitação e dúvida. A flexibilidade do
espírito da irmã afigurou-se-lhe a princípio mais calculada que espontânea. Mas foi impressão
que passou. Dos próprios escravos não obteve Helena desde logo a simpatia e boa vontade;
esses pautavam os sentimentos pelos de D. Úrsula. Servos de uma família, viam com desafeto
e ciúme a parenta nova, ali trazida por um ato de generosidade. Mas também a esses venceu o
tempo. Um só de tantos pareceu vê-la desde princípio com olhos amigos; era um rapaz de 16
anos, chamado Vicente, cria da casa e particularmente estimado do conselheiro. Talvez esta
última circunstância o ligou desde logo à filha do seu senhor. Despida de interesse, porque a
esperança da liberdade, se a podia haver, era precária e remota, a afeição de Vicente não era
menos viva e sincera; faltando-lhe os gozos próprios do afeto, — a familiaridade e o contacto,
— condenado a viver da contemplação e da  memória, a não beijar sequer a mão que o
abençoava, limitado e distanciado pelos costumes, pelo respeito e pelos instintos, Vicente foi,
não obstante, um fiel servidor de Helena, seu advogado convicto nos julgamentos da senzala.
As pessoas da intimidade da casa acolheram Helena com a mesma hesitação de D.
Úrsula. Helena sentiu-lhes a polidez fria e parcimoniosa. Longe de abater-se ou vituperar os
sentimentos sociais, explicava-os e tratava de os torcer em seu favor, — tarefa em que se
esmerou superando os obstáculos na família; o resto viria de si mesmo.
Uma pessoa, entre os familiares da casa, não os acompanhou no procedimento
reservado e frio; foi o Padre-mestre Melchior. Melchior era capelão em casa do conselheiro,
que mandara construir alguns  anos antes uma capelinha na  chácara, onde muita gente da
vizinhança ouvia missa aos domingos. Tinha sessenta anos o padre; era homem de estatura
mediana, magro, calvo, brancos os poucos cabelos, e uns olhos não menos sagazes que
mansos. De compostura quieta e grave, austero sem formalismo, sociável sem mundanidade,
tolerante sem fraqueza, era o verdadeiro varão apostólico, homem de  sua Igreja e de seu
Deus, íntegro na fé, constante na esperança, ardente na  caridade. Conhecera a família do
conselheiro algum tempo depois do consórcio deste. Descobriu a causa da tristeza que minou
os últimos anos da mãe de Estácio; respeitou a tristeza, mas atacou diretamente a origem. O
conselheiro era homem geralmente razoável, salvo nas coisas do amor; ouviu o padre,
prometeu o que este lhe exigia, mas foi promessa feita na areia; o primeiro vento do coração
apagou a escritura. Entretanto, o conselheiro  ouvia-o sinceramente em todas as ocasiões
graves, e o voto de Melchior pesava em seu espírito. Morando na vizinhança daquela família,
tinha ali o padre todo o seu mundo. Se as obrigações eclesiásticas não o chamavam a outro
lugar, não se arredava de Andaraí, sítio de repouso após trabalhosa mocidade.
Das outras pessoas que freqüentavam a casa e residiam no mesmo bairro de Andaraí,
mencionaremos ainda o Dr. Matos, sua mulher, o Coronel Macedo e dois filhos.
O Dr. Matos era um velho advogado que, em compensação da ciência do direito, que
não sabia, possuía noções muito aproveitáveis de meteorologia e botânica, da arte de comer,
do voltarete, do gamão e da política. Era impossível a ninguém queixar-se do calor ou do frio,
sem ouvir dele a causa e a natureza de um e outro, e logo a divisão das estações, a diferença
dos climas, influência  destes, as chuvas, os ventos, a neve, as vazantes dos rios e suas
enchentes, as marés e a pororoca. Ele falava com igual abundância das qualidades
terapêuticas de uma erva, do nome científico de uma flor, da estrutura de certo vegetal e suas
peculiaridades. Alheio às paixões da política, se abria a boca em tal assunto era para criticar
igualmente de liberais e conservadores, — os quais todos lhe pareciam abaixo do país. O jogo
e a comida achavam-no menos céptico; e nada lhe avivava tanto a fisionomia como um bom gamão depois de um bom jantar. Estas prendas faziam do Dr. Matos um conviva interessante
nas noites que o não eram. Posto soubesse efetivamente alguma coisa dos assuntos que lhe
eram mais prezados, não ganhou o pecúlio que possuía, professando a botânica ou a meteorologia, mas aplicando as regras do direito, que ignorou até à morte.
A esposa do Dr. Matos fora uma das belezas do primeiro reinado. Era uma rosa
fanada, mas conservava o aroma da juventude. Algum tempo  se disse que o conselheiro
ardera aos pés da mulher do advogado, sem repulsa desta; mas só era verdade a primeira parte
do boato. Nem os princípios morais, nem o temperamento de D. Leonor lhe consentiam outra
coisa que não fosse repelir o conselheiro sem o molestar. A arte com que o fez, iludiu os
malévolos; daí o sussuro, já agora esquecido e morto. A reputação dos homens amorosos
parece-se muito com o juro do dinheiro: alcançado certo capital, ele próprio se multiplica e
avulta. O conselheiro desfrutou essa vantagem, de maneira que, se no outro mundo lhe
levassem à coluna dos pecados todos os que lhe atribuíam na terra, receberia dobrado castigo
do que mereceu.
O Coronel Macedo tinha a particularidade de não ser coronel. Era major. Alguns
amigos, levados de um espírito de retificação, começaram a dar-lhe o título de coronel, que a
princípio recusou, mas que afinal foi compelido a aceitar, não podendo gastar a vida inteira a
protestar contra ele. Macedo tinha visto e vivido muito; e, sobre o pecúlio da experiência,
possuía imaginação viva, fértil e agradável. Era bom companheiro, folgazão e comunicativo,
pensando sério quando era preciso. Tinha dois filhos, um rapaz de vinte anos, que estudava
em S. Paulo, e uma moça de vinte e três, mais prendada que formosa.
Nos primeiros dias de agosto a situação  de Helena podia dizer-se consolidada. D.
Úrsula não cedera de todo, mas a convivência ia produzindo seus frutos. Camargo era o único
irreconciliável; sentia-se, através de suas maneiras cerimoniosas, uma aversão profunda,
prestes a converter-se em hostilidade, se fosse preciso. As demais pessoas, não só domadas,
mas até enfeitiçadas, estavam às boas com a filha do conselheiro. Helena tornara-se o
acontecimento do bairro; seus ditos e gestos eram o assunto da vizinhança e o prazer dos
familiares da casa. Por uma natural curiosidade, cada um procurava em suas reminiscências
um fio biográfico da moça; mas do inventário retrospectivo ninguém tirava elementos que
pudessem construir a verdade ou uma só parcela que fosse. A origem da moça continuava
misteriosa; vantagem grande, porque o obscuro favorecia a lenda, e cada qual podia atribuir o
nascimento de Helena a um amor ilustre ou romanesco, — hipóteses admissíveis, e em todo o
caso agradáveis a ambas as partes.
CAPÍTULO V
Por esse tempo resolveu Estácio dar um  passo decisivo. Ligado por amor à filha de
Camargo, desde antes da morte do conselheiro, hesitara sempre em pedi-la ao pai, diferindo a
resolução para quando fosse propício o ensejo. A condição não era fácil, porque o sentimento
que ele nutria em relação a Eugênia tinha alternativas de tibieza e fervor. A causa disso pode
crer-se estava também em seu coração; mas principalmente residia nela. Num dos primeiros
dias de agosto, assentara Estácio de ir solicitar de Eugênia autorização para fazer oficialmente
o pedido. Assim disposto, dirigiu-se à casa de Camargo.
Mal o avistou de longe, desceu Eugênia à porta do jardim. O chapelinho de palha, de
abas largas, que lhe protegia o rosto dos raios do sol, — eram três horas da tarde, — tornava
mais bela a figura da moça. Eugênia era uma das mais brilhantes estrelas entre as menores do
céu fluminense. Agora mesmo, se o leitor lhe descobrir o perfil em camarote de teatro, ou se a
vir entrar em alguma sala de baile, compreenderá, — através de um quarto de século, — que
os contemporâneos de sua mocidade lhe tivessem louvado, sem contraste, as graças que então
alvoreciam com o frescor e a pureza das primeiras horas. Era de pequena estatura; tinha os cabelos de um castanho escuro, e os olhos grandes e
azuis, dois pedacinhos do céu, abertos em rosto alvo e corado; o corpo, levemente refeito, era
naturalmente elegante; mas se a dona sabia vestir-se com luxo, e até com arte, não possuía o
dom de alcançar os máximos efeitos com os meios mais simples.
Estácio contemplou-a namorado sem ousar dizer palavra; a primeira que lhe ia sair dos
lábios, era justamente o pedido que o levava ali. Mas Eugênia deteve-lha, mostrando o anel
que a madrinha, fazendeira de Cantagalo, lhe mandara na véspera. Era uma opala magnífica,
a tal ponto que Eugênia dividia os olhos entre o namorado e ela. Esta simultaneidade esfriou o
mancebo. Entraram ambos em casa, onde D. Tomásia os esperava. A mãe de Eugênia sabia
combinar o decoro com os desejos de seu coração; não seria obstáculo aos dois namorados;
infelizmente, a presença de duas  visitas veio destruir o cálculo dos três. Estácio espreitava
uma ocasião de pedir a Eugênia a autorização que desejava; até ao jantar não se lhe deparou
nenhuma.
Desceram todos ao jardim. D. Tomásia  entreteve uma das visitas; Camargo foi
mostrar à outra a sua coleção de flores. Estácio e Eugênia afastaram-se cautelosamente dos
dois grupos, a pretexto de não sei que flor aberta na manhã daquele  dia. A flor existia;
Eugênia colheu-a e deu a Estácio.
— Não vá perdê-la; há de entregá-la a Helena da minha parte. Diga-lhe que estou com
muitas saudades.
Estácio colocou a flor na botoeira.
— Vai cair! disse Eugênia. Quer que pregue um alfinete? Estácio não teve tempo de
responder, porque a filha de Camargo, tirando um alfinete do cinto, prendeu o pé da flor,
gastando muito mais tempo do que o exigia a operação. A moça não era míope; todavia
aproximou de tal modo a cabeça ao peito do mancebo, que este teve ímpetos de lhe beijar os
cabelos, e seria a primeira vez que seus lábios lhe tocassem.
— Pronto! disse ela. Diga a Helena que é a flor mais bonita do nosso jardim. Sabe que
eu gosto muito de sua irmã?
— Acredito.
— Suponho que é minha amiga; há de sê-lo com certeza. Oh! eu preciso muito de uma
amiga verdadeira!
— Sim?
— Muito! Tenho tantas que não  prestam para nada, e só  me dão desgostos, como
Cecília... Se soubesse o que ela me fez!
— Que foi?
Eugênia desfiou uma historiazinha de toucador, que omito em suas particularidades
por não interessar ao nosso caso, bastando saber que a razão capital da divergência entre as
duas amigas fora uma opinião de Cecília acerca da escolha de um chapéu.
Estácio não escutou a história com a atenção que a moça desejara; limitou-se a ouvir a
voz de Eugênia, que era na verdade angélica. Alguma coisa porém lhe ficou; e quando ela pôs
termo às suas queixas:
— O que me parece, observou o sobrinho de D. Úrsula, é que não valia a pena brigar
por tão pouca coisa...
— Pouca coisa! exclamou Eugênia. Parece-lhe pouco chamar-me caprichosa e de mau
gosto?
— Fez mal, se o disse, em todo o caso...
Estácio fez uma pausa e continuou a andar. Eugênia esperou que ele continuasse o que
ia dizer; mas o silêncio prolongou-se mais do que era natural.
— Em todo o caso? repetiu a moça erguendo para ele os olhos límpidos e curiosos.
— Eugênia, disse Estácio, quer saber a verdadeira razão do mau sucesso de suas
afeições? E deixar-se levar mais pelas aparências que pela realidade; é porque dá menos apreço às qualidades sólidas do coração do que  às frívolas exterioridades da vida. Suas
amizades são das que duram a roda de uma valsa, ou, quando muito, a moda de um chapéu;
podem satisfazer o capricho de um dia, mas são estéreis para as necessidades do coração.
— Jesus! exclamou Eugênia, estacando o passo; um sermão por tão pouca coisa! Se
tivesse algum pedaço de latim, era o mesmo que estar ouvindo o Padre Melchior.
Estácio não respondeu; contentou-se com erguer os ombros, e os dois continuaram a
andar silenciosamente, acanhados e descontentes um do outro. A diferença é que o enfado de
Eugênia se manifestava por um movimento nervoso de impaciência e despeito.
— Se o ofendi, perdoe-me, disse ela, com um leve tom de ironia.
— Oh! exclamou ele apertando-lhe a mão, como quem só esperava um pretexto para
reatar a conversa interrompida.
— Talvez ofendesse, continuou a moça; eu sei dizer as coisas como elas me vêm à
boca, e parece que não são as mais acertadas..
— Não digo que o sejam sempre, replicou Estácio sorrindo. Agora, pelo menos, foi
um pouco precipitada em zombar do que eu lhe dizia, que era justo e de boa intenção.
Francamente, é para lastimar uma amizade, ganha entre duas quadrilhas e perdida por causa
de um chapéu? Não vale a pena esperdiçar afetos, Eugênia; sentirá mais tarde que essa moeda
do coração não se deve nunca reduzir a trocos miúdos nem despender em quinquilharias.
Eugênia ouviu calada as palavras do moço; não as entendeu muito. Sabia-lhes a
significação; não lhes viu porém nexo nem sentido; sobretudo, não lhes sentiu a aplicação. O
que a irritou mais foi o tom pedagogo de Estácio; estouvada e voluntariosa, não admitia que
ninguém lhe falasse sem submissão ou a repreendesse por atos seus, que ela julgava legítimos
e naturais. A insistência do moço foi o ponto de partida a um desses arrufos, não raros entre
amantes, e comuns entre aqueles dois. Os de Eugênia não eram simples silêncios; seu espírito
rebelde e livre não adormecia  nesses momentos de enfado; pelo contrário, irritava-se e
traduzia a irritação por meio de pirraças e acessos de mau humor. Estácio viu murmurar,
crescer e desabar a tempestade. A moça articulava algumas frases soltas, batia no chão com o
pezinho mimoso, que por acaso esmagou uma pobre  erva, alheia às divergências morais
daquelas duas criaturas. Ora parava e desandava o caminho; mas logo se dirigia para o moço,
com as pálpebras trêmulas de cólera, e um remoque nos lábios; comprazia-se em torcer a
ponta da manga ou morder a ponta do dedo. Estácio, afeito a essas explosões, não lhes sabia
remédio próprio: tanto o  silêncio como a réplica eram ali matérias inflamáveis. Contudo, o
silêncio era o menor dos dois perigos. Estácio limitava-se a ouvir calado, olhando à sorrelfa
para a filha de Camargo, cujo rosto parecia mais belo quando a raiva o coloria. Uma terceira
pessoa era a única esperança de pacificação; Estácio alongou o olhar pelo jardim em busca
desse deus ex machina.  Apareceu ele enfim sob a forma de um Carlos Barreto, — estudante
de medicina, que cultivava simultaneamente a patologia e a comédia, mas prometia ser
melhor Esculápio que Aristófanes. Mal os viu de longe, apertou o passo para o grupo.
— Vem gente, Eugênia, disse Estácio; não demos espetáculos e... perdoe-me.
Eugênia ergueu os ombros, procurou com  os olhos o intruso que daí a pouco lhes
estendia a mão.
O céu não ficou logo claro; mas o vento amainou, e era de esperar que o sol se
desfizesse enfim do seu capote de nuvens. Carlos Barreto deu a Eugênia a agradável notícia
de que trouxera a seu pai um convite para o baile que daria no sábado próximo uma de suas
parentas. A perspectiva do baile foi uma brisa salutar que dispersou o resto das nuvens;
Eugenia sorriu. J’ai ri; me voilà désarmée, como na comédia de Piron. Vinte minutos depois,
não havia em Eugênia vestígio da cena do jardim. Mas a idéia do casamento estava adiada.
O efeito foi agro e doce para Estácio. Estimando ver dissipada a cólera, doía-lhe que a
causa fosse, não a própria virtude do amor, mas um motivo comparativamente fútil. A
resolução de a consultar sobre o pedido de casamento esvaiu-se-lhe como de outras vezes. Saiu dali à noite, antes do chá, aborrecido e azedo. Esse estado não durou muito; dez minutos
depois de deixar a casa de Camargo, sentiu alguma coisa semelhante à dentada de um
remorso. O amor de Estácio tinha a particularidade de crescer e afirmar-se na ausência e
diminuir logo que estava ao pé da moça. De longe, via-a através da névoa luminosa da imaginação; ao pé era difícil que Eugênia conservasse os dotes que ele lhe emprestava. Daí, um
dissentimento provável e um remorso certo. Agora que a deixava, ia ele irritado contra si
mesmo; achava-se ridículo e cruel; chegava a adorar toda a graciosa futilidade de Eugênia;
concedia alguma coisa à idade, à educação, aos costumes, à ignorância da vida.
Nesse estado de espírito entrou em casa, onde o esperava um incidente novo.
CAPÍTULO VI
Chegando à casa, achou Estácio remédio ao mau humor. Era uma carta de Luís
Mendonça, que dois anos antes partira para a Europa, donde agora regressava. Escrevia-lhe
de Pernambuco, anunciando-lhe que dentro de poucas semanas  estaria no Rio de Janeiro.
Mendonça fora o seu melhor companheiro de aula. Havia entre  eles certos contrastes de
gênio. O de Mendonça era mais folgazão e ativo. Quando este partiu para a Europa, quis que
o antigo colega o acompanhasse, e o próprio  conselheiro opinara nesse sentido. Estácio
recusou pelo receio de que, sendo diferente o espírito de um e outro, a viagem tivesse de
obrigar ao sacrifício de hábitos e preferências de um deles.
A notícia da volta de Mendonça encheu de contentamento o sobrinho de D. Úrsula. D.
Úrsula estava então na sala de costura, relendo algumas páginas do seu Saint-Clair, encostada
a uma mesa. Do outro lado, ficava Helena, a conduir uma obra de crochet.
— Titia, disse ele, dou-lhe uma novidade agradável para mim.
— Que é?
— O Mendonça chegou a Pernambuco; está aqui dentro de pouco tempo.
— O Mendonça?
— Luís Mendonça.
— O que foi para a Europa, sei. Há quanto tempo?
— Dois anos.
— Dois anos! Parece que foi ontem.
— Não lhe leio a carta que me escreveu  por ser muito longa. Diz-me que devo ir
também à Europa, quanto antes. Querem ir?
— Eu? disse D. Úrsula, marcando a página do livro com os óculos de prata que até
então conservara sobre o nariz. Não são folias para gente velha. Daqui para a cova.
— A cova! exclamou Helena. Está ainda tão forte! Quem  sabe se não me há de
enterrar primeiro?
— Menina! exclamou D. Úrsula em tom de repreensão. Helena sorriu de alegria e
agradecimento; era a primeira palavra de verdadeira simpatia que ouvia a D. Úrsula. Bem o
compreendeu esta; e talvez a  mortificou aquela espontaneidade do coração. Mas era tarde.
Não podia recolher a palavra, não podia sequer explicá-la.
— Que tal virá o teu amigo? perguntou ela ao sobrinho. Era bom rapaz antes de ir; um
pouco tonto, apenas.
— Há de vir o mesmo, respondeu Estácio; ou ainda melhor. Melhor decerto, porque
dois anos mais modificam o homem.
Estácio fez aqui um panegírico do amigo, intercalado com observações da tia, e
ouvido silenciosamente  pela irmã. Vieram chamar para o chá. D. Úrsula largou
definitivamente o seu romance, e Helena guardou o crochet na cestinha de costura.
— Pensa que gastei toda a tarde em fazer  crochet?  perguntou ela ao irmão,
caminhando para a sala de jantar. — Não?
— Não, senhor; fiz um furto.
— Um furto!
— Fui procurar um livro na sua estante.
— E que livro foi?
— Um romance.
— Paulo e Virgínia?
— Manon Lescaut.
— Oh! exclamou Estácio. Esse livro...
— Esquisito, não é? Quando percebi que o era, fechei-o e lá o pus outra vez.
— Não é livro para moças solteiras.
— Não creio mesmo que seja para moças casadas, replicou Helena rindo e sentandose à mesa. Em todo o caso, li apenas algumas páginas. Depois abri um livro de geometria... e
confesso que tive um desejo...
— Imagino! interrompeu D. Úrsula.
— O desejo de aprender a montar a cavalo, concluiu Helena.
Estácio olhou espantado para a irmã. Aquela mistura de geometria e equitação não lhe
pareceu suficientemente clara e explicável. Helena soltou uma risadinha alegre de menina que
aplaude a sua própria travessura.
— Eu lhe explico, disse ela; abri o livro,  todo alastrado de riscos que não entendi.
Ouvi porém um tropel de cavalos e cheguei à janela. Eram três cavaleiros, dois homens e uma
senhora. Oh! com que garbo montava a senhora! Imaginem uma moça de vinte e cinco anos,
alta, esbelta, um busto de fada, apertado no corpinho de amazona, e a longa cauda do vestido
caída a um lado. O cavalo era fogoso; mas a mão e o chicotinho da cavaleira quebravam-lhe
os ímpetos. Tive pena, confesso, de não saber montar a cavalo.
— Quer aprender comigo?
— Titia consente?
D. Úrsula levantou os ombros com o ar mais indiferente  que pôde achar no seu
repertório. Helena não esperou mais.
— Escolha você o dia.
— Amanhã?
— Amanhã.
Estácio costumava dar uns passeios a cavalo quase todas as manhãs. O do dia seguinte
foi dispensado; começariam as lições de Helena. Antes disso, porém, escreveu Estácio à filha
de Camargo uma carta recendente a ternura e afeto. Pedia-lhe desculpa do que se passara na
véspera; jurava-lhe amor eterno; coisas todas que lhe dissera mais de uma vez, com o mesmo
estilo, se não com as mesmas palavras. A carta dissipou-lhe a última sombra de remorso.
Antes que ela chegasse ao seu destino, reconciliara-se ele consigo mesmo. O portador saiu
para o Rio Comprido, e ele desceu ao terreiro que ficava nos fundos da casa, ao pé do qual
estava situada a cavalariça. Naquele lado da casa corria a varanda antiga, onde a família
costumava às vezes tomar café ou conversar nas noites de luar, que ali penetrava pelas largas
janelas. Do meio da varanda descia uma escada de pedra que ia ter ao terreiro.
Já ali estava Helena. D. Úrsula emprestara-lhe um vestido  de amazona, com que
algumas vezes montara, antes da morte do irmão. O vestido ficava-lhe mal; era folgado
demais para  o talhe delgado da moça. Mas a elegância natural fazia esquecer o acessório das
roupas.
— Pronta! exclamou Helena apenas viu o irmão assomar no alto da escada.
— Oh! isso não vai assim! respondeu Estácio. Não suponha que há de montar já hoje
como a moça que ontem viu passar na estrada. Vença primeiramente o medo.
— Não sei o que é medo, interrompeu ela com ingenuidade. — Sim? Não a supunha valente. Pois eu sei o que ele é.
— O medo? O medo é um preconceito dos nervos. E um preconceito desfaz-se; basta
a simples reflexão. Em pequena educaram-me com almas do outro mundo. Até a idade de dez
anos era incapaz de penetrar numa sala escura. Um dia perguntei a mim mesma se era
possível que uma pessoa morta voltasse à terra. Fazer a pergunta e dar-lhe resposta era a
mesma coisa. Lavei o meu espírito de semelhante tolice, e hoje era capaz de entrar, de noite,
num cemitério... E daí talvez não: os corpos que ali dormem têm direito de não ouvir mais um
só rumor de vida.
Estácio chegara ao último degrau da escada. As derradeiras palavras ouviu-as ele com
os olhos fitos na irmã e encostado ao poial de pedra.
— Quem lhe ensinou essas idéias? perguntou ele.
— Não são idéias, são sentimentos. Não se aprendem; trazem-se no coração. Senhor
geômetra, continuou brandindo caprichosamente o  chicote, — veja se transcreve em algum
compêndio estas figuras de minha invenção, e ande cavalgar comigo.
Com um movimento rápido travou da cauda do vestido, e caminhou para diante.
Estácio acompanhou-a, a passo lento, como solicitado por dois sentimentos diferentes: a
afeição que o prendia à irmã, e a estranha impressão que ela lhe fazia sentir. Quando chegou à
porta da cavalariça, viu aparelhados dois animais, o cavalo de seus passeios da manhã, e a
égua que a tia cavalgava uma ou outra vez.
— Que é isso? disse ele. Por ora vamos a algumas indicações somente, aqui no
terreiro.
— Justamente! respondeu a moça.
Um escravo, que ali estava, trouxe um tamborete. Estácio aproximou-se de Helena,
que afagava com a mão alva e fina as crinas da égua.
— Como se chama? perguntou ela.
— Moema.
— Moema! Ora espere... é um nome indígena, não é?
Estácio fez um sinal afirmativo. Helena tinha um pé sobre o tamborete; repetiu ainda o
nome da égua, como quem refletia sobre ele, sem que o irmão percebesse que não era aquilo
mais do que um disfarce. De  repente, quando ele menos esperava, Helena deu um salto, e
sentou-se no selim. A égua alteou o colo, como vaidosa do peso. Estácio olhou para a irmã,
admirado da agilidade e correção do movimento, e sem saber ainda o que pensasse daquilo.
Helena inclinou-se para ele.
— Fui bem? perguntou sorrindo.
— Não podia ir melhor; mas o que me admira...
As patas de  Moema  interromperam a reflexão do moço. A cavaleira brandira o
chicotinho, e o animal saíra a trote largo pelo terreiro fora. Estácio, no primeiro momento,
deu um passo e estendeu a mão como para tomar a rédea ao animal; mas a segurança da moça
logo lhe deixou ver que ela não fazia ali os  primeiros ensaios. Ficou parado, de longe, a
admirar-lhe o garbo e a destreza. No fim de vinte passos, Helena torceu a rédea e regressou ao
ponto donde saíra.
— Que tal? disse ela logo que estacou. Terei jeito para a equitação?
— Criança!
— Que é isso? Já aprendeu? interveio D. Úrsula, do alto da varanda, onde acabava de
chegar.
— Estava caçoando conosco, disse Estácio. Vê como sabe montar?
— Ela sabe tudo, murmurou D. Úrsula entre dentes.
Estácio montou no cavalo. Consultou o relógio; eram sete horas e meia.
— Permite que o acompanhe? perguntou Helena. — Com uma condição, disse ele; é que há de ter juízo. Não quero temeridades; a égua
é aparentemente mansa, convém não brincar com ela. Já vejo que você é capaz de muitas
coisas mais..
— Prometo ir pacificamente.
Helena cumprimentou a tia com um gesto gracioso, deu de rédea ao animal e seguiu
ao lado do irmão. Transposto o portão, seguiram os dois para o lado de cima, a passo lento. O
sol estava encoberto e a manhã fresca. Helena cavalgava perfeitamente; de quando em
quando a égua, instigada por ela, adiantava-se alguns passos ao cavalo; Estácio repreendia a
irmã, a seu pesar, porque ao mesmo tempo que temia alguma imprudência, gostava de lhe ver
o airoso do busto e a firme serenidade com que ela conduzia o animal.
— Não me dirá você, perguntou ele, por que motivo, sabendo montar, pedia-me ontem
lições?
— A razão é clara, disse ela; foi uma simples travessura, um capricho... ou antes um
cálculo.
— Um cálculo?
— Profundo, hediondo, diabólico, continuou a moça sorrindo. Eu queria passear
algumas vezes a cavalo; não era possível sair só, e nesse caso...
— Bastava pedir-me que a acompanhasse.
— Não bastava. Havia um meio de lhe dar mais gosto em sair comigo; era fingir que
não sabia montar. A idéia momentânea de sua superioridade neste assunto era bastante para
lhe inspirar uma dedicação decidida...
Estácio sorriu do cálculo; logo depois ficou sério, e perguntou em tom seco:
— Já lhe negamos algum prazer que desejasse?
Helena estremeceu e ficou igualmente séria.
— Não! murmurou; minha dívida não tem limites.
Esta palavra saiu-lhe do coração. As pálpebras caíram-lhe e um véu de tristeza lhe
apagou o rosto. Estácio arrependeu-se do que dissera. Compreendeu a irmã; viu que, por mais
inocentes que suas palavras fossem, podiam ser tomadas à má parte, e, em tal caso, o menos
que se lhe podia argüir era a descortesia. Estácio timbrava em ser o mais polido dos homens.
Inclinou-se para ela e rompeu o silêncio.
— Você ficou triste, disse Estácio; mas eu desculpo-a.
— Desculpa-me? perguntou a moça erguendo para o irmão os belos olhos úmidos.
— Desculpo a injúria que me fez, supondo-me grosseiro.
Apertaram-se as mãos, e o passeio continuou nas melhores disposições do mundo.
Helena deu livre curso à imaginação e ao  pensamento; suas falas exprimiam, ora a
sensibilidade romanesca, ora a reflexão da experiência prematura, e iam direitas à alma do
irmão, que se comprazia em ver nela a mulher como ele queria que fosse, uma graça
pensadora, uma sisudez amável. De quando  em quando faziam parar os animais para
contemplar o caminho percorrido, ou discretear acerca de um acidente do terreno. Uma vez,
aconteceu que iam falando das vantagens da riqueza.
— Valem muito os bens da fortuna, dizia Estácio; eles dão a maior felicidade da terra,
que é a independência absoluta. Nunca experimentei a necessidade; mas imagino que o pior
que há nela não é a privação de alguns apetites ou desejos, de sua natureza transitórios, mas
sim essa escravidão moral que submete o homem aos outros homens. A riqueza compra até o
tempo, que é o mais precioso e fugitivo bem que nos coube. Vê aquele preto que ali está?
Para fazer o mesmo trajeto que nós, terá de gastar, a pé, mais uma hora ou quase.
O preto de quem Estácio falara, estava sentado no capim, descascando uma laranja,
enquanto a primeira das  duas mulas que conduzia, olhava filosoficamente para ele. O preto
não atendia aos dois cavaleiros que se aproximavam. Ia esburgando a fruta e deitando os
pedaços de casca ao focinho do animal, que fazia apenas um movimento de cabeça, com o que parecia alegrá-lo infinitamente. Era homem de cerca de quarenta anos; ao parecer,
escravo. As roupas eram rafadas; o chapéu  que lhe cobria a cabeça, tinha já uma cor
inverossímil. No entanto, o rosto exprimia a  plenitude da satisfação; em todo o caso, a
serenidade do espírito.
Helena relanceou os olhos ao quadro que o irmão lhe mostrara. Ao passarem por ele, o
preto tirou respeitosamente o chapéu e continuou na mesma posição e ocupação que dantes.
— Tem razão, disse Helena; aquele homem gastará muito mais tempo do que nós em
caminhar. Mas não é isto uma simples questão de ponto de vista? A rigor, o tempo corre do
mesmo modo, quer o desperdicemos, quer o economizemos. O essencial  não é fazer muita
coisa no menor prazo; é fazer muita coisa aprazível ou útil. Para aquele preto o mais aprazível
é, talvez, esse mesmo caminhar a pé, que lhe alongará a jornada, e lhe fará esquecer o
cativeiro, se é cativo. É uma hora de pura liberdade.
Estácio soltou uma risada.
— Você devia ter nascido...
— Homem?
— Homem e advogado. Sabe defender com habilidade as  causas mais melindrosas.
Nem estou longe de crer que o próprio cativeiro lhe parecerá uma bem-aventurança, se eu
disser que é o pior estado do homem.
— Sim? retorquiu Helena sorrindo; estou  quase a fazer-lhe a vontade. Não faço;
prefiro admirar a cabeça de Moema.  Veja, veja como se vai faceirando. Esta não maldiz o
cativeiro; pelo contrário, parece que lhe dá  glória. Pudera! Se não a tivéssemos cativa,
receberia ela o gosto de me sustentar e  conduzir? Mas não é só faceirice, é também
impaciência.
— De quê?
— Impaciência de correr por essa estrada  da Tijuca fora, e beber o vento da manhã,
espreguiçando os músculos, e sentindo-se alguma coisa senhora e livre. Mas que queres tu,
minha pobre égua? continuou a moça indicando a cabeça até às orelhas do animal; vai aqui ao
pé de nós um homem muito mau e medroso, que é ao mesmo tempo meu irmão e meu
inimigo.
— Helena! interrompeu Estácio; você é muito capaz de disparar a correr.
— E se fosse?
— Eu deixava-a ir, e nunca a traria em meus passeios. Você monta bem; mas não
desejo que faça temeridades. Nós somos responsáveis, não só por sua felicidade, mas também
por sua vida.
Helena refletiu um instante.
— Quer dizer, perguntou ela, que se eu fosse vítima de um desastre, não faltaria quem
o imputasse à minha família?
— Justo.
— Singular gente! Não há de ser tanto assim... Pois se eu me lembrasse — é uma
suposição — se eu me lembrasse de deixar a vida por aborrecimento ou capricho, seria você
acusado de me haver propinado o veneno? Não há melhor modo de me fazer evitar a morte.
— Deixemos conversas lúgubres, e voltemos para casa, interrompeu Estácio.
— Já!
— Raras vezes passo daqui; e não pense você que é perto.
— Parece-me que ainda agora saímos de casa. Vamos uns cinco minutos adiante?
Sim?
Estácio consultou o relógio.
— Cinco minutos justos, disse ele.
— Até aquela casa que ali está com uma bandeira azul. Havia, efetivamente, cerca de quatro minutos adiante, à esquerda da estrada, uma casa
de insignificante aparência, sobre cujo telhado flutuava uma bandeira azul presa a uma vara.
Estácio conhecia a casa, mas era a primeira vez que via a bandeira. Helena pediu-lhe a
explicação daquele apêndice.
— Vá lá saber, disse o irmão rindo.
Helena deu de rédea à égua e adiantou-se  alguns passos. Estácio apertou o animal e
alcançou-a.
— Não vá fazer tolices! disse ele em tom de branda repreensão. Aquilo é fantasia do
morador, ou algum sinal de pássaros, ou qualquer outra coisa que não vale a pena de uma
travessura. Contemplemos antes a manhã, que está deliciosa.
Helena não atendeu à proposta do irmão e foi andando, a passo lento, na direção da
casa. A casa era velha, abrindo por uma porta para o alpendre antigo que lhe corria na frente.
As colunas deste estavam já lascadas em muitas partes, aparecendo, aqui e ali, a ossada de
tijolo. A porta estava meio aberta. Havia absoluta solidão, aparente ao menos. Quando eles
lhe passaram pela frente, a porta abriu-se, mas se alguém espreitava por ela, ficou sumido na
sombra, porque ninguém de fora o viu.
Cerca de cinco braças adiante, Estácio resolveu definitivamente regressar, e Helena
não opôs objeção nenhuma. Torceram a rédea aos animais e desceram.
— Não poderei falar à bandeira? perguntou a moça. Deixe-me ao menos dizer-lhe
adeus.
Tinha já tirado da algibeira o seu fino lenço de cambraia; agitou-o na direção da casa.
Quis o acaso que a bandeira, até então quieta, se movesse ao sopro de uma aragem que
passou.
— Vê como ela me respondeu? Não se pode ser mais cortês! exclamou Helena, rindo.
Estácio riu também da lembrança da irmã, e ambos desceram, a passo lento, como
haviam subido. Helena vinha taciturna e pensativa. Os olhos, cravados nas orelhas de Moema,
não pareciam ver sequer o caminho que o animal seguia. Estácio, para arrancá-la ao silêncio,
fez-lhe uma observação acerca de um  incidente do caminho.  Helena respondeu
distraidamente.
— Que tem você? perguntou ele.
— Nada, disse ela; ia. . . ia embebida naquela toada. Não ouve?
Ouvia-se, efetivamente, a algumas braças adiante, uma cantiga da roça, meio alegre,
meio plangente. O cantor apareceu, logo que  os cavaleiros dobraram  a curva que a estrada
fazia naquele lugar. Era o preto, que pouco antes tinham visto sentado no chão.
— Que lhe dizia eu? observou a irmã de Estácio. Ali vai o infeliz de há pouco. Uma
laranja chupada no capim e três ou quatro quadras, é o bastante para lhe encurtar o caminho.
Creia que vai feliz, sem precisar comprar o tempo. Nós poderíamos dizer o mesmo?
— Por que não?
A moça recolheu-se ao silêncio.
— Helena, isso que você acaba de dizer...  Vamos, estamos sós; confesse alguma
tristeza que tenha.
— Nenhuma, respondeu a moça. Peço-lhe, entretanto, uma coisa.
— Diga.
— Peço-lhe que me comunique todas as  más impressões que tiver a meu respeito.
Explicarei umas, procurarei  desvanecer-lhe outras, emendando-me. Sobretudo, peço-lhe que
escreva em seu espírito esta verdade: é que sou uma pobre alma lançada num turbilhão.
Estácio ia pedir explicação mais desenvolvida daquelas últimas palavras; mas Helena,
como se esperasse a pergunta, brandira o chicote, e deitou a égua a correr. Estácio fez o
mesmo ao cavalo; daí a alguns minutos entravam na chácara, ele aturdido e curioso, ela com a
face vermelha e a bater-lhe violentamente o coração. CAPÍTULO VII
Apearam-se os dois no terreiro e dirigiram-se para a escada que ia ter à varanda.
Pisando o primeiro degrau, disse Estácio:
— Helena, explique-me suas palavras de há pouco.
— Quais?
E como Estácio levantasse os ombros, com ar de despeito, continuou Helena:
— Perdoe-me; a pergunta não tem nem podia ter outra resposta mais do que a simples
recusa. Não lhe direi mais nada. Nunca se devem fazer meias confissões; mas, neste caso, a
confissão inteira seria imprudência maior. Se se tratasse de fatos, creia que a ninguém melhor
podia confiá-los do que a você; mas por que motivo irei perturbar-lhe o espírito com a
narração de meus sentimentos, se eu própria não chego a entender-me?
Estácio não insistiu. Subiram a escada, atravessaram a varanda e entraram na sala de
jantar, onde acharam D. Úrsula dando as ordens daquele dia a dois escravos. Estácio entrou
pensativo; Helena mudou totalmente de ar e maneiras. Alguns segundos antes era sincera a
melancolia que lhe ensombrava o rosto. Agora regressara à jovialidade de costume. Disserase que a alma da moça era uma espécie de comediante que recebera da natureza ou da
fortuna, ou talvez de ambas, um papel que a obrigava a mudar continuamente de vestuário. D.
Úrsula viu-a entrar risonha e ir a dar-lhe os costumados bons dias, — que eram sempre um
beijo, — ou antes dois, — um na mão, outro na face.
— Demorei-me muito? perguntou ela voltando rapidamente o corpo, de maneira a ver
o relógio que ficava do outro lado da sala. Nove horas! Que passeio, senhor meu irmão!
Estácio olhava para ela silencioso e não lhe respondeu. Foram logo depois mudar de
roupa, e o almoço reuniu a família. D. Úrsula propôs, durante  ele, algumas mudanças na
disposição da chácara, mudanças que foram longamente discutidas com o sobrinho, e aceitas
afinal por este. O dia estava sombrio e fresco; D. Úrsula desceu à chácara com Estácio. As
alterações foram ainda estudadas e combinadas no próprio terreno, com assistência do feitor,
logo que acabou a deliberação e que o projeto de D. Úrsula foi definitivamente assentado,
Estácio reteve-a e lhe disse:
— Preciso falar-lhe um instante.
— Também eu.
— Quais são os seus sentimentos atuais em relação a Helena? Oh! não precisa franzir
a testa nem fazer esse gesto de aborrecimento. Tudo são meras aparências. Não creio que seja
absolutamente amiga dela; mas não pode negar que a antipatia desapareceu ou diminuiu
muito.
— Diminuiu, talvez.
— E com razão. Pensa que também eu não  tive repugnâncias, depois que ela aqui
entrou? Tive-as; mas se não houvessem desaparecido, — desapareceriam hoje de manhã.
— Como?
Estácio referiu à tia a cena do capítulo anterior e as palavras que lhe dissera Helena.
D. Úrsula sorriu ironicamente.
— Não a impressiona isto? perguntou Estácio.
— Não, respondeu D. Úrsula com decisão; a frase de Helena é achada em algum dos
muitos livros que ela lê. Helena não é tola; quer prender-nos  por todos os lados, até pela
compaixão. Não te nego que começo a gostar dela; é dedicada, afetuosa, diligente; tem
maneiras finas e algumas prendas de sociedade. Além disso, é naturalmente simpática. Já vou
gostando dela; mas é um gostar sem fogo nem paixão, em que entra boa dose de costume e
necessidade. A presença de outra mulher nesta casa é conveniente, porque eu estou cansada.
Helena preenche essa lacuna. Se alguma coisa, entretanto, a podia prejudicar nas nossas rela-
ções é esse dito. Estácio tomou calorosamente a defesa da irmã.
— O que eu lhe contei, disse ele, foram  apenas as palavras. Não pude nem poderei
reproduzir a expressão sincera com que ela as  proferiu, e a profunda tristeza que havia em
seus olhos. Não lhe nego que, ao vê-la mudar tão depressa e entrar alegre na sala, senti tal ou
qual abalo de dúvida, mas passou logo. Ela tem o poder de concentrar a amargura no coração;
também a dor tem suas hipocrisias. .
— Mas que dor? que amargura? interrompeu D. Úrsula. A dor de ser legitimada? a
amargura de uma herança?
Estácio protestou calorosamente contra aquele caminho que a tia dava às suas idéias;
enfim pediu-lhe que interrogasse com cautela a irmã.
— Um homem, concluiu ele, é menos apto  para obter tais confissões; uma senhora,
respeitável e parenta, está mais no caso de lhe captar a confiança e obter tudo. Quer incumbirse desse delicado papel?
— Pedes muito, respondeu D. Úrsula. Verei se te posso dar metade disso. Era só o que
tinhas para dizer?
— Só.
— Uma criancice! Eu tenho coisa mais séria. O Dr. Camargo escreveu-me; trata-se...
— Não precisa dizer mais nada, interrompeu Estácio; lá vem ele.
Camargo aparecera efetivamente a vinte passos de distância.
— Doutor, disse D. Úrsula, logo que este se aproximou deles, chega um pouco fora de
propósito. Eu mal tive tempo de assustar meu sobrinho, que ainda não sabe o que o senhor lhe
quer.
— Saberá agora; é só bastante que a senhora lhe diga que me aprova.
— Completamente.
— Trata-se... disse Estácio.
— De uma conspiração; todos conspiramos em seu benefício.
D. Úrsula retirou-se para casa; os dois ficaram sós. Uma vez sós, Camargo pousou a
mão no ombro de Estácio, fitou-o paternalmente, enfim perguntou-lhe se queria ser deputado.
Estácio não pôde reprimir um gesto de surpresa.
— Era isso? disse ele.
— Creio que não se trata de um suplício. Uma cadeira  na Câmara! Não é a mesma
coisa que um quarto no  Aljube
1
...
— Mas a que propósito.
— Esta idéia apoquentava-me  há algumas semanas. Doía-me vê-lo vegetar os seus
mais belos anos numa obscuridade relativa. A política é a melhor carreira para um homem em
suas condições; tem instrução, caráter, riqueza; pode subir a posições invejáveis. Vendo isso,
determinei metê-lo na  Cadeia... Velha. Fala-se em dissolução. Para facilitar-lhe o sucesso,
entendi-me com duas influências dominantes. O negócio afigura-se-me em bom caminho.
Estácio ouviu com desagrado as notícias que lhe dava o médico.
— Mas, doutor, disse ele depois de curto silêncio, houve de sua parte alguma
precipitação. Pelo menos, devia consultar-me. Do modo por que arranjou as coisas, quase me
acho desobrigado de lhe agradecer a intenção. Quanto a aceitar, não aceito.
Camargo não perdeu a tramontana; deixou passar por cima da cabeça a primeira onda
de desagrado, surgiu fora e insistiu tranqüilamente:
— Vejamos as coisas com os óculos do senso comum. Em primeiro lugar, não creio
que tenha outros projetos na cabeça..
                                                       
1 — Edificado em 1733, para servir de prisão para eclesiásticos que incorressem em delitos graves.
Com a chegada de D. João VI ao Brasil (1808), o Aljube transformou-se em cadeia comum. A partir
de 1840, desapareceu, dando lugar, inicialmente, ao Tribunal do Júri, e, ao fim, a um cortiço. — Talvez.
— Duvido que sejam mais vantajosos do que este. A ciência é árdua e seus resultados
fazem menos ruído. Não tem vocação comercial nem industrial. Medita alguma ponte pênsil
entre a Corte e Niterói, uma estrada até Mato Grosso ou uma linha de navegação para a
China? É duvidoso. Seu futuro tem por ora dois limites únicos, alguns estudos de ciência e os
aluguéis das casas que possui. Ora, a eleição nem lhe tira os aluguéis nem obsta a que
continue os estudos; a eleição completa-o, dando-lhe a vida pública, que lhe falta. A única
objeção seria a falta de opinião política; mas esta objeção não  o pode ser. Há de ter, sem
dúvida, meditado alguma vez nas necessidades públicas, e...
— Suponha, — é mera hipótese, — que tenho alguns compromissos com a oposição.
— Nesse caso, dir-lhe-ei que ainda assim deve entrar na Câmara — embora pela porta
dos fundos. Se tem idéias especiais e partidárias, a primeira necessidade é obter o meio de as
expor e defender. O partido que lhe der a mão, — se não for o seu, — ficará consolado com a
idéia de ter ajudado um adversário talentoso e honesto. Mas a  verdade é que não escolheu
ainda entre os dois partidos; não tem opiniões feitas. Que importa? Grande número de jovens
políticos seguem, não uma opinião examinada,  ponderada e escolhida, mas a do círculo de
suas afeições, a que os pais ou amigos  imediatos honraram e defenderam, a que as
circunstâncias lhe impõem. Daí vêm algumas legítimas conversões posteriores. Tarde ou cedo
o temperamento domina as circunstâncias da origem, e do botão luzia ou saquarema nasce um
magnífico lírio saquarema ou luzia. Demais, a política é ciência prática; e eu desconfio de
teorias que só são teorias. Entre primeiro na Câmara; a experiência e o estudo dos homens e
das coisas lhe designarão a que lado se deve inclinar.
Estácio ouviu atento estas vozes com que a  serpente lhe apontava para a árvore da
ciência do bem e do mal. Menos curioso que Eva, entrou a discutir filosoficamente com o
réptil.
— Entra-se na política, disse ele, por  vocação legítima, ambição nobre, interesse,
vaidade, e até por simples distração. Nenhum desses motivos me impele a dobrar o Cabo
Tormentório
2
...
— Da Boa Esperança, emendou Camargo  rindo; não suprima três séculos de
navegação.
Estácio riu também. Depois falou ao médico da sua índole e ambições. Não negava
que tivesse ambições; mas nem só as havia políticas, nem todas eram da mesma estatura. Os
espíritos, disse ele, nascem condores ou andorinhas, ou ainda outras espécies intermédias. A
uns é necessário o horizonte vasto, a elevada montanha, de cujo cimo batem as asas e sobem a
encarar o sol; outros contentam-se com algumas longas braças de espaço e um telhado em que
vão esconder o ninho. Estes eram os obscuros,  e, na opinião dele, os mais felizes. Não
seduzem as vistas, não subjugam os homens, não os menciona a História em suas páginas
luminosas ou sombrias; o vão do telhado em  que abrigaram a prole, a árvore em que
pousaram, são as testemunhas únicas e passageiras da felicidade de alguns dias. Quando a
morte os colhe, vão eles pousar no regaço comum da eternidade, onde dormem o mesmo
perpétuo sono, tanto o capitão que subiu ao sumo estado por uma escada de mortos, como o
cabreiro que o viu passar uma vez e o esqueceu duas horas depois. Suas ambições não eram
tão ínfimas como seriam as do cabreiro; eram as do proprietário  do campo que o capitão
atravessasse. Um bom pecúlio, a família, alguns livros e amigos, — não iam além seus mais
arrojados sonhos.
                                                       
 2 — Trata-se do cabo na extremidade sul do  continente africano. Em 1486, Bartolomeu Dias,
navegador português, sendo incapaz de dobrá-lo devido às más condições atmosféricas, chamou-o
Cabo Tormentório. Quando, no ano seguinte, Vasco da Gama alcança o feito, passa a chamar-se Cabo
da Boa Esperança, como ficou conhecido até hoje. Um sorriso de lástima foi a primeira resposta do médico.
— Meu caro Estácio, disse ele depois, esse trocadilho de andorinhas e cabreiros é a
coisa mais extraordinária que eu esperava ouvir a um matemático. Saiba que detesto
igualmente a filosofia da obscuridade e  a retórica dos poetas. Sobretudo, gosto que
respondam em prosa quando falo em prosa.
— Parece-lhe que poetei? perguntou Estácio rindo.
— Despropositadamente! Ora, eu falo de coisas sérias; e convém não confundir alhos,
que são a metade prática da vida, com bugalhos, que são a parte ideológica e vã.
— Eu serei ideólogo.
— Não tem direito de o ser.
— Pois bem, deixe-me com as minhas matemáticas, as minhas flores, as minhas
espingardas.
— Não! Há de intercalar tudo isso com um pouco de política.
Puxando-o familiarmente pela gola do paletó, Camargo fê-lo  sentar ao pé de si, no
banco que ali estava  mais próximo. Depois falou. O novo discurso foi o mais longo que
proferiu em todos os seus dias. Nenhuma das vantagens da vida pública deixou de ser
apontada com uma complacência de tentador; todas as glórias, pompas e satisfações da
política, e não só as reais, mas as fictícias ou duvidosas, foram inventariadas, pintadas,
douradas e iluminadas pelo médico. A palavra revelou um poder de evocação, uma
veemência, uma energia, que ninguém era capaz de supor-lhe. O taciturno desabrochou
tagarela. Para falar tanto e com tal força era preciso que o animasse um grande sentimento ou
um grande interesse.
Estácio, lisonjeado com a afeição que ele lhe mostrava, não teve ensejo de fazer essa
reflexão. Nem se animou a repetir a recusa; adotou o alvitre de diferir a resposta para outra
ocasião.
— Já lhe disse o que sinto a tal respeito. Contudo, estou pronto a refletir, e a consultar
o Padre Melchior e Helena.
O nome de Helena produziu em Camargo uma careta interior. Exteriormente, não
passou o efeito de um sorriso sardônico e dissimulado. Interveio uma pitada de rapé, que o
médico inseriu lentamente, depois de a extrair de uma boceta de tartaruga, presente do
Conselheiro Vale.
— Helena! disse ele com alguma hesitação. Que vem fazer sua irmã neste negócio?
— É um voto, redargüiu Estácio; e menos leve do que lhe parece. Há nela muita
reflexão escondida, uma razão clara e forte, em boa harmonia com as suas outras qualidades
feminis.
Entre as sobrancelhas de Camargo projetou-se uma longa ruga, e foi toda a expressão
de seu espanto e desgosto. A resposta de Estácio revelara-lhe uma situação nova na família: o
voto de Helena, consultivo agora, podia vir a ser preponderante. Esta solução, que porventura
faria estremecer de alegria os ossos do conselheiro, não a previra o médico. Limitou-se a
notá-la de si para si; e, terminando subitamente a conversa, disse:
— Consulte as pessoas de seu agrado. Quem não estiver com a minha opinião, não é
seu amigo. Em todo o caso, ninguém lhe poderá afirmar que não é a amizade, a longa
amizade...
Estácio cortou-lhe a palavra, apertando-lhe afetuosamente a mão. Tinham-se
levantado. Era quase meio-dia; Camargo despediu-se ali  mesmo; ia ver dois doentes no
caminho da Tijuca. O filho do conselheiro atravessou sozinho a chácara; ia pensativo, e
aborrecido. A política, na sua opinião, era uma noiva importuna; mas, se todos conspirassem
a favor dela, não seria ele obrigado a desposá-la? A esta reflexão respondeu a voz do Padre
Melchior, do alto de uma janela:
— Venha cá, senhor deputado; quando teremos o seu primeiro discurso? CAPÍTULO VIII
D. Úrsula tinha já confiado ao velho capelão a proposta de Camargo. Consultado por
Estácio, respondeu o padre:
— Consulte as suas forças e a responsabilidade do cargo, e escolha.
— Já escolhi, disse Estácio; pedia-lhe conselho para apoiar melhor a minha própria
decisão. Não é esse o destino de todos os conselhos? Decidi que não aceito a candidatura. A
vida política é turbulenta demais para o meu espírito. Estou pronto para a ação, mas não há de
ser exterior. Dado o meu temperamento, que iria eu buscar à Câmara, além de algumas
prerrogativas e um papel acessório? Eu só me meteria na política se pudesse oficiar; mas ser
apenas sacristão.
— Entre o oficiante e o sacristão, observou Melchior, está o pregador, que é cargo
nobre e influente.
— Mas o tema do sermão, padre-mestre? retorquiu Estácio rindo; falta-me o tema.
D. Úrsula, a quem seduziam exclusivamente a posição e o rumor público em favor do
sobrinho, viu naquelas razões um pretexto ou uma puerilidade. Defendeu, como pôde, a causa
de Camargo; instou com o sobrinho para que refletisse maduramente, antes de qualquer
resposta definitiva. Estácio prometeu como prometera ao médico, por simples
condescendência; mas sobretudo para pôr termo ao assunto e ir saber a causa do sorriso quase
imperceptível que viu roçar os lábios de Helena. A moça erguera-se e dirigira-se para uma
das janelas; Estácio foi até ali.
— Adivinhei, pelo seu sorriso, disse ele, que tudo isto lhe parece pueril, e que eu faço
bem em não aceitar o que se me oferece.
Helena olhou um pouco espantada para ele, mas respondeu com tranqüilidade:
— Pelo contrário, penso que deve aceitar. Além de haver consentimento de minha tia,
parece ser um grande desejo do pai de Eugênia.
Era a primeira vez que Helena aludia ao amor de Estácio, e fazia-o por modo
encoberto e oblíquo. Estácio escapou dessa vez  à regra de todos os  corações amantes;
resvalou pela alusão e discutiu gravemente o assunto da candidatura. Era pesado demais para
cabeça feminina; Helena intercalou uma observação sobre dois passarinhos que bailavam no
ar, e Estácio aceitou a diversão, deixando em paz os eleitores.
Durante dois dias não saiu ele de casa. Tendo recebido alguns livros novos, gastou
parte do tempo em os folhear, ler alguma página, colocá-los nas estantes, alterando a ordem e
a disposição dos anteriores, com a prolixidade e o amor do bibliófilo. Helena ajudava-o nesse
trabalho, — um pouco parecido com o de Penélope
3
— porque a ordem estabelecida ao meiodia era às vezes alterada às duas horas, e restaurada na seguinte manhã. Estácio, entretanto,
não ficava todo entregue aos livros; admirava a solicitude da irmã, a ordem e o cuidado com
que ela o auxiliava. Helena parecia não andar; o vulto resvalava silenciosamente, de um lado
para outro, obedecendo às indicações do irmão, ou pondo em experiência uma idéia sua.
Estácio parava às vezes, fatigado; ela continuava imperturbavelmente o serviço. Se ele lhe
fazia algum reparo, a moça respondia erguendo os ombros ou sorrindo, e prosseguia. Então
Estácio segurava-lhe nos pulsos e exclamava rindo:
— Sossega, borboleta!
Helena parava, mas eram só poucos minutos; volvia logo ao trabalho com a mesma
serena agitação. Era assim que as horas se passavam na intimidade mais doce, e que a
                                                       
3 — Esposa de Ulisses. Estando este ausente, Penélope recusa vários pretendentes com a promessa de
só se casar quando terminasse a toalha que vinha bordando. Contudo, para afastá-los, desfazia de noite
o que bordava de dia. recíproca afeição ia excluindo  toda a preocupação alheia; era assim que a influência de
Helena assumia as proporções de voto preponderante.
No terceiro dia, D. Tomásia e Eugênia foram jantar a Andaraí. Eugênia estava nesse
dia mais sisuda e dócil que nunca; dissera-se que trazia a alma tão nova como o vestido, e
menos enfeitada que ele. Estácio sentia-se satisfeito; o ideal reconciliava-se com o real.
Puderam falar sozinhos, mais de uma vez; todas as pessoas da casa pareciam conspiradas para
lhes deixar a solidão. Foi ela quem recordou a proposta política do pai, da qual soubera
casualmente, ouvindo a narração que este fizera a D. Tomásia. O desejo de Eugênia era pela
afirmativa; e Estácio, receoso de despertar os caprichos adormecidos da moça, frouxamente
resistiu, e consentiu ainda mais frouxamente em reconsiderar o assunto.
— Deputado! exclamava Eugênia com os olhos no céu.
Estácio acompanhou Eugênia e D. Tomásia na carruagem que as levou ao Rio
Comprido. O dia fora mais ou menos alegre; a  viagem foi divertida e palreira como um
regresso de romaria. Os cavalos mostravam-se tão lépidos como as pessoas que iam no carro,
e encurtaram alguns minutos o caminho, com desgosto de Eugênia.
Voltando a Andaraí, Estácio trazia a alma  pura de todas as más impressões que lhe
deixavam usualmente as visitas à casa de Camargo. Nenhum dissentimento houvera naquele
dia. Eugênia parecia modificada. Em casa esperava-o, porém, uma desagradável notícia: a tia
sentira-se incomodada pouco depois que ele saíra e recolhera-se ao quarto. O caso afligiu-o,
mas não tardou a aparecer Helena, que o tranqüilizou, dizendo-lhe que D. Úrsula tinha apenas
uma forte dor de cabeça, já diminuída com o emprego de um remédio caseiro.
No dia seguinte de manhã,  informado de que a tia dormia sossegadamente, Estácio
abriu uma das janelas do quarto e relanceou os olhos pela chácara. A alguns passos de
distância, entre duas laranjeiras, viu Helena a ler atentamente um papel. Era uma carta, longa
de todas as suas quatro laudas escritas. Seria alguma mensagem amorosa?
Esta idéia molestou-o muito. Afastou-se da janela, conchegou as cortinas, e pela fresta
procurou observar a irmã. Helena estava de pé, no mesmo lugar, e percorria rapidamente as
linhas, até ao final da última página. Ali chegando, deu dois passos, tornou a parar, volveu ao
princípio da carta, para a ler de novo, não já depressa, mas repousadamente. Estácio sentiu-se
movido de imperiosa curiosidade, à qual vinha misturar-se uma sombra de despeito e ciúme.
A idéia de que Helena podia repartir o coração com outra pessoa desconsolava-o, ao mesmo
tempo que o irritava. A razão  de semelhante exclusivismo não a explicou ele, nem tentou
investigá-la; sentiu-lhe somente os efeitos, e ficou ali sem saber que faria. Duas vezes saiu da
janela para ir ter com a irmã, mas recuou de ambas, refletindo que a curiosidade pareceria
impolidez, se não era talvez tirania. Ao cabo de alguns minutos de hesitação, saiu do quarto e
dirigiu-se à chácara.
Quando ali chegou, Helena passeava lentamente, com os olhos no chão. Estácio parou
diante dela.
— Já fora de casa! exclamou em tom de gracejo.
Helena tinha a carta na mão esquerda; instintivamente a amarrotou como para
escondê-la melhor. Estácio, a quem não escapou o gesto, perguntou-lhe rindo se era alguma
nota falsa.
— Nota verdadeira, disse ela, alisando tranqüilamente o papel, e dobrando-o conforme
recebera; é uma carta.
— Segredos de moça?
— Quer lê-la? perguntou Helena, apresentando-lha.
Estácio fez-se vermelho e recusou com um gesto. Helena dobrou lentamente o papel e
guardou-o na algibeira do vestido. A inocência  não teria mais puro rosto; a hipocrisia não
encontraria mais impassível máscara. Estácio contemplava-a, a um tempo envergonhado e
suspeitoso; a carta fazia-lhe cócegas; o olhar  ambicionava ser como  o da Providência que penetra nos mais íntimos refolhos do coração. Vieram, entretanto, dizer a Helena que D.
Úrsula lhe pedia fosse ter com ela. Estácio ficou só. Uma vez só, entregou-se a um inquérito
mental sobre a procedência da misteriosa missiva. Um indício havia de que podia conter alguma coisa secreta: era o gesto com que ela a escondeu. Mas não podia ser de alguma antiga
companheira do colégio, que lhe confiava segredos seus? Estácio abraçou com alvoroço esta
hipótese. Depois, ocorreu-lhe que, ainda provindo de uma amiga, a carta podia tratar de
algum idílio de colégio, em que Helena fosse protagonista, idílio vivo ou morto, página de
esperança ou de saudade. Ainda nesse caso, que tinha ele com isso?
Fazendo esta última reflexão, Estácio sacudiu do espírito o assunto e seguiu a
examinar as novas obras da chácara, entre as quais figurava um vasto tanque. Já ali estavam
os operários; ia começar o trabalho do dia. Estácio viu a obra feita e deu várias indicações
novas. Algumas eram contrárias ao plano assentado; como lhe fizessem tal observação,
Estácio retificou-as. Depois admirou-se de não ver um vaso, que aliás dois dias antes mandara
remover; enfim, recomendou a rega de uma planta, ainda úmida da água que o feitor lhe
deitara nessa manhã.
D. Úrsula não estava de todo boa, mas pôde almoçar  à mesa comum. O sobrinho
apareceu aborrecido, a sobrinha triste; o diálogo foi mastigado como o almoço. No fim deste,
recebeu Estácio uma carta de  Eugênia. Era uma tagarelice meio frívola, meio sentimental,
mistura de risos e suspiros, sem objeto definido a não ser pedir-lhe que escrevesse se não
pudesse ir vê-la.
Acabava ele de ler a carta, quando Helena lhe apareceu à porta do gabinete. Não a
escondeu; lembrou-lhe mostrá-la à irmã na esperança de que esta, pagando-lhe com igual
confiança, lhe mostrasse a sua. Helena percorreu com os olhos a carta de Eugênia e esteve
algum tempo silenciosa.
— Permite-me um conselho? perguntou ela.
E como Estácio respondesse com um gesto de assentimento:
— Vá ter com Eugênia, solicite licença para ir pedi-la a seu pai, e conclua isso quanto
antes. Não é verdade que se amam? Dela creio poder afirmar que sim; de você...
— De mim?
— Penso que é mais duvidoso; ou você é mais hábil. Há de ser isso. Naturalmente
parece-lhe fraqueza amar, — isto é, a coisa mais natural do mundo, — a mais bela, — não
direi a mais sublime. Os homens sérios têm preconceitos extravagantes. Confesse que ama,
que não é indiferente a esse sentimento inexprimível que liga, ou para sempre, ou por algum
tempo, duas criaturas humanas.
“Ou por algum tempo!” repetiu mentalmente Estácio.
E estas quatro palavras, tão naturais e tão comuns, tinham ares de uma revelação nova
no estado de espírito em que ele se achava. Se Helena tivesse propósito de lhe lançar a perplexidade na alma, não empregaria mais eficaz conceito. Seria  na verdade aquele amor, tão
travado de desânimos, dissentimentos e alternativas, tão discutido em seu próprio coração,
uma afeição destinada a perecer no ocaso da primeira lua matrimonial?
— Pois sim, concordou ele, ao cabo de alguns instantes, é verdade. Eugênia não me é
indiferente; mas poderei estar certo dos sentimentos dela? Ela mesma poderá afirmar alguma
coisa a tal respeito? Há ali muita frivolidade que me assusta; ilude-a, talvez, uma impressão
passageira.
— Pode ser; mas ao marido cabe a tarefa de fixar essa impressão passageira... O
casamento não é uma solução, penso eu; é um  ponto de partida. O marido fará a mulher.
Convenho que Eugênia não tem todas as qualidades que você desejaria; mas, não se pode
exigir tudo: alguma coisa é preciso sacrificar, e do sacrifício recíproco é que nasce a
felicidade doméstica. As reflexões eram exatas; por isso mesmo Estácio as interrompeu. O filho do
conselheiro achava-se numa posição difícil.  Caminhara para o casamento com os olhos
fechados; ao abri-los, viu-se à beira de uma coisa que lhe pareceu abismo, e era simplesmente
um fosso estreito. De um pulo poderia transpô-lo; mas, se não era irresoluto nem débil, tinha
ele acaso vontade de dar esse salto?
Insistindo Helena, prometeu ele que nessa tarde iria visitar Camargo. De tarde
desabou um temporal violento. A força do  vento e da trovoada  abrandou; mas a chuva
continuou a cair com a mesma violência; era impossível ir ao Rio Comprido. Estácio estimou
aquele obstáculo; era melhor  adorar de longe a imagem da  moça do que ir colher algum
desgosto junto a ela.
De pé, encostado a uma das vidraças da sala de visitas, via cair as grossas toalhas de
água. Ao lado estava sentada Helena, não alegre, mas taciturna e melancólica.
— E tão bom ver chover quando estamos abrigados! exclamou ele. Tenho lá na
estante um poeta latino que diz alguma coisa neste sentido... Que tem você?
— Estou pensando nos que não têm abrigo  ou o têm mau; nos que não têm, neste
momento, nem textos sólidos nem corações amigos ao pé de si.
A voz da moça era trêmula; uma lágrima lhe brotou dos olhos, tão rápida que ela não
teve tempo de a dissimular. Surpreendida nessa manifestação de sensibilidade, inexplicável
talvez para o irmão, ergueu-se e procurou gracejar e rir. O riso parecia uma cristalização da
lágrima, e o gracejo tinha ares de responso. Estácio não se iludiu; nada daquilo era claro, ou
era tão claro como a carta. O olhar, severo e frio, interrogou mudamente a moça. Helena, que
tivera tempo de se tranqüilizar, voltou o rosto para a rua, e começou a rufar com os dedos na
vidraça.
CAPÍTULO IX
Naquela mesma noite, D. Úrsula, que não havia de todo melhorado, adoeceu deveras.
A família, mal convalescida da perda do velho chefe,  via-se agora ameaçada de uma nova
dor, em todo o caso, exposta a novos receios. Dr. Camargo declarou que o caso era grave, e
deu princípio a rigoroso tratamento.
Helena era naquela ocasião a  natural enfermeira. Pela primeira vez patenteou-se em
todo o esplendor a dedicação filial da moça.  Horas do dia, e não poucas noites inteiras,
passava-as na alcova de D. Úrsula, atenta a todos os cuidados que a gravidade da enferma
exigia. Os remédios e o pouco alimento que esta podia receber, não lhe eram dados por outras
mãos. Helena velava à cabeceira, durante o sono leve e interrompido da doente, achando em
suas próprias forças a resistência que a natureza confiou especialmente às mães. Quando dava
algum repouso ao corpo, não era ele ininterrupto nem longo; e mais de uma vez, alta noite,
erguia-se do leito, colocado provisoriamente no quarto contíguo, para ir espreitar a mucama
que, em seu lugar, acompanhava a enferma. As prescrições do médico era ela que as recebia e
cumpria. A voz seca e dura com que Camargo lhe falava, não era própria a torná-lo amável e
aceito; mas Helena cerrava os  ouvidos à antipatia do homem para só obedecer ao médico.
Este não tinha outra pessoa a quem interrogasse acerca dos fenômenos da doença, nem podia
achar quem melhor os observasse e referisse; força lhe era aceitá-la. Assim, essas duas
pessoas que se repeliam  e detestavam, iam de acordo, desde  que se tratava da vida de um
terceiro.
O que completava a pessoa de Helena, e ainda mais lhe mereceu o respeito de todos, é
que, no meio das ocupações e preocupações daqueles dias, não fez padecer um só instante a
disciplina da casa. Ela regeu a família e serviu a doente, com igual desvelo e benefício. A
ordem das coisas não foi alterada nem esquecida fora da alcova de D. Úrsula; tudo caminhou do mesmo modo que antes, como se nada extraordinário se houvesse dado. Helena sabia
dividir a atenção sem a dispersar.
De si é que ela não curou muito. O vestido era singelo. Os cabelos, colhidos à pressa e
presos por um pente no alto da cabeça, não  receberam, em todo aquele tempo, a forma elegante e graciosa com que ela os sabia realçar. Acrescia o abatimento, que era impossível
evitar no meio de tanta fadiga, certo cansaço  dos olhos, que os fazia moles e talvez mais
adoráveis, um rosto sem riso nem viveza, um silêncio atento e laborioso.
A doença durou cerca de vinte dias. Afinal, venceu a própria natureza de D. Úrsula,
robusta apesar dos anos. A convalescença começou; com ela volveu a satisfação da família. O
papel de Helena não estava acabado; diminuía, contudo, e Estácio interveio para que a irmã
tivesse, enfim, alguns dias de absoluto repouso. Ela recusou, dizendo que o repouso perdido
aos poucos seria aos poucos recuperado.
Havia no coração de D. Úrsula uma fonte de ternura, que Helena devia tocar, para
jorrar livre e impetuosamente. A dedicação, em tal crise, foi a vara misteriosa daquele Horeb.
A afeição da tia era até então frouxa, voluntária e deliberada. Depois da moléstia, avultou
espontânea. A experiência do caráter da moça dera esse resultado inevitável. Toda a
prevenção cessou; a gratidão da vida ligou fortemente o que tantas circunstâncias anteriores
pareciam separar. Não o ocultou a irmã do conselheiro;  já não tinha  acanhamento nem
reserva, as palavras subiam coração à boca sem atenuação  nem cálculo; fez-se carinhosa e
mãe.
No dia em que ela pôde sair do quarto pela primeira vez, Helena deu-lhe o braço e
levou-a até à sala de costura e das reuniões  íntimas. Estácio amparou-a do outro lado. Ali
chegando, foi ela sentada numa poltrona. Estácio abriu um pouco a janela, para penetrar, além
da luz, um pouco de ar. D.  Úrsula respirou à larga, como lavando o pulmão com aquela
primeira onda de vida. Depois, segurando as mãos de Helena, que ficara de pé a seu lado, fê-
la indicar a fronte, e imprimiu-lhe um beijo longo e verdadeiramente maternal. Estácio
aproximara-se; aquela manifestação encheu-o de júbilo.
— Bem merecido beijo! exclamou ele. Helena foi um anjo em todo este tempo.
— Bem sei, retorquiu D. Úrsula; foi um verdadeiro anjo, foi mulher, mãe e filha.
Obrigada, Helena! Pode ser que a medicina tenha ajudado a cura, mas o principal mérito é só
teu.
Helena abraçou a convalescente.
— Estácio, disse esta, agradece à tua irmã, como eu fiz.
Estácio inclinou-se para Helena, a fim de lhe pousar na fronte o casto ósculo de irmão.
Não o conseguiu, porque Helena, desviando o busto, estendeu-lhe sorrindo a mão esquerda e
disse:
— Não foi serviço que merecesse tanta paga; basta um aperto de mão e o afeto de
todos.
Estácio apertou-lhe a mão, e sentiu-lha trêmula. Aquele movimento de castidade não
lhe pareceu exagerado nem descabido; achou-a assim mais bela. Uma criatura tão ciosa de si
mesma, que nem admitia a carícia do irmão, não era digna de honrar o nome da família?
A convalescença de D. Úrsula foi lenta,  e não a houve mais rodeada de cuidados e
atenções. Os dois sobrinhos não a deixaram um instante sozinha, e inventavam toda a sorte de
recreio com que pudessem distraí-la: jogos de família ou leitura, música ou simples palestra
íntima. Uma vez, lembraram-se de representar, só para ela, uma comédia de duas pessoas.
Outra vez, Helena organizou  um sarau musical, em que tomaram parte Eugênia Camargo e
mais três moças da vizinhança. Foi a primeira vez que a ouviram cantar. O sucesso não podia
ser mais completo. Como o aplauso que lhe deram pareceu desconsolar um pouco a filha do
médico, Helena preparou-lhe  habilmente um triunfo, fazendo-a executar ao piano uma composição brilhante, sua favorita. Estácio, que quase não tirava os olhos da irmã, percebeulhe a intenção, e disse-lho. Helena esquivou-se à alusão; mas, insistindo ele:
— Não há nada que admirar,  disse ela; Eugênia toca perfeitamente; era justo que
também fosse aplaudida. Se há arte no que fiz, parece-me que é a mais singela do mundo. O
melhor modo de viver em paz é nutrir o amor-próprio dos outros com pedaços do nosso. Mas,
olhe; Eugênia nem precisa disso; tem a primazia da beleza. Veja se há criatura mais deliciosa.
Estácio dirigiu os olhos para onde Helena lhe indicava. Era um grupo de duas moças e
dois rapazes. Eugênia, pelo braço de um deles, estava de pé, ouvindo sem atender as palavras
que ali diziam, porque os olhos inquietos derramavam-se-lhe por toda ela e pela sala.
Admirava-se e espreitava a admiração dos outros. A figura era realmente graciosa; mas
Estácio quisera-a mais inconsciente, menos preocupada do efeito que produzia.
— Há cem belezas como aquela, disse ele.
— Estácio! exclamou Helena com ar de repreensão.
— A beleza é como a bravura; vale mais se não a metem à cara dos outros.
— Você é um ingrato.
Naquela noite ficou mais patente que nunca a preponderância ganha por Helena, que
se tornara a verdadeira dona da casa, a diretora ouvida e obedecida. D. Úrsula cedera, em
poucas semanas, o que lhe negara durante meses.
Por que razão, pensando em todas as coisas, não conseguira ela apressar o casamento
de Estácio? Estácio continuava a hesitar, a recuar, a adiar; pedia tempo para refletir. Ia agora
menos ao Rio Comprido; os dias, quase todos, eram desfiados no remanso da família. Mas
Helena insistiu tanto que ele prometeu fazer o solene pedido no primeiro dia do ano.
Estácio não havia esquecido a carta lida pela irmã; entretanto, por mais que a
espreitasse e estudasse, nada descobria que lhe fizesse supor afeição encoberta. Nenhum dos
homens que iam ali, — e eram poucos, — parecia receber de Helena mais do que a cortesia
comum. D. Úrsula, a quem ele incumbira de interrogar a irmã acerca das palavras que esta lhe
dissera na manhã do primeiro passeio, não obteve resposta mais decisiva.
A promessa de ir pedir Eugênia, fê-la Estácio na segunda semana de dezembro, em
uma noite sem visitas, que eram as melhores noites para ele. No dia seguinte de manhã,
erguendo-se tarde, soube que Helena saíra a cavalo.
— Sozinha?
— Com o Vicente.
Vicente era o escravo que, como sabemos, se afeiçoara, primeiro que todos, a Helena;
Estácio designara-o para servi-la. A notícia do passeio não lhe agradou. O tempo andava com
o passo do costume, mas à ansiedade do mancebo afigurava-se mais longo... Estácio chegava
à janela, ia até ao portão da chácara, com ar de aparente indiferença, que a todos iludia, a
começar por ele próprio. Numa das vezes em que voltou à casa, achou levantada D. Úrsula;
falou-lhe; D. Úrsula sorriu com tranqüilidade.
— Que tem isso? disse ela. Já uma vez saiu a passeio com o Vicente e não aconteceu
nada.
— Mas não é bonito, insistiu Estácio. Não está livre de um ato de desatenção.
— Qual! Toda a vizinhança a conhece. Demais, Vicente já não é tão criança.
Tranqüiliza-te, que ela não tarda. Que horas são?
— Oito.
— Dez ou quinze minutos mais. Parece-me que já ouço um tropel...
Os dois estavam na sala de jantar; passaram à varanda, e viram efetivamente entrar no
terreiro Helena e o pajem. Helena deu um salto e entregou a rédea de Moema ao pajem que
acabava de apear-se. Depois subiu a escada da varanda. Ao colocar o pé no primeiro degrau,
deu com os olhos no irmão e na tia. Fez-lhes um cumprimento com a mão, e subiu a ter com
eles. — Já de pé! exclamou abraçando D. Úrsula.
— Já, para lhe ralhar, disse esta sorrindo. Que idéia foi essa de bater a linda
plumagem? É a segunda vez que você se lembra de sair sem o urso do seu irmão.
— Não quis incomodar o urso, replicou ela voltando-se para Estácio. Tinha imensa
vontade de dar um passeio, e Moema também. Apenas hora e meia.
Aquele dia foi o de maior tristeza para a moça. Estácio passou quase todo o tempo no
gabinete; nas poucas ocasiões em que se encontraram, ele só falou por monossílabos, às vezes
por gestos. De tarde, acabado o jantar, Estácio desceu à chácara. Já não era só o passeio de
Helena que o mortificava; ao passeio juntava-se a carta. Teria razão a tia em suas primeiras
repugnâncias? Como ele fizesse essa pergunta a si mesmo,  ouviu atrás de si um passo
apressado e o farfalhar de um vestido.
 — Está mal comigo? perguntou Helena com doçura.
Ao ouvir-lhe a voz, fundiu-se a cólera do mancebo. Voltou-se; Helena estava diante
dele, com os olhos submissos e puros. Estácio refletiu um instante.
— Mal? disse ele.
— Parece que sim. Não me fala, não se importa comigo, anda carrancudo... Seria por
eu sair de manhã?
— Confesso que não gostei muito.
— Pois não sairei mais.
— Não; pode sair. Mas está  certa de que não corre nenhum perigo indo só com o
pajem?
 — Estou.
— E se eu lhe pedir que não saia nunca sem mim?
— Não sei se poderei obedecer. Nem sempre você poderá acompanhar-me; além
disso, indo com o pajem, é como se fosse só; e  meu espírito gosta, às vezes, de trotar
livremente na solidão.
— Naturalmente a pensar de coisas amorosas... acrescentou Estácio cravando os olhos
interrogadores na irmã.
Helena não respondeu; tomou-lhe o braço e os dois seguiram silenciosamente uns dez
minutos. Chegando a um banco de madeira, Estácio sentou-se; Helena ficou de pé diante dele.
Olharam um para o outro sem proferir palavra; mas o lábio de Estácio tremera duas ou três
vezes como hesitando no que ia dizer. Por fim o moço venceu-se.
— Helena, disse ele, você ama.
A moça estremeceu e corou vivamente; olhou em volta de si, como assustada, e
pousou as mãos nos ombros de Estácio. Refletiu ela no que disse depois? É duvidoso; mas a
voz, que nessa ocasião parecia  concentrar todas as melodias da palavra humana, suspirou
lentamente:
— Muito! Muito! Muito!
Estácio empalideceu. A moça recuou um passo, e, trêmula, pôs o dedo na boca, como
a impor-lhe silêncio. A vergonha flamejava no rosto; Helena  voltou as costas ao irmão e
afastou-se rapidamente. Ao mesmo tempo, a sineta do portão era agitada com força, e uma
voz atroava a chácara:
— Licença para o amigo que vem do outro mundo!
CAPÍTULO X Estácio dirigiu-se ao portão. Abriu-o; um moço que ali estava entrou
precipitadamente. Era Mendonça. Os dois mancebos lançaram-se nos braços um do outro.
Helena, a alguma distância, presenciou aquela efusão, e não lhe foi difícil adivinhar quem era
o recém-chegado.
A efusão cessou, ou antes interrompeu-se, para repetir-se. Quando os dois rapazes se
julgaram assaz abraçados, tomaram o caminho da casa. Helena, que estava um pouco adiante
deles, foi apresentada a Mendonça. Ao ouvir que era irmã de Estácio, Mendonça ficou
espantado. Cortejou cerimoniosamente a moça, e os dois seguiram até à casa, onde pouco
depois entrou Helena.
Mendonça era da mesma estatura que Estácio, um pouco mais cheio, ombros largos,
fisionomia risonha e franca, natureza móbil e  expansiva. Vestia com o maior apuro, como
verdadeiro parisiense que era, arrancado de fresco ao grand boulevard, ao Café Tortoni e às
récitas do Vaudeville. A mão larga e forte calçava fina luva cor de palha, e sobre o cabelo,
penteado a capricho, pousava um chapéu de fábrica recente.
Estácio, antes de entrar, explicou ao amigo a situação de Helena, cujas qualidades e
educação louvou, com o fim de lhe fazer compreender o respeito e a afeição que ela de todos
merecia. Helena adivinhou esse trabalho preparatório do irmão, logo que entrou na sala.
Mendonça divertiu a família uma parte da noite, contando os melhores episódios da
viagem. Era narrador agradável, fluente e pinturesco, dotado de grande memória e certa força
de observação. Espírito galhofeiro, achava facilmente o lado cômico das coisas e mais se
comprazia em dizer os incidentes de um jantar de hotel ou de uma noite de teatro que em
descrever as belezas da Suíça ou os destroços de Roma.
A visita durou pouco mais de hora. Estácio quis acompanhá-lo até à cidade; ele não
consentiu que fosse além do portão. Atravessando a chácara, falaram do passado, e um pouco
do futuro, a trechos soltos, como o lugar e a ocasião lhes permitiam. Mendonça, vendo que
Estácio não tocava em um ponto essencial, foi o primeiro que o aventou.
— Falaste-me em uma de tuas cartas de certa Eugênia.
— A filha do Camargo.
— Justo. Negócio roto?
 — Quase terminado.
— Terminado... na igreja, suponho?
 — Tal qual.
— Quando?
— Brevemente.
— Marido, enfim! Era só o que te faltava. Nasceste com a bossa conjugal, como eu
com a bossa viajante, e não sei qual de nós terá razão.
— Talvez ambos.
— Creio que sim. Tudo depende do gosto  de cada um. O casamento é a pior ou a
melhor coisa do mundo; pura questão de temperamento. Eu vi algumas vezes essa moça; era
então muito menina. Não te pergunto se é um anjo...
— É um anjo.
— Como todas as noivas. Feliz Estácio! Segues a carreira de tua vocação, enquanto
que eu...
— Tu?
— Interrompo a minha, e talvez para sempre. Preciso cuidar da vida; não sou
capitalista, nem meu pai tampouco. Adeus, viagens!
— Tanto melhor! Arranjo-te noiva. Não é a tua vocação, mas não serás o primeiro que
a erre, sem que daí venha mal ao mundo.
— Pois arranja lá isso... Em todo caso não será tua irmã.
— Oh! não, disse vivamente Estácio. — Na verdade, é bonita; mas... se permites a franqueza de outrora, acho-lhe uma
costela de desdém...
— Que idéia! É a mais afável criatura do mundo. Verás mais tarde; hoje estava,
talvez, preocupada. Em todo o caso, não havias de querer que ela saltasse a dançar contigo na
sala, de mais a mais sem música.
Mendonça acabava de acender um charuto; apertou a mão de Estácio e saiu. Estácio
acordou de um sonho. A realidade pôs-lhe as  mãos de chumbo e repetiu-lhe ao ouvido a
confissão interrompida de Helena. Ansioso por saber o resto,  entrou ele imediatamente em
casa. A diligência foi estéril, porque a irmã se recolhera ao quarto. Estácio imitou-a. Era
forçoso esperar uma noite inteira, demora que o afligia, porque, dizia ele consigo mesmo,
cumpria-lhe velar pela sorte de Helena, como irmão e chefe de família, indagar de seus
sentimentos, e ordenar o que fosse melhor. Uma noite não era muito; contudo, a preocupação
retardou-lhe o sono. A confissão  súbita, lacônica e eloqüente da irmã ficara-lhe no espírito,
como se fora o eco perpétuo de uma voz extinta.
Nem no dia seguinte, nem nos subseqüentes alcançou o  que esperava. Helena, ou
evitava ficar a sós com ele, ou esquivava-se a maior explicação. Nos passeios matinais, que
eram freqüentes, procurou Estácio, mais de uma vez, tratar  do assunto que o preocupava.
Helena ouvia com um sorriso, e respondia com  um gracejo; depois, dava de rédea à
conversação e galopava na direção oposta. Como a fantasia era campo vasto, nunca mais o
moço lograva trazê-la ao ponto de partida.
Um dia, a insistência de Estácio teve tal caráter de autoridade, que pareceu
constranger e molestar Helena. Ela replicou com um remoque; ele redargüiu com uma
advertência áspera. Iam ambos a pé, levando os animais pela rédea. Ouvindo a palavra do
irmão, Helena susteve o passo, e fitou-o com um olhar digno, um desses olhares que parecem
vir das estrelas, qualquer que seja a estatura da pessoa. Estácio possuía estas duas coisas, a
retratação do erro e a generosidade do perdão. Viu que cedera a um mau impulso, e
confessou-o; mas, confessou-o com palavras tais que Helena travou-lhe da mão e lhe disse:
— Obrigada! Se me não dissesse isso, ver-me-ia disparar por este caminho fora até ao
fim do mundo ou até ao fim da vida.
— Helena!
— Oh! não é vão melindre, é a própria necessidade da minha posição.  Você pode
encará-la com olhos benignos; mas a verdade é que só as asas do favor me protegem... Pois
bem, seja sempre generoso, como foi agora; não procure violar o sacrário de minha alma. Não
insista em pedir a explicação de palavras mal pensadas e ditas em má hora.
— Mal pensadas? Pode ser; mas por isso é que são verdadeiras; se você tivesse tempo
de as meditar, guardá-las-ia consigo, avara de seus segredos e suspeitosa de corações amigos.
Meu fim era somente ajudá-la a ser venturosa, destruir...
— É tarde! interrompeu a moça, consultando o reloginho preso à cintura. Vamos?
Estácio sorriu melancolicamente; ofereceu-lhe o joelho, ela pousou nele o pezinho
afilado e leve e saltou no selim. A volta foi menos alegre do que costumava ser. Eles falavam,
mas a palavra vinha aos lábios, como uma  onda vagarosa e surda; nenhuma cólera, mas
nenhuma animação. Assim correu aquele dia; assim correriam outros, se não fora a vara
mágica de Helena. O natural influxo era tão forte que o irmão voltou desde logo às boas,
sendo as melhores horas as que passava ao pé dela, a escutá-la e a vê-la, ambos contentes e
felizes. O episódio da confissão vinha às vezes, como hóspede importuno, projetar entre eles
o nebuloso perfil; mas o espírito de Estácio repelia-o, e a alegria da irmã fazia o resto.
Entretanto, graças ao amigo recém-chegado, o filho do conselheiro saiu um pouco de
suas regras habituais, e começou a provar alguma coisa mais da  vida exterior. Mendonça
buscava realizar, em miniatura, o seu esvaído ideal parisiense; havia nele o movimento, a
agitação, a galhofa, que absolutamente faltavam a Estácio, e vieram dar-lhe à vida a variedade que ela não tinha. Alguns espetáculos e passeios, uma ou outra ceia alegre, tal foi o programa
de uma parte ínfima da existência de Estácio. Para contrastar com ela, tinha ele as manhãs do
Andaraí e algumas noites do Rio Comprido. Ao amigo e à sua consciência, dizia o moço que
estava a despedir-se da liberdade.
A influência de Mendonça estendeu-se à  própria casa de Estácio. Mendonça gostava
sobretudo da variedade no viver; não tolerava os mesmos prazeres nem os mesmos charutos;
para os apreciar tinha necessidade de os alternar freqüentemente. Se fosse possível, era capaz
de fazer-se monge durante um mês, antes do carnaval, trocar o hábito por um dominó, e atar
as últimas notas das matinas com os prelúdios da contradança. A fidelidade à moda custavalhe um pouco, quando esta não ia a passo com a impaciência. Em sua opinião, o que
distinguia o homem do cão era a faculdade de fazer que uma noite  se não parecesse com
outra. O Rio de Janeiro não lhe oferecia a mesma variedade de recursos que Paris; tendo o
gênio inventivo e fértil, não lhe faltaria meio de fugir à uniformidade dos hábitos.
O pior que lhe acontecia era a disparidade entre os desejos e os meios. Filho de um
comerciante, apenas remediado, não teria  ele podido realizar a viagem à Europa, nas
proporções largas em que o fez, a não ser a intervenção benéfica de uma parenta velha, que se
incumbira de lhe ministrar os recursos de que ele carecesse durante aquela longa ausência.
Nem a parenta continuaria a  abrir-lhe a bolsa, nem o pai  queria criar-lhe hábitos de
ociosidade. Tratava este, portanto, de obter-lhe um emprego público. Mendonça estava longe
de recusar; pedia somente que o emprego o não deslocasse da Corte.
Inquieto, amigo da vida ruidosa e fácil, inteligente sem largos horizontes, possuindo
apenas a instrução precisa para desempenhar-se regularmente de qualquer comissão de certa
ordem, Mendonça, com todos os seus defeitos e boas qualidades, era homem agradável e
aceito. Os defeitos eram antes do espírito que do coração. A variedade que ele pedia para as
coisas externas e de menor tomo, não a praticava em suas afeições, que eram geralmente
inalteráveis e fiéis. Era capaz de sacrifício e dedicação; sobretudo se lhe não pedissem o
sacrifício deliberado ou a dedicação refletida, mas aquele que exige uma circunstância
imprevista e súbita.
Não admira que a presença de tal homem viesse modificar o tom da sociedade de que
era centro a família de Estácio, quando ele ali fazia alguma aparição. Era o sol daquela terra.
Não tinha a rijeza do figurino, nem o ar do estrangeirado. A tesoura  do alfaiate não lhe
dissimulara a índole expansiva e franca. Acolhido como um filho, achava ali uma porção de
casa. Que melhor aspecto podia ter a vida em tais condições, naquela família ligada por um
sentimento de amor?
A noite do último dia do ano veio turvar a limpidez das águas.
CAPÍTULO XI
Naquele dia fazia anos Estácio, e D. Úrsula assentara receber algumas pessoas a
jantar, e outras mais à noite, em reunião íntima. Ela e Helena tomavam a peito fazer que a
pequena festa de família fosse digna do objeto. Estácio opinou pela supressão do sarau; mas
era difícil alcançar a desistência de corações que o amavam.
Logo de manhã, como ele se levantasse cedo, encontrou Helena que o convidou a
segui-la à sala de costura.
— Quero dar-lhe o meu presente de anos, disse ela.
Ali entrados, abriu a moça uma pasta de desenhos, na qual havia um só, mas
significativo: era uma parte  da estrada de Andaraí, a mesma por onde eles costumavam
passear, mas com algumas particularidades do primeiro dia. Dois cavaleiros, ele e ela, iam
subindo a passo lento; ao longe, e acima via-se a velha casa da bandeira azul; no primeiro
plano, desciam o preto e as mulas. Por baixo do desenho uma data: 25 de julho de 1850. Estácio não pôde conter um gesto de  admiração, quando a moça  retirou de cima do
desenho a folha de papel de seda que o cobria. Apertou a  mão de Helena e examinou o
trabalho. Notou a firmeza das linhas, a exação das circunstâncias locais, as impressões de
uma hora fugitiva que o lápis da irmã tivera a arte de fixar no papel.
— Não podia fazer-me presente melhor, disse ele; dá-me uma parte de si mesma, um
fruto de seu espírito. E que fruto! Não há muita moça que desenhe assim. Era talvez por isso
que você saía algumas vezes sozinha com o pajem?
Estácio contemplou ainda instantes o desenho; depois levou-o aos lábios. O beijo
acertou de cair na cabeça da cavaleira. Foi o original que corou.
— Andavam a gabar os meus talentos, disse Helena após um instante; tive a vaidade
de dar uma pequena amostra.
— Excelente amostra! Não acha, titia? disse o moço a D. Úrsula, que nesse instante
aparecera à porta, trazendo o seu presente, numa bocetinha de joalheiro.
D. Úrsula não tinha, decerto, o instinto da arte; mas o amor da família lhe ensinara
uma estética do coração, e essa bastou a fazê-la admirar o trabalho de Helena.
— Mas que digo eu todos os dias? exclamou D. Úrsula. Esta pequena sabe tudo!
— Quase tudo, emendou Helena; ignoro, por exemplo, como lhes hei de agradecer.
— O quê, tontinha? interrompeu a tia. Algum disparate, naturalmente, impróprio em
qualquer dia, mas muito mais ainda no dia de hoje.
Enquanto as duas senhoras foram tratar das disposições do dia, Estácio mandou selar o
cavalo e saiu. Queria comparar ainda uma vez o desenho de Helena com o sítio copiado. A
fidelidade era completa, e o quadro seria  absolutamente o mesmo, se dessem algumas
circunstâncias da primeira ocasião. Helena não ia ao lado dele; mas a vinte braças de
distância flutuava a bandeira azul da casa do alpendre. Estácio afrouxou o passo do cavalo,
como saboreando as recordações da primeira  manhã, quando Helena se lhe mostrara tão
singularmente comovida. Volveu a refletir na situação dela, e na paixão que lhe confessara,
dias antes, com tamanha veemência. Se se tratava de uma felicidade possível, embora difícil,
Estácio prometeu a si mesmo alcançar-lha. Não era isso servir o sangue do seu sangue?
A casa do alpendre, até ali indiferente a Estácio, criava agora para ele um interesse
especial. À medida que se aproximava, ia achando no edifício a fiel reprodução do desenho.
Este não apresentava todas as particularidades da vetustez; mas continha as mesmas
disposições exteriores, como se fora feito diante do original.
A uma das janelas estava um homem, com a cabeça inclinada, atento a ler o livro que
tinha sobre o peitoril. Nessa atitude não era fácil examiná-lo; afigurava-se, entretanto, uma
criatura máscula e bela. A duas braças de distância, o indivíduo levantou a cabeça, e cravou
em Estácio um par de olhos grandes e serenos; imediatamente os  retirou, baixando-os ao
livro.
“Mal sabes tu, filósofo matinal, disse Estácio consigo, mal sabes tu que a tua casa teve
a honra de ser  reproduzida pela mais bela mão do mundo!”
O filósofo continuou a ler, e o cavalo continuou a andar. Quando Estácio regressou daí
a alguns minutos, achou somente  a casa; o morador desaparecera; circunstância indiferente,
que escapou de todo à atenção do moço. Nem ele  pensava mais naquilo; o espírito trotava
largo, à inglesa, como o ginete, e ambos bebiam o ar, como ansiosos de chegar ao ponto da
partida.
CAPÍTULO XII A festa correu animada, posto a reunião fosse restrita. Alguns giros de valsa, duas ou
três quadrilhas, jogo e música, muita conversa e muito riso, tal foi o programa da noite, que a
encheu e fez mais curta.
Se as honras da casa foram feitas por Helena, a alma da festa era Mendonça, cujo
espírito havia já recebido e colhido o sufrágio universal. Eugênia dera-lhe, antes de todos, o
seu voto. Havia entre ambos tal ou qual afinidade de índole, que naturalmente os aproximava.
Mendonça lisonjeava os caprichos de Eugênia, aplaudia-a, compreendia-a, obedecia-lhe sem
constrangimento nem reparo. Quando Mendonça valsava com Eugênia, todos os olhos se
concentravam neles. Eram valsistas de primeira ordem. As ondulações do corpo de Eugênia, e
a serenidade e segurança de seus passos adaptavam-se maravilhosamente àquela espécie de
dança. Era belo vê-los percorrer o vasto círculo deixado aos movimentos; vê-los enfim parar
com a mesma precisão e sem o menor sintoma de cansaço. Eugênia punha toda a atenção no
gesto de braço com que, logo que interrompia  ou cessava de todo a valsa, conchegava ao
corpo a saia do vestido. O prazer com que fazia esse gesto, e a graça com que o acompanhava
de uma leve inclinação do corpo mostravam que, mais ainda a faceirice do que a necessidade,
lhe movia o corpo e a mão.
Esta sorte de triunfos enchia a alma de Eugênia; e, porque ela não possuía nem a
modéstia nem a arte de a simular, via-se-lhe no rosto o orgulho e a satisfação. A dança não
era para a filha de Camargo um gozo ou um recreio somente; era também um adorno e uma
arma. Daí vinha que o valsista mais intrépido e constante era também o principal parceiro do
seu espírito; e ninguém disputava esse papel ao filho do comerciante.
— Sua filha é a rainha da  noite,  murmurou o Dr. Matos  ao  ouvido  de  Camargo, em
um intervalo do voltarete.
— Não é verdade? acudiu o médico.
E a alma do pai voava enrolada nas pontas da fita que apertava a cintura de Eugênia,
não regressando ao domicílio senão quando a moça parava. Então volvia Camargo um olhar
em torno de si, como pedindo igual admiração. Depois, ficava sombrio, e mais do que
usualmente, caía em longos e mortais silêncios. Três ou quatro vezes aproximara-se de
Helena sem lograr detê-la, nem achar em si mais que duas palavras triviais. Insistia; não a
perdia de vista, parecia ansioso de a conversar sobre alguma coisa.
Helena repartia-se entre todas as pessoas, atenta aos mil cuidados que a noite requeria.
Cantou uma vez, dançou uma quadrilha, e não valsou. Em vão Mendonça insistira com ela; a
moça
desculpou-se dizendo que a valsa lhe fazia vertigens. Na opinião do filho do comerciante esta
razão encobria somente a ignorância de Helena. Estácio pensava antes que era a castidade
selvagem da irmã que lhe não permitia o contato de um homem, idéia que lhe fez bem ao
coração.
Pela volta da meia-noite, terminada a ceia, começou aquela hora de repouso que
precede a total dispersão. As senhoras trocavam impressões e comentários, os rapazes
fumavam, os jogadores decidiam as últimas remissas. A noite não refrescara, e a agitação
aumentara o calor. Helena, tão cansada como D. Úrsula, retirara-se por alguns instantes para a
sala contígua à principal; ali sentou-se num sofá, e derreou levemente o corpo, deixando cair
os cílios, não sei se pensativos, se pesados de sono. O espírito não tivera tempo de encadear
duas idéias ou esboçar um sonho, quando uma voz a acordou.
— Já dormindo!
Era Camargo.
Helena abriu os olhos sobressaltada. A voz de Camargo produzira-lhe a impressão de
desagrado que lhe fazia sempre. Sorriu a moça contrafeitamente, e, vendo que ele se dispunha
a sentar-se no sofá, não arredou o vestido, como se quisesse deixar entre ambos larga
distância. Camargo sentou-se. — Parece que se assustou? disse ele.
— Um pouco.
Camargo agitou entre as mãos os perendengues do relógio, tão numerosos como eles
se usavam naquele tempo; depois pegou familiarmente no leque da moça, abriu-o, contou as
varetas, tornou a fechá-lo e restituiu-o com um elogio. Helena respondeu-lhe com um sorriso.
Ia levantar-se, quando ele a deteve com estas palavras:
— Estimei achá-la só, porque  precisava pedir-lhe um conselho. A testa de Helena
contraiu-se interrogativamente.
— Um conselho e um favor, continuou o médico. Não será, creio eu, a primeira vez
que a velhice consulte a mocidade. Demais trata-se  de assunto em que a gente moça lê de
cadeira.
Helena olhou para ele desconfiada. Nunca vira o médico tão afável, e essa mudança de
maneiras e de tom é que lhe fazia medo. Verdade é que ele ia pedir-lhe alguma coisa.
Camargo não se deteve. Fez uma exposição rápida de suas relações com a família do
conselheiro, da amizade que o ligava a ela.
— A perda do meu finado amigo, concluiu  ele, não pôde ser suprida por nenhuma
coisa; mas, há alguma compensação na afeição que sobrevive e me faz considerar esta família
como minha própria. Estou certo de que seu irmão e D. Úrsula sentem a meu respeito do
mesmo modo. Quanto à senhora, é recente na família, mas não tem menor direito que ela. Via tão pequena!
— A mim? perguntou Helena.
Camargo fez um gesto afirmativo, enquanto a moça olhava em volta da sala, receosa
de que alguém tivesse entrado e ouvido. Uma vez segura de que ninguém havia, recebeu
impressão contrária à primeira; envergonhou-se daquele  receio. A vergonha aumentou
quando o médico acrescentou em voz baixinha:
— Não falemos nisso...
— Pelo contrário! exclamou ela. Pode falar com franqueza; diga tudo. Era minha mãe.
Não sei o que foi para o mundo; mas, se me perdoaram a irregularidade do nascimento, não
creio que me pedissem em troca a renúncia do meu amor de filha; a lei que o pôs em meu
coração é anterior à lei dos homens. Não repudio uma só das minhas recordações de outro
tempo. Sei e sinto que a sociedade tem leis e regras dignas de respeito; aceito-as tais quais;
mas deixem-me ao menos o direito de amar o que morreu. Minha pobre mãe! Vi-a expirar em
meus braços, recolhi o seu último suspiro. Tinha apenas doze anos; contudo, não consenti que
outra pessoa velasse à cabeceira a última noite que passou sobre a terra... Oh! não a
esquecerei nunca! nunca!
Helena proferiu estas palavras num estado de exaltação que até ali se lhe não vira. Em
vão Camargo procurou duas ou três  vezes interrompê-la,  receoso de que a ouvissem fora,
porque a moça tinha levantado a voz. Helena não obedeceu; não viu sequer o gesto suplicante
do médico. O seio, castamente  velado pelo corpinho, que subia até ao pescoço, estava
ofegante e onduloso como a água do mar. A  última palavra saiu-lhe como um soluço.
Camargo sentiu-se surpreendido  com aquela explosão de ternura. Era evidente que ele
esperava outra coisa. Seguiu-se um breve silêncio, durante o qual Helena mordia a ponta do
lenço, como para conter a palavra que lhe tumultuava no coração. O médico prosseguiu
enfim:
— Ninguém lhe pede que a esqueça, disse ele, todos respeitam esses sentimentos de
piedade filial. O passado morreu, e o menos que se deve aos mortos é o silêncio. A senhora
tem o direito de lhe dar o amor e a saudade. Mas falemos dos vivos; e perdoe-me se lhe
toquei, sem querer, em tão dolorosa recordação.
— Não! não é dolorosa! disse ela, abanando a cabeça.
— Falemos dos vivos. Não está certa do amor de sua família? Helena fez um gesto afirmativo.
— Não poderia encontrar outra melhor nem tão boa. D. Úrsula é uma santa senhora;
Estácio, um caráter austero e digno. Venhamos agora ao conselho. Há muito tempo ando com
idéia de ir à Europa; estou caminhando para a velhice; não quero deixar de ir ver alguma
coisa, além do nosso Pão de Açúcar. Já desfiz o projeto mais de uma vez. Cuido que agora
vou definitivamente realizá-lo. Dá-se, porém, uma circunstância grave. Sabe que minha filha
ama seu irmão? Meus olhos descobriram desde muito tempo essa inclinação de um e outro,
porque também seu irmão ama  minha filha. Merecem-se; e  de algum modo continuam a
afeição dos pais; a natureza completa a natureza. Esta é a situação. O que eu desejava, porém,
é que me dissesse se devo partir já, levando-a; ou se é melhor esperar que eles se casem.
Helena ouvira o médico sem olhar para ele; quando ele acabou, fitou-o admirada e
curiosa. A puerilidade da pergunta era tão evidente que a moça procurou ler no rosto do
interlocutor o pensamento verdadeiro e oculto. Camargo apressou-se a explicar-se.
— Estácio, disse ele, pode amar Eugênia com idéias matrimoniais; mas também pode
não passar isto de um capítulo de romance, como o que se lê em uma viagem da Corte a
Niterói. O caráter é sério; o coração tem leis especiais. Confesso que o procedimento de
Estácio nada me afirma a tal  respeito. Há nele umas mudanças pouco explicáveis. O tempo
decorrido é mais que muito suficiente para que... Está refletindo?
— Estou.
— E...
— Suponho que pede mais do que me disse. Quer que eu indague a tal respeito as
intenções de Estácio?
— Isso.
— Mas por que não se dirige a ele mesmo?
— Não havia inconveniente; estabeleceu-se, porém, que um pai não deve ser o
primeiro a falar em tais coisas. E preciso respeitar a dignidade paterna. Acresce que Estácio é
rico, e tal circunstância podia fazer supor de minha parte um sentimento de cobiça, que está
longe de meu coração. Podia falar a D. Úrsula; creio, porém, que ela não tem a sua
habilidade, e... por que o não direi? a sua influência no espírito de Estácio.
— Eu!
— Oh! influência incontestável! A senhora veio completar a alma de seu irmão. É
visível a afeição e o respeito que ele lhe tem. Demais, em tais assuntos uma irmã natural
confidente e conselheira.
Helena deu três pancadinhas no joelho com a ponta do leque, e enfiou os olhos pela
porta de comunicação entre aquela e a sala principal. Depois voltou-se para o médico.
— Sei que eles se amam, disse ela, e já  dei a minha opinião tal respeito. Eugênia
parece ser minha amiga; meu irmão é meu irmão; desejo-lhes todas as felicidades. Há, porém,
um limite à intervenção de uma irmã; e não desejo ir além. Demais, seu pedido é ocioso.
— Por quê?
— Anuncie a viagem, e Estácio se apressará  a pedir-lhe sua filha. Se o não fizer, é
porque a não ama, conforme ela merece, e em tal caso mais vale perder um casamento do que
o fazer mal.
— Sim? perguntou Camargo.
— Naturalmente.
— O conselho é excelente, disse o médico depois de um instante, mas tem o defeito
substancial de suprimir a sua intervenção, que me é necessária. Vejamos o meio de combinar
as coisas. Suponhamos que, anunciada a viagem, Estácio não corresponde às minhas
esperanças. Que devo fazer?
— Embarcar. — Embarcar é arriscar o casamento. Ora, este casamento é um de meus sonhos.
Desejo que os filhos continuem a afeição dos pais. Se Estácio recuar, minhas esperanças
esvaem-se como fumo; o tempo cavará um abismo entre os dois; Eugênia amará outro...
Enfim, conto com a senhora.
— Comigo?
— A senhora tem uma força de resolução, uma fertilidade de expedientes, um espírito
capaz de empresas delicadas; e, tratando-se da felicidade de um irmão, creio que empenhará
todas as forças para levar a cabo a mais pura das ambições. Não lhe peço um absurdo, peçolhe a felicidade de minha filha.
Helena não respondeu; olhou de revés para ele, e cravou depois os olhos na águia
branca tecida no tapete, sobre o qual pousava o pé impaciente e colérico. Podia referir mais
detidamente qual o seu papel junto de Estácio, a respeito de Eugênia, os pedidos que lhe fez,
e a promessa do irmão, que deveria ser cumprida, se o fosse, em algum dos seguintes dias.
Mas, nem quis dar esperanças que os acontecimentos podiam dissipar, nem o coração lhe
consentia mais larga confidência. Ambos eles viam que se detestavam cordialmente; mas, se
em Helena havia cólera abafada, em Camargo havia tranqüilidade e observação. Ele contemplava a moça, com o olhar fixo e metálico dos gatos; a mão esquerda, pousada sobre o
joelho, rufava com os dedos magros e peludos. Nada dizia; todo ele era uma interrogação
imperiosa. Helena olhou ainda uma vez para o médico.
— Dá-me o seu braço até à sala? perguntou.
Camargo sorriu.
— Só isso? Eu dizia comigo outra coisa.
— Que dizia então? perguntou Helena.
— Dizia que muito se devia esperar da dedicação de uma moça, que acha meio de
visitar às seis horas da manhã uma casa velha e pobre, não tão pobre que a não adorne
garridamente uma flâmula azul...
Helena fez-se lívida; apertou nervosamente o pulso de Camargo. Nos olhos pareciam
falar-lhe ao mesmo tempo o terror, a cólera e a vergonha. Através dos dentes cerrados Helena
gemeu esta palavra única:
— Cale-se!
— Falo entre nós e Deus, disse Camargo.
Uma onda de sangue invadiu a face da moça, com a mesma rapidez com que ela lhe
empalidecera. Helena quis erguer-se, mas sentiu-se exausta. Ninguém da sala pôde perceber a
impressão e o movimento; ninguém olhava para ali. Camargo, entretanto, inclinou-se para
Helena e proferiu algumas  palavras de animação, que ela interrompeu, murmurando com
amargura:
— O senhor é cruel!
— Sou pai, respondeu o médico; pai extremoso e discreto, mais  discreto ainda que
extremoso. Conto com a senhora.
 
CAPÍTULO XIII
Dissolvida a reunião, Helena recolheu-se à pressa com o pretexto de que estava a cair
de sono, mas realmente para dar à natureza o tributo de  suas lágrimas. O desespero
comprimido tumultuava no coração, prestes a irromper. Helena entrou no quarto, fechou a
porta, soltou um grito e lançou-se de golpe à cama,  a chorar e a soluçar.
A beleza dolorida é dos mais patéticos espetáculos que a natureza e a fortuna podem
oferecer à contemplação do homem.  Helena torcia-se no leito como se todos os ventos do
infortúnio se houvessem desencadeado sobre ela. Em vão tentava abafar os soluços, cravando
os dentes no travesseiro. Gemia, intercortava o pranto com exclamações soltas, enrolava no pescoço os cabelos deslaçados pela violência da aflição, buscando na morte o mais pronto dos
remédios. Colérica, rompeu com as mãos o corpinho do vestido; e o jovem seio, livre de sua
casta prisão, pôde à larga desafogar-se dos suspiros que o enchiam. Chorou muito; chorou
todas as lágrimas poupadas durante aqueles meses plácidos e felizes, leite da alma com que
fez calar a pouco e pouco os vagidos de sua dor.
Calar somente, não adormecê-la, porque ela aí lhe ficou, companheira daquela noite
cruel, para velarem ambas. Quando os olhos cansaram, e foram mais intervalados os soluços,
Helena jazeu imóvel no leito, com o rosto sobre o travesseiro, fugindo com a vista à realidade
exterior. Uma hora esteve assim, muda, prostrada, quase morta, uma hora longa, longa, longa,
como as tem o relógio da aflição e da esperança.
Quando a tormenta pareceu extinta, a moça sentou-se na cama e olhou vagamente
em torno de si. Depois ergueu-se; dirigiu-se trôpega ao quarto de vestir; ali parou diante do
espelho, mas fugiu logo, como se lhe pesasse encarar consigo mesma. Uma das janelas estava
aberta. Helena foi ali aspirar um pouco do ar da noite. Esta era clara, tranqüila e quente. As
estrelas tinham uma cintilação viva que as fazia parecer alegres. Helena enfiou um olhar por
entre elas como procurando o  caminho da felicidade. Esteve  à janela cerca de meia hora;
depois entrou, sentou-se e escreveu uma carta.
A carta era longa, escrita a golfadas, sem nexo nem ordem; continha muitas queixas e
imprecações, ternura expansiva de mistura com um desespero profundo; falava daqueles que,
tendo nascido sob a influência de má estrela, só têm felicidades intermitentes e mutáveis;
dizia que para ela a própria felicidade era um gérmen de morte e dissolução, — idéia que
repetia três vezes, como se tal observação fosse o transunto de suas experiências certas. A
carta falava também de um homem, cujo egoísmo de pai não conhecia limites, e que a todo o
transe queria que a filha desposasse uma grande riqueza e uma grande posição, “homem,
dizia ela, que me viu a princípio com olhos avessos, pela diminuição que eu trazia à herança”.
No fim dizia que havia naquelas linhas muito de obscuro e incompleto, que oportunamente
contaria tudo, mas que desde já podia dar a triste notícia de que lhe era forçoso abster-se de
sair.
Helena releu o escrito e meditou longo tempo sobre ele; acrescentou ainda algumas
linhas; depois, rasgou o papel  em dois pedaços, chegou-os à  vela, e os destruiu. Como
arrependida, voltou a escrever outra carta, mas não chegou a acabar seis linhas; rasgou-a
como fizera à primeira, e só então recorreu ao  remédio melhor de uma alma ulcerada e pia:
rezou. A prece é a escada misteriosa de Jacó: por ela sobem os pensamentos ao céu; por ela
descem as divinas consolações.
Entretanto, a noite começava a inclinar a urna das horas às mãos da madrugada. O
sono fugira dos olhos de Helena; mas era forçoso repousar. Assim mesmo vestida, atirou-se
sobre o leito. Não dormiu, não se pode dizer que dormisse; ficou ali num estado que não era
vigília nem sono, até que a manhã rompeu inteiramente. Abrindo os olhos, pareceu acordar de
um sonho; a imaginação recompôs as fases  todas do acontecimento  da véspera. Depois
suspirou e ficou longo tempo a olhar para o chão, com a fixidez trágica e solene da morte.
“Era justo!” murmurava de quando em quando.
Levantou-se enfim; levantou-se abatida e cansada. Viu-se ao espelho; a descor da face
e a linha roxa que lhe circulava as dificilmente podiam deixar de impressionar a família.
Helena disfarçou como pôde  esses vestígios da tempestade; explicou-os do modo mais
verossímil: o cansaço da véspera e a insônia  de toda uma noite. A explicação não achou
obstáculo no ânimo da tia e do irmão. Somente o  Padre Melchior, presente a ela, fitou na
moça um olhar dubitativo, que a obrigou a baixar os cílios.
Se Helena padecia, o lugar de Estácio não era ao pé dela? Assim pensou o sobrinho de
D. Úrsula, que em todo esse dia resolveu não sair de casa. Cercou-a de cuidados, buscou
distraí-la, pediu-lhe que fosse  repousar um instante. Para justificar a explicação que dera, Helena obedeceu às instruções do irmão. Este foi encerrar-se no gabinete, onde se ocupou em
examinar e colecionar alguns papéis. Era  o dia marcado para solicitar de Eugênia o
consentimento matrimonial, e ele não cogitava em ir ao Rio Comprido. Na irmã, sim; na irmã
pensava ele, ora relendo as páginas de sua predileção, ora mandando saber se dormia sossegada, ora contemplando o desenho com que ela o presenteara na véspera. Sentia-se tão feliz
naquela aurora do ano!
Pouco antes do jantar, ouviu no corredor um rumor de saias, e não tardou que a irmã
aparecesse à porta. Vinha como fora; mas a Estácio pareceu que efetivamente o descanso e o
sono lhe haviam restaurado as forças. A razão era o sorriso estudado que lhe avivava o rosto.
Helena parou e Estácio foi ter com ela, travou-lhe da mão, fê-la entrar.
— Estás melhor? perguntou.
— Estou boa.
— Não dizia eu que era melhor desistir da idéia da reunião? Essas festas prolongamse, e fatigam, sobretudo as pessoas franzinas...
Helena ergueu os ombros.
—  Anda sentar-te um pouco.
—  Primeiro há de responder-me a uma coisa.
 —  Que é?
—  Que dia é hoje? perguntou ela.
—  Ano-Bom.
—  Lembra-se do que me prometeu?
— Perfeitamente. Vês estes papéis? disse ele mostrando sobre a secretária uma porção
de papéis classificados e postos por ordem. Ocupei-me até  agora em liquidar o passado;
faltam-se umas últimas contas, que o procurador há de trazer amanhã. Depois, irei...
Helena abanou a cabeça com ar de desaprovação.
— Não, disse ela; não há de ir depois, há de ir hoje mesmo. Que têm as contas com a
autorização que deve pedir a Eugênia? Vá logo de noite. Sou supersticiosa; creio que o
pedido feito no dia de hoje é de excelente agouro. Dará um ano feliz.
— Minha intenção era ir dentro de quatro ou cinco dias, respondeu Estácio, depois de
um silêncio; mas não tenho dúvida em fazê-lo. Uma vez preenchida a formalidade...
— Pedi-la-á imediatamente ao pai.
— Não!
— Por quê?
— Porque precisarei meditar ainda vinte e quatro horas,  pelo menos. Vinte e quatro
horas não é muito para quem  tem de amarrar-se eternamente. Quero sondar meu próprio
espírito, e...
— Mas tudo isso é uma extravagância! interrompeu Helena sentando-se na borda da
rede em que Estácio costumava ler. Pretenderá você recuar depois de lhe falar, a ela?
— Oh! não! Mas, uma vez que caminho para solução tão grave, não há inconveniente
em ir pé ante pé. Admiras-te? perguntou ele, vendo que a irmã fazia um gesto de impaciência.
— Zango-me.
— Mas...
— Você é insuportável. Falta ao que prometeu.
— Já disse que hei de cumprir.
— Não recuará?
— Não.
— Irá pedi-la hoje mesmo?
— A ela.
— A ela e ao pai.
— Ao pai escreverei uma carta. — Pois seja uma carta! Contanto que acabe com isso. O casamento será...
— Quando convier ao Dr. Camargo.
— Antes do fim do mês.
— Tão cedo!
— Dou-lhe mês e meio. Nem uma hora mais! Estou morta por vê-los casados, tanto
por você como por ela, coitada! que o ama tanto.
— Crês? perguntou vivamente Estácio.
— Se creio! Posso afirmá-lo. Não será amor como você  quisera que fosse, mas é o
amor que ela lhe pode dar, e é muito ... Está dito! Palavra?
Estácio estendeu silenciosamente a mão, que Helena apertou.
— Vou confiar todo o meu destino à cabeça mais leve do universo, disse Estácio, com
os olhos fitos no chão. Não é de seu coração que me queixo; mas de seu espírito, que nunca
deixou as roupas da infância. Demais, à medida que me aproximo da hora solene, sinto que
me repugna o estado conjugal. É tão boa a minha vida de solteiro! tão cheios os meus dias...
Helena tapou-lhe a boca com uma das mãos; com a outra fez-lhe um gesto para que se
calasse. Depois, fugiu. Uma vez só, Estácio refletiu longamente na situação em que se
achava; reconheceu que estava moralmente obrigado a pedir Eugênia, desde que seus
corações se tinham aberto um para o outro, celebrando um contrato, que ele só não podia
romper. A consciência rebelou-se contra as irresoluções do coração, e a decisão foi curta.
Naquela mesma noite, ouviu Eugênia a esperada palavra. A alegria que se lhe
derramou nos olhos, foi imensa e característica. Um pouco mais de recato não era descabido
em tal ocasião. Não houve nenhum; o primeiro ato da mulher foi uma meninice. Eugênia
ignorava tudo, até a dissimulação do sexo. Concedendo a mão a Estácio, não era uma castelã
que entregava o prêmio, mas um cavaleiro que o recebia com alvoroço e submissão.
Transposto o Rubicão
4
, não havia mais que caminhar  direito à cidade eterna do
matrimônio. Estácio escreveu no dia seguinte uma carta ao Dr. Camargo, pedindo-lhe a mão
de Eugênia, carta seca e digna, como as circunstâncias a pediam. Antes de a remeter,
mostrou-a a Helena, que recusou lê-la. Não a leu, nem lhe pegou. Ele teve-a alguns instantes
na mão, sem se atrever a dá-la  ao escravo que esperava por ela. Por fim, deitou-a sobre a
secretária.
— Amanhã, disse ele sorrindo para Helena.
Helena lançou mão da carta e deu-a ao escravo.
— Leva à casa do Sr. Dr. Camargo, ordenou a moça. Não tem resposta.
CAPÍTULO XIV
Camargo ia sentar-se à mesa quando lhe entregaram a carta de Estácio; leu-a para si,
mas a filha leu-a nos olhos dele. Uma aura de bem-aventurança desrugou a fronte do médico;
seus lábios, — coisa pasmosa! — abriram-se num sorriso franco, sorriso que chegou a
desabrochar em gargalhada, a primeira que D. Tomásia lhe ouviu. Acabado o jantar, Camargo
deu conta do pedido à mulher, e os dois pais chamaram a filha à sala. Eugênia ouviu a notícia
sem baixar os olhos nem corar. Interrogada, respondeu que era muito do seu gosto o
casamento.
— Sim? perguntou Camargo, simulando espanto.
                                                       
4 — Riozinho que separava a Itália da Gália Cisalpina (hoje Pisatello ou Fiumicino). César,
governador da Gália, estava proibido, pelo Senado, de o atravessar. Tendo de o fazer para enfrentar
Pompeu, hesitou um momento, mas acabou por decidir-se, dizendo: “Alea jacta est!” (“A sorte está
lançada!”). Suas palavras ficaram significando toda dificuldade aparentemente intransponível. Eugênia fez uma leve inclinação de cabeça, com certo ar de quem dizia não acreditar
no espanto do pai. Este pegou nas mãos da filha e puxou-a para si.
— Assim, pois, meu anjo, disse ele, casas-te por tua livre vontade? Estácio é o eleito
de teu coração? Louvo a escolha, que não podia ser mais digna. Serás herdeira das virtudes de
tua mãe, que te proponho como o melhor modelo da terra.
— O mais consciencioso pelo menos, acudiu D. Tomásia, satisfeita e vaidosa do
louvor do marido. Há de ser boa esposa, modesta, solícita e econômica.
— Econômica, sem avareza, emendou Camargo. A riqueza não deve ser dissipada,
mas é certo que impõe obrigações imprescindíveis, e seria da maior inconveniência viver a
gente abaixo de seus meios. Não farás isso nem cairás no extremo oposto; procura um meiotermo, que é a posição do bom senso. Nem dissipada, nem miserável.
D.Tomásia concordou com esta explicação do marido, enquanto Eugênia, olhando
alternadamente para um e outro, parecia não lhes dar a mínima atenção. O pensamento estava
em Andaraí; ela via já na imaginação a cerimônia do consórcio, as carruagens, o apuro do
noivo, a sua própria graça, a coroa de flores de laranjeira, que a havia de adornar; enfim
talhava já o vestido branco e pregava as rendas de Malines com que havia de levar os olhos a
ambas as metades do gênero  humano. Daquele sonho foi despertada pelo pai, que lhe
imprimiu na testa o seu segundo beijo. O primeiro, como o leitor se há de lembrar, foi dado
na noite da morte do conselheiro. O terceiro seria provavelmente no dia em que ela casasse.
— Sabes que te amo, Eugênia? disse Camargo olhando para ela.
— Papai!
Camargo não pôde dizer mais nada. O amor, um instante expansivo, volveu a aninharse no fundo do coração, onde sempre estivera. A satisfação do médico precisava do silêncio e
do recolhimento para saborear-se. Foi então que Eugênia passou às mãos de D. Tomásia. A
mulher do Dr. Camargo via aquele casamento com olhos diferentes do marido. O que ela
sobretudo via, eram as vantagens morais da filha. Sentou-a ao pé de si e recitou-lhe um
catecismo de deveres e costumes, que Eugênia interrompia de quando em quando, com
exclamações de obediência filial:
— Sim, mamãe!.. . Deixe estar!.. . Mamãe há de ver!...
D. Tomásia sentia-se feliz. O rosto, cuja expressão era vulgar, tinha naquela ocasião
alguma coisa que o tornava sublime. Ela fez que a filha se lhe sentasse no regaço; e esta,
sentindo que a molestava, deixou-se lentamente cair de joelhos, ficando entre os dela, a olhar
para ela.
Camargo, entretanto, já não era daquele mundo. Passeava de um para outro lado, com
as mãos para trás, a morder a ponta do bigode. De quando em quando parava e olhava para o
grupo das duas senhoras, mas era  só maquinalmente; o seu olhar baço indicava que ele ia
mergulhado em profundas cogitações.
Naquele homem céptico, moderado e taciturno, havia uma paixão verdadeira,
exclusiva e ardente: era a filha. Camargo adorava Eugênia: era sua religião. Concentrava
esforços e pensamentos  em fazê-la feliz,  e para o alcançar não duvidaria empregar, se
necessário fosse, a violência, a perfídia e a dissimulação. Nem antes nem depois sentira igual
sentimento; não amou a mulher; casou porque o matrimônio é uma condição de gravidade. O
maior amigo que teve foi o Conselheiro Vale; mas essa mesma amizade que o ligara ao pai de
Estácio, nunca recebera a contraprova do sacrifício; aliás apareceria em toda a sinceridade a
natureza do médico. Ele só conhecia os afetos, por assim dizer, caseiros e inertes, os que não
sabem nem podem afrontar as intempéries da vida. Nas relações morais dos homens possuía
somente o troco miúdo da polidez; a moeda de ouro dos grandes afetos nunca lhe entrara nas
arcas do coração. Um só existia ali: o amor de Eugênia.
Mas esse mesmo amor, aliás violento, escravo e cego, era uma maneira que o pai tinha
de amar-se a si próprio. Entrava naquilo uma  soma larga de fatuidade. Menos graciosa, Eugênia seria, talvez, menos amada. Ele contemplava-a com o mesmo orgulho com que o
joalheiro admira o adereço que lhe saiu das mãos. Era a ternura do egoísta; amava-se na
própria obra. Caprichosa, rebelde, superficial, Eugênia não teve a fortuna de ver emendados
os defeitos; antes foi a educação que lhos deu. Dos lábios de Camargo nunca saiu a expressão
corretiva; nenhum de seus atos  revelou esse procedimento vigilante e diretor, que é a nobre
atribuição da paternidade. Se a índole da filha fosse má,  a cumplicidade do pai fá-la-ia
péssima.
Não era, felizmente; o coração conhecia as doçuras da bondade; a rebeldia era um
hábito, não um vício nativo. A própria frivolidade foi-lhe desenvolvida pela educação, nada
podendo o zelo da mãe contra as complacências do pai. Esta  era a explicação também da
fascinação que exercia nela o tumulto exterior da vida. Quase se pode dizer que ela não
conhecera o vestido curto; a modista a desmamou; uma contradança foi a sua primeira
comunhão.
Não era fácil dar a Eugênia a felicidade que o pai ambicionava e a que mais lhe
apetecia a ela. Posto não fosse perdulário, eram poucos os haveres do médico, de modo que à
filha não podia caber pecúlio suficiente a satisfazer todas as veleidades. Ele espreitou durante
longo tempo um noivo, armando com algum dispêndio a gaiola em que o pássaro devia cair.
No dia em que percebeu a indignação de Estácio, fez quanto  pôde para prendê-lo de vez.
Esperou muitos meses a iniciativa de Estácio; e quando ela lhe entrou a fugir para a região
das coisas problemáticas, suspeitou a influência de Helena. Já era muito que esta moça
diminuísse a herança do futuro genro; arrancar-lhe o genro era demais. Camargo não hesitou
um instante, foi direito ao fim. O resultado confirmou-lhe a suspeita.
O casamento era muito, mas não bastava. Camargo cuidara na carreira política de
Estácio, como um meio de dar certo relevo público ao da filha, e, por um efeito retroativo, a
ele próprio, cuja vida fora tanto ou quanto obscura. Se o marido de Eugênia se confinasse no
repouso doméstico, entre a horta e a álgebra, a ambição de Camargo padeceria imenso. Vimolo apresentar a Estácio a maçã política; recusada a principio, foi-lhe de novo apresentada, e
finalmente aceita com a noiva. Esta dupla vitória foi o momento máximo da vida do médico.
Ele ouvia já o rumor público; sentia-se maior, — antegostava as delícias da notoriedade, —
via-se como que sogro do Estado e pai das instituições.
— Vou entrar na cova dos leões, sem a convicção de Daniel
5
, suspirou Estácio na
ocasião em que cedeu às instâncias de Camargo.
— Seu talento amansará os leões, acudiu este.
Assentou-se logo ali que o casamento seria celebrado na primeira semana de março.
Os dois meses de intervalo foram destinados às formalidades  eclesiásticas e ao preparo do
enxoval. Estácio aceitou tudo sem objeção. D. Úrsula e Helena  aprovaram o plano. A
primeira acrescentou uma cláusula: — os noivos viriam morar com elas em Andaraí.
O Padre Melchior, consultado sobre o casamento, deu-lhe inteira aprovação, e só lhe
pareceu que o prazo era longo demais. A efusão com que abraçou Estácio, as palavras de
aplauso que lhe disse, impressionaram vivamente o mancebo.
— Desejava muito este casamento? perguntou ele.
— Muito! Seu pai há de aprová-lo no céu!
Até os mortos conspiravam  contra ele; Estácio aceitou  resolutamente o destino. A
alegria do padre, ordinariamente contida e digna, transpôs os limites do costume, para se
mostrar quase infantil; D. Úrsula não cabia em si de contente; Helena parecia colher naquele
                                                       
5 — Um dos quatro grandes profetas. Levado cativo a Babilônia, ganhou as graças de Nabucodonosor
e as invejas de alguns, que não descansaram enquanto não o viram lançado à fossa dos leões.
Milagrosamente, no dia seguinte, foi encontrado são e salvo. casamento a sua própria felicidade. Era a bem aventurança universal que Estácio ia comprar a
troco de um vínculo eterno.
Surgiu, entretanto, um obstáculo temporário. A madrinha de Eugênia, a fazendeira que
lhe mandara um dia a opala, que a moça admirou namorando ao mesmo tempo os olhos do
futuro noivo, a madrinha de Eugênia adoeceu  gravemente, menos ainda da moléstia que a
acometeu que dos anos que lhe pesavam nos ombros. Era senhora rica, viúva, flanqueada por
duas sobrinhas solteiras, uma  cunhada, um primo, dois filhos destes e uma vintena de
afilhados. Já daqui se pode inferir a estreiteza das esperanças de Camargo. Posto que ele não
tivesse nunca preterido os deveres que lhe impunha o vínculo espiritual, dando à fazendeira
todas as provas possíveis de um grande afeto, ainda assim era de recear que a última vontade
da moribunda não trouxesse o  cunho da estrita justiça,  ou, quando menos, de razoável
eqüidade. Nestas circunstâncias, a viagem a Cantagalo era urgentíssima, e cumpria realizá-la
à custa dos maiores incômodos. Todo o incômodo é aprazível quando termina em legado.
Camargo não perdia a esperança desse desenlace igualmente afetuoso e pecuniário. Resolveu
ir com a família toda, e avisou por carta ao futuro genro.
Estácio estimou o obstáculo, mas não contou com o que ele trazia no bojo. Chegando
ao Rio Comprido achou aflitos o médico e D. Tomásia; Eugênia recusava sair da Corte. Em
vão lhe mostravam a conveniência de corresponder, em ocasião tão grave, à afeição da
madrinha; debalde lhe diziam que era ser ingrata não ir recolher o último suspiro da venerável
senhora, sua mãe espiritual. Eugênia recusava a pés juntos.
Assistiu o noivo à última fase da luta entre os pais e a filha. Esta trazia os olhos
vermelhos de chorar; batia com as mãos uma na outra, declarando que só iria à força. Estácio
procurou chamá-la à razão, apoiando as reflexões do pai, sem alcançar mais do que ele.
Enfim, Eugênia pós uma condição à sua aquiescência:
— Irei, se o Dr. Estácio for conosco.
Camargo aprovou a condição  in petto;  verbalmente, opôs-se ao sacrifício. Estácio
enfiara; posto entre a espada e a parede, já a viagem de Eugênia lhe parecia supérflua.
— Acompanha-nos? insistiu a moça.
— Não é possível, acudiu o médico, tamanho incômodo por um simples capricho.
— Pois então não vou!
D. Tomásia ficou um tanto vexada com a teima de Eugênia. Estácio mordia o lábio,
olhando para a moça, cujo rosto o interrogava instantemente. Venceu-o o decoro;
considerando Eugênia sua mulher, quis cortar por uma cena que lhe parecia ridícula.
— Acompanhá-los-ei, disse ele, sem entusiasmo.
A solução era favorável a todos; os três aceitaram de boa feição. Marcou-se a viagem
para dois dias depois. D. Úrsula, apesar  dos bons olhos com que via o casamento, achou
desnecessária a ida do sobrinho, mas não empreendeu dissuadi-lo. Helena aprovou tudo. Ele
fez sentir às duas parentas a extensão do sacrifício, e esteve a ponto de retirar a palavra. Era
tarde. A última noite passada em Andaraí foi cruel para ele; as horas voaram ligeiras como
nunca. Como devia sair no dia seguinte, logo cedo, ali mesmo se despediu da tia e da irmã,
despedida de alguns dias que lhe custou como  se fora de anos. Prometeu, entretanto, que o
regresso seria breve.
O que ele não podia prometer era conjurar o drama que se lhes preparava, drama que
ia enfim desenvolver-se, intenso, funesto e irremediável, — do qual não o consolariam jamais
nem as doçuras da paz doméstica, nem as glórias da vida pública. CAPÍTULO XV
Estácio levantou-se ao amanhecer. Uma vez pronto, quis surpreender a tia e a irmã
com uma lembrança sua, e escreveu numa folha de papel estas simples palavras: “Até à volta;
6 horas da manhã.” Dobrou-a e foi pô-la sobre a mesa de costura de D. Úrsula. Dali passou à
sala de jantar, depois à varanda. Aqui chegando, deu com os olhos em Helena, que o esperava
ao pé da escada.
— Silêncio! disse graciosamente a moça. Não faça espantos, que pode acordar titia.
Vim saber se você precisa de alguma coisa.
— De nada, respondeu Estácio comovido. Mas que imprudência  foi essa de se
levantar tão cedo?
— Cedo! O sol não tarda a cumprimentar-nos. Adeus! muitas recomendações a
Eugênia. Não lhe falta nada, não é assim?
— Nada.
Estácio recebeu a mão que Helena lhe estendera e ficou a olhar para ela.
— Olhe que é tarde!
Dizendo isto, Helena apertou-lhe a mão e procurou retirar a sua; Estácio reteve-a.
— Se soubesses como me custa ir!
— São apenas alguns dias...
— Valem por meses,  Helena! Adeus, não te esqueças de mim. Escreve-me; eu
escreverei logo que chegar. Não faças imprudências; não saias a passeio enquanto eu estiver
ausente.
— Adeus!
— Adeus!
Estácio quis dar-lhe o abraço da despedida; mas a moça, menos ainda com a palavra
que com o gesto, fê-lo recuar.
— Não, disse ela afastando-se; as despedidas  mais longas são as mais difíceis de
suportar.
Recuou até à porta da sala de jantar, fez um gesto de despedida e entrou. Estácio
desceu a custo as escadas. Helena viu-o descer e sair; depois subiu  cautelosamente ao seu
aposento. Ali sentou-se alguns minutos, pensativa e triste. Ergueu-se enfim, vestiu
rapidamente as roupas de montar; colocou o chapelinho preto  sobre os cabelos penteados à
ligeira, e desceu. Na chácara esperava-a Vicente, com a égua ajaezada e pronta. Helena montou sem demora; o pajem cavalgou uma das duas mulas que havia na cavalariça e os dois
saíram a trote na direção da casa do alpendre e da bandeira azul.
A casa estava ainda silenciosa; porta e janelas conservavam-se hermeticamente
fechadas. Helena apeou-se e bateu de mansinho; repetiu as pancadas progressivamente mais
fortes. Ninguém lhe respondeu. Helena impaciente rodeou a casa; mas, parece que achou
igualmente fechadas as portas do fundo, porque volveu logo. Colou o ouvido à porta e
esperou. Quando lhe pareceu que era baldado o  esforço, tirou da algibeira um lápis e um
pedacinho de papel; colocou o pé no degrau de tijolo e sobre o joelho escreveu algumas
palavras; dobrou depois o  papel e introduziu-o por baixo da porta. Esperou ainda alguns
minutos, caminhou para a égua, montou e regressou à casa.
Vinha triste e pensativa. A égua, a passo vagaroso, não sentia o esforço da cavaleira,
que a deixava ir, frouxa a rédea, inútil o chicote. O pajem levava os olhos na moça com um ar
de adoração visível; mas, ao mesmo tempo, com a liberdade que dá a confiança e a
cumplicidade fumava um grosso charuto havanês, tirado às caixas do senhor.
D. Úrsula não estava ainda levantada; Helena não lhe ocultou o passeio. O dia correu
triste e solitário, como os seguintes, sem embargo da companhia que iam fazer às duas
senhoras as pessoas mais íntimas. Mendonça, a quem Estácio as recomendara, era ali pontual; conseguia disfarçar um pouco as saudades do moço ausente. O Padre Melchior prolongava
visitas cotidianas. O mesmo sentimento ligava a todas as pessoas.
O mesmo era, e não único, porque outro e  mais egoísta e pessoal veio ali viçar
também. Mendonça sentiu que metade de seu destino estava acabado, e que a outra metade ia
começar, mais circunspecta que a primeira. O relógio em que ele viu bater essa hora fatídica,
foram os olhos de Helena. Mendonça começava a amar. Estouvado, e não corrupto,
atravessara o delírio dos primeiros anos sem perder a flor dos castos afetos, sem sequer a
haver colhido. Helena sentiu nascer e crescer essa adoração silenciosa, sem parecer que a
descobrira. Não animou o mancebo nem o repeliu; redobrou de confiança, dessa confiança
que só se dá aos simples familiares, e que mostra claramente a um namorado a inanidade de
suas esperanças. Ao parecer de estranhos, a situação afigurava-se de  perfeita concórdia. O
coronel-major piscou um dia os olhos ao Dr. Matos; o Dr. Matos proferiu um latet anguis in
herba
6
— e ambos foram repartir o pão das conjeturas com a esposa do advogado, senhora
muito perspicaz nos namoros de salão. A opinião dos três é que o casamento era coisa
provável, e talvez certa. Um só obstáculo  podia haver; eram os escrúpulos do pai de
Mendonça. Esse mesmo obstáculo não existia, porquanto, além das qualidades estimáveis da
moça, havia o reconhecimento legal e social, público e doméstico; acrescendo (observação do
Dr. Matos) que duzentas e tantas apólices mereciam um cumprimento de chapéu e não davam
lugar a cinco minutos de reflexão.
As primeiras cartas de Estácio chegaram uma tarde em que as duas senhoras e
Mendonça se achavam na varanda, acabado o jantar, bebendo as últimas gotas de café. D.
Úrsula, depois de pôr em atividade três mucamas para lhe irem procurar os óculos, levantouse e foi ela própria à cata deles, com a sua carta na mão. Helena ficou com a que lhe era
dirigida; estava sentada junto a uma das janelas, abriu-a e leu-a para si:
"Quando esta carta te chegar às mãos, estarei morto, morto de saudades de minha tia e
de ti.  Nasci para os meus, para minha casa, para os meus livros, os meus hábitos de todos os
dias.  Nunca o senti tanto como agora que estou longe do que há de mais caro neste mundo.
Poucos dias lá vão e já me parecem meses.  Que seria se a separação não fosse tão limitada?"
“Na carta que escrevo a titia dou conta da nossa viagem e da saúde de todos. D. Clara
está, na verdade, à beira da morte; mas pode durar ainda alguns dias, e o Dr. Camargo
resolveu esperar até dar-lhe os últimos adeuses. A recepção que nos fez a família foi
cordialíssima. Há aqui uma cunhada da enferma, um primo, três sobrinhos, outros parentes e
vários afilhados. O primo é comendador e tenente-coronel; ele e os outros são a gente mais
afável do mundo. Os homens da família são influências eleitorais; quando souberam da minha
candidatura, ofereceram-me logo os seus serviços, com a cláusula única de que haja prévia
recomendação do Rio de Janeiro. Agradeci o favor, com muita abundância d’alma, porque a
tal candidatura, que não me seduzia nem seduz, não há remédio senão cuidar dela, de modo
que o meu nome não padeça a injúria da derrota. Que te parece esta pontazinha de vaidade?
“Mudemos de assunto, que este me aflige, e não quero filosofar sem ti, que és a minha
companheira nestas vadiações de espírito. Aí não te lembrarás, talvez, das nossas palestras;
aqui lembra-me tudo. De manhã,  dou o meu passeio eqüestre, como lá; mas que diferença!
Quem vai a meu lado é o tenente-coronel, excelente homem, coração de pomba, com o
defeito único e enorme de se não chamar D. Helena do Vale, a minha boa Helena, que lá está
na Corte, a divertir-se sem seu irmão. Ele  fala de tudo e muito:  do café, do governo, das
eleições, dos escravos, dos impostos. Eu ouço, que é o menos que posso fazer, e deixo-o ir
sem interrupção. Às vezes, como que desconfiado, recolhe-se ao silêncio; eu ato o fio da
conversa e ele encarrega-se de desenrolar o novelo. Tão pouca coisa o faz feliz! Já cacei uma
                                                       
6 — Expressão usada pelo poeta romano Virgílio, nas Éclogas (III, 93) que quer dizer "uma serpente
se esconde sob a folhagem" e que significa pôr-se alerta contra um perigo secreto. vez; confesso-te que é o que me pode distrair um pouco. Pensava ter perdido o costume; mas
não perdi. A modéstia impede-me dizer mais.
“A fazenda é vasta e a casa excelente. Não te direi que gosto da vida agrícola; não
gosto, não me dou com ela. Mas viver num recanto como este, a dois passos do mato, a tantas
léguas da Rua do Ouvidor, isso creio que se dá com a minha índole. Consultaremos titia. Eu
não sei o que é amar o tumulto exterior; acho que é dispersar a alma e crestar a flor dos sentimentos. Nasci para monge... e creio que também para déspota, porque estou a planear uma
vida ignorada e deserta, sem consultar tuas preferências. Sou um Cromwell
7
 com tendências
de  frade; ou, por dizer tudo numa só palavra: sou um Lutero
8
... muito inferior.
“Pobre Helena! Já lá vão quatro páginas só a falar de mim. Vejamos o que tens feito.
Andas muito triste? passeias? lês? jogas? tocas? Conta-me a tua vida o mais miudamente que
puderes; conta-me a vida de todos. Não me escondas nada; se, por exemplo, ao abrir um livro
ou tocar uma tecla do piano, pensares em mim, escreve isso mesmo, marcando o dia e até a
hora, se puder ser. E depois dou-te o direito de perguntar onde ficou a minha gravidade, e
responderei que há uma puerilidade séria, e que os extremos se tocam. Quando assim não
seja, a culpa é do céu, que me não deu uma irmã criança; agora é preciso que comecemos pela
primeira fase da vida.
“Deixei muito recomendado ao Mendonça que fosse à nossa casa com freqüência. Não
sei se ele se terá lembrado e cumprido a promessa que me fez. Se não tiver cumprido, hás de
mandar-lhe dizer que eu o detesto e abomino; que ele é o maior traidor que o céu cobre; que
tudo fica acabado entre mim e ele; que a amizade é um culto, etc. Dize o que te parecer e pelo
modo que te é usual.
“Lembro-me de ti a propósito de tudo. Hoje de tarde, por exemplo, o terreiro oferecia
um aspecto bonito e característico. Se ela estivesse aqui, disse comigo, faria um magnífico
desenho. Peguei de um lápis que trouxe, meia folha de papel, e quis reproduzir o panorama.
Escrevi um problema algébrico! Foi um conselho que me deu o lápis: ninguém se meta a
fazer aquilo que ignora. Eu ignorava o que era estar ausente da família; por que motivo me
determinei a tentá-lo?
“Interrompi esta carta para receber o Dr. Fróis, que é o médico de D. Clara; veio ao
meu quarto para me dizer que o estado da doente é perdido, que a morte é certa; mas que a
vida pode prolongar-se ainda por muitos dias. Vê que perspectiva! Estou com raiva de mim
mesmo; esses últimos dias da enferma pesam sobre mim como se fora o punho fechado do
destino. Se a morte é certa, por que viver alguns dias mais? E é vida isso, ou é morrer aos
goles, sem consciência do que se perde nem do que se vai ganhar?
“Está decidido; posso ir daqui a seis dias ou daqui a um mês. Será o que Deus quiser.
Manda-me, entretanto, alguns livros. No meu quarto só achei um  Manual de Medicina
Prática. Manda-me alguma coisa que me faça lembrar o Andaraí. Tira da estante oito ou dez
volumes, à tua escolha. Manda também algum  trabalho de agulha teu; quero mostrá-lo à
cunhada de D. Clara, a quem gabei muito os teus talentos. Se puderes desenhar alguma coisa,
à pressa, o tanque, a varanda ou qualquer outro lugar, faze-o, e manda com o resto. Escreveme longamente; conta-me tudo o que houver interessante; fala-me de  ti,  que é o meio de
consolar minhas saudades, que são imensas, imensas como  este amor que tenho à minha
                                                       
7 — Político inglês (1599-1658), ambicioso e despótico, acabou dominando a Inglaterra durante anos
seguidos, através de atos mais ousados e tirânicos, como, por exemplo, a dissolução do Parlamento,
aquele mesmo que o ajudara a subir.
8 — Martinho Lutero (1483-1546), monge agostiniano  que protestou contra as indulgências, a
autoridade do Papa, a hierarquia,  o celibato dos padres, os votos monásticos, o culto dos santos, o
purgatório e a missa. Deu início à Reforma, que cindiu a Igreja, no decorrer do século XVI. família toda. Vou fazer por voltar breve. Adeus, minha boa Helena; adeus, minha vida, adeus,
ó mais bela e doce de todas as irmãs!
“P. S. — Reli a carta, e fiquei envergonhado do trecho a respeito da vida da doente.
Perdoa-me a ferocidade, e leva-a em conta da solidão.”
CAPÍTULO XVI
Helena leu e releu a carta. Depois ficou silenciosa, a olhar para as folhas da trepadeira,
que do lado de fora viera a subir pela muralha da varanda e a debruçar-se enfim do parapeito
para dentro. A carta ficara aberta sobre os joelhos da moça. Mendonça, a poucos passos,
olhava para esta, sem ousar falar-lhe.
Goethe escreveu um dia que a linha vertical é a lei da inteligência humana. Pode
dizer-se, do mesmo modo, que a linha curva é a lei da graça feminil. Mendonça o sentiu, contemplando o busto de Helena e a casta ondulação da espádua e do seio, cobertos pela cassa
fina do vestido. A moça estava um pouco inclinada. Do lugar em que ficava, Mendonça vialhe o perfil correto e pensativo, a curva mole do braço, e a ponta indiscreta e curiosa do
sapatinho raso que ela trazia.  A atitude convinha à beleza melancólica de Helena. O rapaz
olhava para ela sem movimento nem voz.
A tarde expirava; a cor verde do morro fronteiro ia tomando o aspecto cinzento-escuro
que precede a cor fechada da noite. A própria noite desceu, e um escravo entrou na varanda a
acender as duas lâmpadas que pendiam do teto. Esta circunstância acordou a moça, e bastoulhe voltar um pouco a cabeça para ver o amigo de Estácio a alguns passos de distância.
— Estava aí? perguntou Helena, estremecendo.
— D. Úrsula não voltou, respondeu Mendonça com timidez; não quis interromper a
leitura que a senhora fazia.
— A leitura? A leitura acabou há muito tempo.
— Mas também se lê de cor.
Helena lançou-lhe um olhar suspeitoso.
— Não sei ler de cor, disse ela, erguendo-se e saindo da varanda.
Mendonça ficou aturdido. Que lhe dissera  ele tão grave que a pudesse ofender?
Repetiu as próprias palavras e não lhes achou sentido mau. Certo, porém, de que a molestara,
ali ficou aborrecido de si mesmo, desejoso de lhe explicar tudo, se alguma coisa houvesse
explicável. Após alguns instantes, resolveu entrar também. Entrou; Helena não estava nem na
sala de jantar, nem na do jogo, onde achou D. Úrsula com  o Dr. Matos e o coronel-major.
Dali passou à sala de visitas. Helena não o viu entrar; estava mergulhada numa poltrona com
a cabeça nas mãos. Comovido, deteve-se alguns instantes a contemplá-la; depois caminhou
para ela e falou-lhe.
Helena ergueu a cabeça.
— Perdoe-me, disse ele, se alguma coisa lhe disse que a magoou. Confesso que não
sei o que poderia haver em minhas palavras. Ficou triste por isso?
A moça cravou nele um olhar ainda suspeitoso, e não lhe respondeu logo. Mendonça
adotou o melhor dos alvitres naquela ocasião; indignou-se e recuou para sair. Helena chamouo; ele aproximou-se outra vez, com um ar de tão doce resignação que lisonjearia o mais
levantado orgulho. Helena estendeu-lhe a mão; ele apertou-a e teve ímpetos de a beijar uma e
muitas vezes, triunfando  naquele único instante da hesitação de todos os dias; faltou-lhe
resolução. Helena mostrou-lhe o trecho da carta em que Estácio se referia a ele; falaram dos
ausentes e dos presentes, de todos e de tudo, menos do assunto que exclusivamente preocupava o moço. Ele saiu dali sem haver dito nada de seu coração. Chegando à rua, achou-se
poltrão e ridículo, disse mil nomes feios a si próprio; enfim, prometeu declarar tudo a Helena
no dia seguinte. No dia seguinte, que era domingo, Helena dirigiu-se à capela a ouvir a missa do Padre
Melchior. Acabada a cerimônia, não seguiu para casa, com D. Úrsula, mas foi ter à sacristia,
onde o padre acabava de tirar os paramentos. Melchior, logo que soubera da carta de Estácio,
nessa manhã, pedira a Helena que lha deixasse ver.
— Falam sempre ao coração as letras dos amigos, dissera ele.
Helena deu-lhe a carta, que o padre recebeu com uma expressão antes de curiosidade
que de afeto. Leu-a vagarosamente, como escrutando o sentido e as palavras; e sendo longa a
epístola, longo foi o tempo que ele despendeu em a interpretar. Durante esse tempo, Helena
admirava-lhe a figura austera, a serenidade  religiosa. A sacristia era pequena; duas altas
janelas deixavam entrar a luz, o ar e o aroma das folhas e das flores da chácara. Entre a
cimalha e o telhado algumas  andorinhas haviam fabricado  os ninhos, donde saíam, como
pensamentos de juventude, a adejar ao sol da manhã. Ao pé daquele quadro exterior de
alegria e verdura, a sacristia tinha certo ar melancólico e severo,  que lançava n’alma o
esquecimento das vicissitudes humanas. Helena deixou-se cativar desse sentimento de
abstenção e elevação; se alguma dor ou remorso a pungia, esqueceu-os, por um minuto ao
menos, entre aquelas paredes desataviadas, diante de um padre, entre uma imagem de Jesus e
as obras vivas do Criador.
Lida a carta, Melchior dobrou-a com ar pensativo; depois entregou-a à moça.
— Já respondeu? perguntou ele.
— Já; trouxe-lhe a carta que vou mandar hoje mesmo. Melchior abriu-a e leu; não
gastou menos tempo, ainda que era de menores dimensões. O estilo era afetuoso, mas muito
menos exuberante que o da carta de Estácio. Ela contava-lhe, em suas feições gerais, a vida
que ali passavam, desde que ele partira, as ocupações de cada dia e as distrações da noite.
“Vivemos, dizia a moça, como podem viver  duas criaturas que sabem a afeição que
lhes tem um parente amigo, ausente embora, mas não esquecido, — nem ingrato. O Padre
Melchior, algum dos vizinhos, e o Dr. Mendonça são as nossas visitas habituais. Você sabe o
que vale o padre; é a mais bela alma que Deus mandou ao mundo. Os vizinhos são afáveis,
como sempre. O Dr. Mendonça é verdadeiramente digno da nossa afeição e confiança. Disselhe o que você me escreveu; ele riu, como homem seguro de escapar à punição.
“Pena é que você tenha de se demorar aí tanto tempo; mas, se alguma esperança pode
haver de salvar a doente, damo-nos por bem pagas da demora. É verdade que você não é
médico; mas há aí outra doente, para quem é, não só médico, mas até toda a medicina. Por
que razão me não escreveu Eugênia? Eu não cuidei que essa amiga me esquecesse na véspera
de ser minha cunhada. Se estivéssemos mais perto, ia puxar-lhe as orelhas. Diga-lhe isto; e se
tiver ocasião de emprestar-me os seus dedos, aplique-lhe o castigo, declarando-lhe o delito
cometido e o juiz que a sentenciou.
“O que você diz da vida solitária é muito justo, mas impraticável. Os amigos não nos
iriam ver; e poderíamos nós dispensá-los? Tal é a opinião de titia e a minha. O melhor de tudo
é este meio-termo de Andaraí; nem estamos fora do mundo  nem no meio dele. O ruído
externo pode ter os efeitos de que você fala; mas ele é às vezes preciso para aturdir e distrair o
espírito. Também a solidão tem suas dores, e fundas; também ela abala o coração. Nem um
extremo nem outro.”
A carta continha alguns períodos mais, não muitos; três ou quatro vezes falava em
Eugênia, com tamanha insistência que punha em  relevo o silêncio a tal respeito conservado
por Estácio; falava-lhe da  beleza da noiva, do casamento  próximo, do amor que os faria
felizes, e da ventura que ambos dariam a todos os seus.
Quando o padre acabou de ler a resposta, abriu os braços a Helena; depois abrangeu
com as mãos a cabeça da moça e contemplou-a durante alguns segundos. — Toda a sua alma está nesse escrito, disse ele; vejo aí a reflexão e o afeto. Tanto
melhor! Há contudo uma lacuna: não transmite a seu irmão as minhas saudades; há também
uma excrescência: louva méritos que não possuo. Embora! Mande-a...
— Escreverei duas linhas mais.
— Pois sim. Diga-lhe que se apresse, porque estou velho e posso morrer antes.
— Oh! protestou Helena.
Melchior olhou para ela silenciosamente.
— Crê que Estácio seja feliz? perguntou ele enfim.
— Creio.
— Também eu.
Outro silêncio. O primeiro que o rompeu foi o padre.
— Por que se não casa também? disse ele.
— Eu?
— Decerto. Pode ser que muito breve, talvez.
— Talvez nunca.
Melchior franziu a testa; a  fisionomia, de ordinário meiga, tornou-se severa, como a
consciência dele. O padre tinha uma das mãos de Helena entre as suas; deixou-a
insensivelmente cair. Entre os dois estabeleceu-se um silêncio que os acabrunhava e que não
ousavam romper; como subjugados por um mistério, receava cada um deles que o outro lho
lesse na fronte; instintivamente desviaram os olhos.
Melchior foi o primeiro que voltou a si. A reflexão corrigiu a espontaneidade, e o
padre reassumiu o gesto usual, com essa dissimulação que é um dever, quando a sinceridade é
um perigo.
— Vamos lá, disse ele; ninguém pode decidir o que há de fazer amanhã; Deus escreve
as páginas do nosso destino; nós não fazemos mais que transcrevê-las na terra.
— É verdade! confirmou ela com um gesto de cabeça, e sem erguer os olhos.
— Amanhã, continuou o padre, o acaso, — isso a que os incrédulos chamam acaso, e
que é a deliberação da vontade infinita, — lhe apontará um homem digno da senhora, e seu
coração lhe dirá: é este; e o suspiro desalentado de hoje converter-se-á num olhar de graças ao
céu. Ora, o que eu lhe peço, o que eu desejo, é que se apresse tanto que eu possa casá-los...
— Oh! mas não vai morrer amanhã, interrompeu Helena.
— Estou velho, minha filha; estes cabelos brancos são já neve desse mar polar para
onde navegamos todos. Conto sessenta anos. A morte pode colher-me um dia próximo...
— Vamos almoçar, disse Helena sorrindo.
Saíram da sacristia, atravessaram a capela, e penetraram na chácara. Na ocasião em
que iam transpor a porta da capela, viram Mendonça entrar em casa. Melchior estacou e olhou
para Helena. Esta ia como acabrunhada e absorta. O gesto do padre, quando ela lhe declarou
que não se casaria talvez nunca, ficara-lhe gravado na memória, como um enigma, que talvez
receava decifrar. Poucos minutos eram passados; contudo, ela  pôde refletir, e coligir os
elementos de uma resolução. Detendo-se, com o padre, à porta da capela, viu também entrar
Mendonça. Os olhos da moça e do padre interrogaram-se de novo, mas desta vez nenhum
deles os desviou.
— Vê aquele homem? perguntou Helena. Parece-lhe que seria bom marido?
— Excelente, decerto, disse vivamente Melchior; caráter, educação, sentimentos.
— Tem ainda uma virtude particular: ama-me.
— Sei.
— Ele lho disse?
— Não, mas vê-se. É sabido de todos os que freqüentam esta casa. A probabilidade do
casamento é objeto de comentários, e a opinião geral é que ele se fará dentro de pouco tempo.
Confessou-lhe alguma coisa? — Nada; mas os olhos da mulher amada não são menos sagazes que os dos padres
amigos. Acha que devo confirmar a opinião dos outros?
— Acho; consulte, porém, seu coração.
— Já consultei.
— Neste único instante?
— Nada menos.
— Deveras? disse Melchior, derramando um olhar de paternal ternura no rosto sério
de Helena.
— Não digo que o ame desde já; mas a afeição que ele me tem, refletirá em meu
coração, e eu virei a amá-lo. O que importa saber é que é digno de mim. De todos os que me
pretendessem nenhum lhe seria superior.
— Ainda bem! Contudo, repare que vai contrair uma obrigação perpétua, e que um
contrato destes não pode ser deliberado em poucos instantes.
— Oh! nesse ponto a minha ignorância sabe mais do que a sua teologia. Que são
minutos e que são meses? Paixões de largos anos, chegando ao casamento, acabam muitas
vezes pela separação ou pelo ódio, quando menos pela indiferença. O amor não é mais que
um instrumento de escolha; amar é eleger a criatura que há de ser companheira na vida, não é
afiançar a perpétua felicidade de duas pessoas, porque essa pode esvair-se ou corromper-se.
Que resta à maior parte dos casamentos, logo após os anos de paixão? Uma afeição pacífica, a
estima, a intimidade. Não peço mais ao casamento, nem lhe posso dar mais do que isso.
— Não gosto de tanta reflexão em tão verde idade, replicou benevolamente Melchior;
todavia, encanta-me esse raciocínio que, ao cabo de tudo, pode ser verdadeiro. Mas não me
desdigo; alguns minutos é pouco tempo; reflita ainda vinte e quatro horas.
— Nem um instante mais, insistiu Helena. Minhas reflexões são lentas ou súbitas: ou
cinco minutos ou um ano; escolha.
— Pois reflita cinco minutos, replicou o padre sorrindo.
— Já lá vão quatro; aproveitarei o último para lhe dizer que em nada disto falaria, se
não fossem as qualidades notáveis desse moço; e para acrescentar que a ele me liga certa
simpatia de gênios... é talvez a semente do amor.
Tinham chegado ao primeiro degrau da escada da varanda. Subiram e penetraram na
sala de jantar, onde acharam D. Úrsula e Mendonça, este a percorrer com os olhos um jornal
do dia. O almoço serviu-se imediatamente.
— Padre-mestre, disse D. Úrsula, demorou-se tanto que cuidei... tivesse idéia de me
arrebatar Helena.
— Estive-a ouvindo de confissão, respondeu Melchior.
— E pôde absolvê-la?
— Decerto.
— Mas com grande penitência, não?
— A mais fácil de todas, acudiu Helena, olhando para o padre.
— Oh! então é que os pecados são leves! concluiu D. Úrsula. Não lhe parece?
Estas últimas palavras foram dirigidas a Mendonça, na ocasião em que todos
caminhavam para a mesa. Mendonça não respondeu nada. Contra o costume, falava pouco, —
menos ainda que na véspera e nos dias anteriores. D. Úrsula via a diferença mas não a
compreendia.
— Não quero saber que pecados confessou, disse ela sentando-se; estou certa de que o
maior deles não levaria ninguém ao purgatório.
— Veja o que é uma tia indulgente, observou Helena a Mendonça, sentando-se ao seu
lado.
Preocupado com a conversa que acabava de ter na sacristia e na chácara, Melchior
pouca atenção prestou a princípio ao filho do comerciante. Analisava as circunstâncias do momento e pesava a responsabilidade que lhe podia vir de qualquer resolução que adotasse.
Após um longo diálogo com a consciência, o velho sacerdote inclinou os olhos ao mancebo,
que lhe ficava defronte, ao lado de Helena.  Viu-os conversar. Ela mostrava-se graciosa,
solícita e atenta, como uma esposa amante; ele parecia enamorado da voz e das falas da
donzela; como que um clarão interior lhe desvendara à alma os horizontes infinitos da
esperança. Familiarizado com Helena, tratado por ela com esquisita atenção, era contudo a
primeira vez que ela lhe falava, não como a  um confidente amigo, mas como a um homem
que poderia vir a ser seu esposo. Alguma seriedade, um olhar submisso, uma atenção
continuada, fizeram essa diferença, que antes foi sentida pelo coração do que descoberta pelos
olhos.
No fim do almoço, Melchior dirigiu-se para a sala de visitas, com Helena. Mendonça
acompanhou-os. A resolução do padre estava assentada de raiz; ele aceitava aquele casamento
como um presente do céu. Apenas entrados na sala, travou as mãos de um e outro e lhes disse,
com voz comovida:
— Prometem não zangar-se comigo?
— Por quê? interrogou Mendonça com os olhos.
Helena baixara os seus.
— Prometem?
— Padre-mestre... começou Mendonça sem poder concluir a frase.
O padre olhou silenciosamente para um e outro. Talvez hesitava falar; talvez buscava
o melhor meio de dizer o que tinha no coração. Urgia romper o silêncio; fê-lo com
solenidade:
— Serei duas vezes padre: segundo a natureza e segundo o Evangelho. Quando duas
criaturas se merecem, é servir a Deus emprestar a voz ao coração que não ousa falar. O
senhor ama esta menina; leio-lhe nos olhos o sentimento que o arrasta para ela; são dignos um
do outro. Se é a timidez que lhe fecha os lábios, eu sou a voz da verdade e do amor infinito;
se outro motivo, serei juiz complacente para escutá-lo.
Ouvindo estas palavras, Mendonça ficou aturdido e mudo. Não só a fortuna lhe
chegava às mãos, quando ele menos esperava, mas até escolhera um caminho desusado e
estranho. A realidade confundia-se ali com o sonho. A presença de um terceiro era suficiente
motivo para acanhar os mais resolutos; acrescia a veste sacra do sacerdote, que dava aquilo
um ar de solenidade e consagração. Mendonça recobrou, enfim, o uso dos sentidos; a resposta
única e eloqüente foi estender a mão a Helena, gesto a que a moça correspondeu com
simpleza e naturalidade.
— Não se enganaram meus olhos, disse o padre. Ama-a, e pode dar-lhe a felicidade
que lhe desejo a ela. Também Helena o fará venturoso, não?  Perguntou ele, voltando-se para
a moça.
— Mas é isto um sonho? perguntou enfim Mendonça.
— A vida não é outra coisa, retorquiu o capelão; velho pensamento e velha verdade.
Façamos por que o sonho seja agradável e não árido ou triste. Prometem-me que se farão
felizes?
— Não ambiciono outra coisa, disse o rapaz; será o meu cuidado e a minha glória.
— Seu amor, continuou Melchior, é mais forte que o de Helena; eu consultei-a antes,
e li em seu coração. Elege-o com prazer, embora sem entusiasmo. Não é a paixão cega que a
faz falar; é um sentimento brando e singelo, por isso mesmo  duradouro. A reflexão de um
corrigirá a violência do outro, e os dois sentimentos se completarão pela virtude especial de
cada um.
Esta explicação franca de Melchior teve o condão de ser agradável aos dois. Helena
estimou que ele nem lisonjeasse as ilusões de Mendonça, nem a desse como aceitando
indiferente e estouvada o casamento proposto. Pela sua parte, Mendonça viu nas palavras do padre um indício da sinceridade de Helena, e aceitou o pouco oferecido, com a certeza de
multiplicá-lo. O caráter de Melchior e a veneração que mereciam suas virtudes, eram fianças
de veracidade e davam ao ato singelo que ali se passava, um forte cunho de santidade e
elevação. Não era uma vulgar declaração de amor, sujeita às variações do espírito ou do
interesse, mas verdadeiros esponsais em que a religião era inspiradora e testemunha.
CAPÍTULO XVII
Aquele dia foi marcado no calendário de Mendonça com letras de ouro e cetim; a
noite desceu coroada de murta e rosas.  Ele viveu essas horas  todas num estado de
sonambulismo e êxtase. Tencionava referir tudo à mãe, logo que entrou em casa ao meio-dia;
mas não se atreveu, porque ele mesmo não estava certo se vivia a realidade ou se voava nas
asas de uma quimera. De noite voltou a Andaraí; achou em Helena o mesmo modo afetuoso,
a mesma solicitude e carinho; nenhuma ternura expansiva, nenhuma contemplação namorada;
um meio-termo que o continha a ele próprio, e não era menos aprazível ao coração. A nova
situação era, entretanto, sensível, porque os vigilantes de fora trocaram entre si olhares cheios
de graves descobertas; um deles, o coronel-major, chegou a  proferir uma alusão, que os
interessados fingiram não perceber.
Quando Mendonça chegou à casa nessa noite, ia mais que nunca cheio de comoção e
nadando em plena glória. A cidade, apenas aí entrou, pareceu-lhe transformada por uma vara
mágica; viu-a povoada de seres fantásticos e rutilantes, que iam e vinham do Céu à Terra e da
Terra ao Céu. A cor deste era única entre todas as da palheta do divino cenógrafo. As estrelas,
mais vivas que nunca, pareciam saudá-lo de cima com ventarolas elétricas, ou fazerem-lhe
figas de inveja e despeito. Asas invisíveis lhe roçavam os cabelos, e umas vozes sem boca lhe
falavam ao coração. Os pés como que não pousavam no solo; ia extático e sem consciência de
si. Era aquele o galhofeiro de há pouco? O amor fizera esse milagre mais.  
Um dos teatros estava aberto; comprou  um bilhete e entrou. Não era desejo de
divertir-se ou interessar-se pelo drama, que aliás expirava de parceria com o protagonista; era
necessidade de ver gente, de apalpar a realidade das coisas, tão quimérico se lhe afigurava
tudo o que se passara desde manhã.
Um espectador, o filho do coronel-major, viu-o a alguma distância e foi sentar-se ao
pé dele.
— O senhor que tem melhor  vista, disse o acadêmico, desengane-me; aquela moça
que ali está, naquele camarote, não é a andorinha viajante?
— A andorinha viajante? repetiu Mendonça,  olhando para ele; que quer dizer esse
nome?
— É a alcunha da irmã de Estácio. Será ela que está ali, com uma senhora idosa?
— Mas por que lhe chamam assim?
— Eu sei! Naturalmente porque sai à rua todos os dias. Na verdade, é um passear! Mal
amanhece, lá vai trepada no cavalinho, com o pajem atrás...
— Quem lhe pôs essa alcunha?
— As alcunhas são como as mofinas: não têm autor.
Caíra o pano; Mendonça despediu-se ali mesmo e saiu. Na rua repetiu mentalmente as
palavras do jovem acadêmico. Ao cabo de alguns minutos, sorriu; compreendera que, apenas
suspeitada a sua felicidade, já a inveja lhe deitava na taça  uma gota de veneno. Ergueu os
ombros, resoluto a suportar tranqüilo essa lívida companheira do êxito.
Guiou para casa, onde entrou pouco depois. Helena volvera a ocupá-lo
exclusivamente. Só, na alcova de solteiro, inventariou os acontecimentos daquele dia e achouse morgado da fortuna. Como  precisava conversar com alguém, escreveu uma longa carta a
Estácio, narrando-lhe toda a história do seu coração, as esperanças e a pronta realização delas. A alma derramou-se no papel impetuosa e exuberante. O estilo era irregular, a frase incorreta;
mas havia ali a eloqüência e a sinceridade da paixão. Quando fechou a carta, anteviu o prazer
que ia dar ao amigo, logo que ela lhe chegasse às mãos, levando a notícia de que os vínculos
atados na aula iam apertar-se na família.
“Vem quanto antes, dizia ele ao terminar a missiva; tenho ânsia de abraçar-te e ouvir
de ti mesmo o consentimento que me fará o mais feliz dos homens!”
Quando essa carta chegou a Cantagalo, Estácio voltava de uma pequena excursão que
fizera com o pai de Eugênia. Conheceu a letra do sobrescrito; abriu negligentemente a carta;
leu-a com assombro. A impressão foi tão visível que Camargo lhe  perguntou de que se
tratava.
— Recebo uma notícia que me obriga a partir amanhã, disse ele.
— Negócio grave?
— Grave.
— Ainda assim, nesta ocasião..
— Que tem? D. Clara pode ainda resistir à morte alguns dias; e, posto que a minha
ausência não prejudique nada do fato a que aludo, contudo é mister que me informe e
providencie.
— Algum negócio relativo ao inventário? aventurou Camargo, que nada conhecia
mais grave que o dinheiro.
— Justamente, respondeu maquinalmente Estácio.
Camargo consolou a filha do desgosto que lhe causava a partida do noivo; falou-lhe a
linguagem da razão; disse que havia assuntos práticos, a que os sentimentos tinham de ceder
o passo alguma vez. No dia seguinte de manhã, partiu Estácio na direção da Corte, não sem
prometer que voltaria, se a moléstia ou qualquer outro motivo obrigasse a família a demorarse em Cantagalo.
Ninguém esperava por ele em Andaraí. Entrando na chácara, — era de noite, — viu
Estácio que a sala que ficava no ângulo esquerdo da frente da casa, estava alumiada e tinha
gente. A sala ficava ao rés-do-chão e as janelas estavam abertas. Parou a pouca distância, e
pôde distinguir o coronel-major e o Dr. Matos jogando o gamão; a mulher do advogado
falava a D. Úrsula e Melchior, em um dos  lados; do outro estava  assentada Helena, tendo
Mendonça diante de si.
Estácio deu volta aos fundos da chácara, e  entrou pela varanda.  Os escravos que o
viram chegar, deram sinal da novidade, com vozes de alegria,  que, aliás, não chegaram até
pessoas da sala. Estas só souberam do recém-chegado quando ele assomou à porta. A
satisfação de o ver foi geral e sincera em todos. Estácio distribuiu abraços e apertos de mão.
Melchior, que se deixara ficar de lado, foi o último com quem falou.
— O Dr. Camargo veio? perguntou D. Úrsula ao sobrinho, logo depois que este
cumprimentara a todos.
— Não, respondeu Estácio, a doente não pode escapar, mas ainda a deixei com vida.
— Imagino a impaciência dos herdeiros.
Esta observação filosófica do coronel-major não teve nenhum efeito. Melchior, que a
reprovara interiormente, fez mudar a conversa, informando-se da família de Camargo. Estácio
deu todas as notícias que podiam interessar; depois, falou de alguns incidentes da viagem;
enfim, retirou-se por alguns minutos.
Mendonça acompanhou o amigo, alcançando-o ainda na escada. Subiram juntos e
juntos entraram no quarto.
— Agora que estamos sós, perguntou Mendonça, houve por lá alguma coisa?
— Nada.
— Tanto melhor! Um escravo entrou no quarto, a fim de servir a Estácio; Mendonça, ansioso por lhe
falar de Helena, contentou-se com trocar algumas vagas indicações.
— Recebeste a minha carta? disse ele.
— Recebi.
— Não esperavas por ela, aposto..
— Não.
Como eu não esperava escrevê-la. Estás aborrecido?
— Estou cansado.
— Naturalmente, assentiu Mendonça, abrindo um livro que achou sobre a mesa e
tornando-o a fechar.
O silêncio prolongou-se alguns minutos, durante os quais Mendonça tornou a abrir o
livro, examinou uma espingarda de caça, preparou um cigarro e fumou. O escravo ajudava o
senhor a mudar de roupa. Estácio continuava mortalmente calado; Mendonça falou algumas
vezes, sobre coisas indiferentes, e o tempo não correu, andou com a lentidão que lhe é
natural, quando trata com impacientes. Logo que Estácio se deu por pronto, e o escravo saiu,
Mendonça voltou diretamente ao assunto que o preocupava.
— Estava ansioso por ver-te, disse ele.  Não nos é possível falar agora; não temos
tempo. Mas quero dar-te um abraço, ao menos, um abraço de agradecimento pela felicidade...
— Parece que só esperavas a minha ausência?
— Creio que não. Já antes de seguires, começava a sentir alguma coisa nova, que vim
a descobrir ser paixão violenta.
— Helena ama-te?
Com igual amor, não creio; mas aceita-me; tem-me algum afeto.
— Tratarei de consultá-la.
Mendonça não pôde continuar, porque Estácio descia a escada ao dar-lhe a última
resposta. Mendonça desceu também. Na sala estavam ainda as mesmas pessoas. Perto de uma
janela conversava Helena com o padre. O chá foi logo servido e a conversa tornou-se geral,
ainda que sem grande animação. Melchior falou menos que todos.
Nem por isso foi o primeiro que saiu; foi o último. Na chácara, dirigindo-se ao portão,
ergueu os olhos ao firmamento, não para ver a lua e as estrelas, senão para subir a região mais
alta. O que disse ninguém o soube, mas o anjo das rogativas humanas porventura colheu em
seu regaço os pensamentos do ancião, e os levou aos pés do eterno e casto amor.
CAPÍTULO XVIII
Helena, disse Estácio no dia seguinte, logo que pôde falar a sós à irmã, — sabes por
que vim mais depressa? Foi por tua causa. O Mendonça escreveu-me dizendo haver
alcançado de ti uma promessa de casamento.
— É verdade.
— É verdade?
— Até ao ponto em que a minha vontade tem um limite, que é a sua. Por mim só nada
posso decidir; mas não creio que você se oponha de nenhum modo. Não é certo que deseja a
minha felicidade?
Estavam sentados em um banco de pau, defronte ao grande tanque. Estácio ficou
algum tempo a olhar para a água.
— Não entendo, disse ele enfim.
— Por quê?
— Mais de uma vez me confessaste não sei que paixão violenta, paixão que parecia
conter a tua vida toda. Que, sem embargo de um amor único e forte, uma mulher despose um homem que não é o preferido de seu coração, é caso não vulgar e muita vez justificável. Mas
que este casamento seja para ela felicidade, confesso que não o poderei entender nunca.
— Recusa então o seu consentimento?
— Não recuso; desejo compreender.
— Nada mais simples, retorquiu a moça.
— Ah!
— Falei-lhe de um amor forte, é certo, não extinto naquele tempo, mas totalmente sem
esperança. Que moça não tem dessas fantasias, uma vez ao menos? A fantasia passou. Ou eu
não devo casar nunca, ou posso desposar um homem digno, que me ame. Não casar foi algum
tempo o meu desejo; não o é hoje, desde que você, titia e o Padre Melchior ambicionam verme casada e feliz. Para obter a felicidade, além do casamento, escolhi pessoa que me parece
capaz de dar a paz doméstica e os melhores afetos de seu coração.
— De maneira que te sacrificas a um desejo nosso?
— Quando fosse sacrifício, fá-lo-ia de boa cara; mas não é.
— Não se trata de um sacrifício repugnante e odioso; entretanto, cumpre examinar o
que perdes. Dizes que a fantasia passou; não creio, Helena,  não creio que ela passasse. Tu
amas decerto; amas violentamente alguém; amas sem esperança nem futuro; isto é, levas para
casa de teu marido um coração que te não pertence, um sentimento intruso e inimigo...
Helena quis interrompê-lo.
— Ouve, continuou Estácio. Esse sentimento, se vier a extinguir-se e se for
substituído pela afeição que criares a teu marido, não te fará desventurosa; mas supõe que não
morre esse amor, qual será a tua situação?
— Tudo isso é um castelo no ar, disse Helena sorrindo; eu amei, não amo; ou amo
somente a meu futuro marido.
Estácio abanou a cabeça com ar de incredulidade. Seus olhos pousaram no rosto
plácido da irmã, como tentando  arrancar-lhe uma confissão silenciosa. Os dela, firmes e
tranqüilos, cruzavam o olhar com os dele. Estácio conhecia já o domínio que a moça exercia
sobre si mesma; a tranqüilidade não o convenceu. Assim pensava, assim o disse, sem rebuço.
 — Por que razão negaria eu a verdade? retorquiu Helena. Estácio ergueu os ombros.
— Supondo que você tenha razão, tornou ela, não deverei casar nunca?
— Não digo isso; mas, há dois caminhos para a felicidade, além de Mendonça.
— Não os vejo.
— Esse amor misterioso será realmente sem esperança? Nada há definitivo no mundo,
nem o infortúnio nem a prosperidade. O que a tua imaginação  supõe estar perdido, acha-se
apenas transviado ou oculto ...
— Adivinho o segundo caminho, atalhou Helena; não casando agora, posso vir a amar
um dia, mais do que a Mendonça, algum homem tão digno como ele.
— Parece-te absurdo isso?
— Não, mas é uma loteria: perco um bem certo por outro duvidoso. O jogador não faz
cálculo diferente. Essa felicidade pode não vir; eu contento-me com  a que me cabe agora.
Mendonça ama-me deveras; senti-o desde algum tempo. O Padre Melchior abriu-me os olhos;
aceito o destino que os dois me oferecem. Esta é a razão e a realidade; o mais é ilusão e
fantasia.
Enquanto ela falava, Estácio, que tirara  o chapéu-de-chile, ocupava-se em fazer
circular na copa a fita larga que o cingia. Houve entre ambos grande silêncio. Pela beira do
tanque seguia uma longa carreira de formigas, conduzindo as mais delas trechos de folhas
verdes. Com um galho seco, Estácio distraía-se em perturbar a marcha silenciosa e laboriosa
dos pobres animais. Fugiam todas, umas para  o lado da terra, outras  para o lado da água,
enquanto as restantes apressavam a jornada na direção do domicílio. Helena arrancou-lhe o galho da mão; Estácio pareceu acordar de largas reflexões; ergueu-se, deu alguns passos e
voltou a ela.
— Helena, declarou ele, não creio nada do  que você me diz; você sacrifica-se sem
necessidade e sem glória, não consinto; é meu dever opor-me a semelhante coisa.
Helena ergueu-se também.
— Mendonça começa a ser o fruto proibido, observou ela, sorrindo; é o meio seguro
de o fazer amado.
A moça afastou-se na direção da casa. Estácio viu-a desaparecer por entre as árvores,
e ficou algum tempo entre o banco e o tanque. As formigas, dispersas alguns minutos antes,
tinham agora entrado no primeiro caminho, com a mesma ordem anterior. Viu-as o moço, e
comparou-as às próprias idéias, também necessitadas de que um galho invisível as não
dispersasse e confundisse. No meio de suas reflexões, lembrou-lhe o padre; Estácio
atravessou a chácara, saiu à rua e dirigiu-se à casa de Melchior.
Melchior habitava uma casinha, situada no centro de um jardim diminuto, a algumas
braças da residência de Estácio. Tinha duas salas o prédio, janelas por todos os lados, uma
porta na frente e outra nos fundos. A da frente abria entre duas janelas de venezianas. A sala
de visitas era ao mesmo tempo gabinete de estudo e de trabalho. Simples era a mobília,
nenhuns adornos, uma estante de jacarandá, com livros grossos in-quarto e in-fólio; uma
secretária, duas cadeiras de repouso e pouco mais.
Na ocasião em que Estácio ali entrou, Melchior passeava de um para outro lado, com
um livro aberto nas mãos, algum Tertuliano ou Agostinho, ou qualquer outro da mesma
estatura, porque o padre amava contemplar os grandes espíritos do passado, quando não
encarava os mistérios do futuro. Naquele corpo mediano havia uma águia cativa. Entre as
quatro paredes da casa, limitada a vista pelos arbustos e as flores do jardim, Melchior
olvidava o tempo e eliminava o espaço, vivendo  a vida retrospectiva ou profética, doce e
misteriosa volúpia das almas solitárias. Melchior era um solitário; sem embargo das relações
sociais, que ele cultivava,  amava sobretudo estar separado  dos homens. Nessas horas, que
eram a maior parte do tempo, lia ou meditava, esquecido ou estranho a todas as coisas do seu
século.
Naquela ocasião lia. Vendo assomar à porta o vulto de  Estácio, Melchior fechou o
rosto; contudo, recebeu-o afavelmente.
— Vim interrompê-lo, disse Estácio; mas era preciso.
Melchior depôs o livro sobre a mesa redonda que havia no meio da sala, marcando a
lauda com uma velha estampa. Depois sentaram-se ao pé de uma das janelas laterais. Estácio
não se atreveu a dizer logo o motivo que o levara ali; mas de sua própria hesitação deduziu
Melchior qual era ele.
— Era preciso? repetiu o padre.
— Trata-se de Helena. Sei  que é nosso amigo, confio em seu conselho e discrição.
Como deseja a felicidade de minha família, buscou facilitar o casamento de Helena e
Mendonça.
— Contando com a sua aprovação, explicou o padre.
— Hesito em dá-la.
— Por quê?
Estácio explicou que Helena não tinha indignação ao noivo que se lhe propunha, ao
que Melchior respondeu, referindo singelamente a verdade.
— E certo que o não ama ardentemente, concluiu ele, mas aceita-o, aprecia-o, está a
meio caminho da felicidade que lhe devemos dar.
— Há uma dificuldade, padre-mestre; é que ela ama a outro. Melchior empalideceu; o olhar  escrutador, como o de um juiz, cravou-se imóvel e
afiado no rosto de Estácio. A fronte severa do moço não se alterou, nem seus olhos baixaram
a terra.
— Ama a outro, continuou ele;  paixão violenta, mas sem esperança, e tão real quão
misteriosa. Uma ou duas vezes  aludiu a ela; nada mais lhe pude arrancar. Agora mesmo,
quando lhe falei a tal respeito,  desviou daí o sentido e a conversação. Nada mais sei; sei,
porém, que ama, e casar com outro em tais circunstâncias dá dois inconvenientes igualmente
graves: priva-se da possibilidade de uma união feliz com o homem que interiormente elegeu,
e leva para a casa do marido um sentimento de pesar e de remorso. Parece-lhe isso tolerável?
— Não há remorso, não há pesar onde não há esperança,  redargüiu o padre. Helena
aceita o Mendonça por espontânea vontade; e conheço-a tanto que não acho já possível que
ela recuse.
— Salvo o meu consentimento.
— É claro; mas por que o não daria?
— Porque não desanimo de descobrir a pessoa a quem  Helena entregou o coração.
Talvez ela ache impossível aquilo que é simplesmente difícil. Demais, não esqueçamos que
Helena mal tem dezessete anos.
— Valem por vinte e cinco.
— Pode ser; mas convém não aceitar de coração leve  uma condescendência ou um
capricho, ou qualquer outro motivo oculto que a inspira nesta resolução.
— Que motivo seria?
— Eu sei! Talvez a suspeita de que estimássemos vê-la afastar-se de casa.
— Não a calunie; Helena tem perfeita ciência e consciência dos afetos que a rodeiam e
da estima em que é tida. Suas objeções não valem nada diante da declaração que ela própria
fez. Não compliquemos uma situação simples e definida.
Melchior proferiu estas palavras com voz branda, mas em tom firme; Estácio não se
animou a responder logo. Voltou, porém, ao primeiro argumento; depois, aventurou uma
objeção nova.
— Mendonça é bom coração, disse ele; mas  não possui as qualidades que, em meu
entender, devem distinguir o  marido de Helena. Nunca exercerá sobre ela a influência que
deve ter um marido. Entre os dois inverte-se a pirâmide. Mas isto, ao menos, se destruía uma
das condições do casamento, podia conservar a felicidade doméstica. O perigo maior é outro;
é vir ele a perder a estima da mulher. Nesse caso, que lhe daríamos nós a ela? Um casamento
aparente e um divórcio real.
Não olhava para ele o padre, mas para fora, com uns olhos dolorosos e o gesto
impaciente. Quando ele acabou, fitou-o com resolução; disse-lhe que se tratava de casar
Helena, não com um marido especial, mas com o que ela própria escolhera de sua vontade
livre; casamento que cumpria fazer sem demora. Era certo que, como chefe de família,
Estácio podia opor-se ao  casamento ou marcar-lhe condições; mas nem convinha isso ao
interesse de Helena nem ao próprio interesse da família.
Estácio ergueu-se quando o padre acabou; percorreu a sala, calado e pensativo. No fim
de alguns segundos, o padre foi a ele.
— Vá contar tudo à sua tia, disse: aprove sua irmã; casá-los-ei a todos no mesmo dia.
— Pois bem, disse Estácio, como concluindo um raciocínio interior; consinto em que
Helena se case, mas procuremos outro marido. Mendonça, não; há de ser outro. Vou casar-me
também; receberei todas as semanas; algum rapaz aparecerá que a mereça e de quem ela
venha a gostar seriamente... É a minha última resolução. CAPÍTULO XIX
No momento em que Estácio proferia estas palavras, transpunha Mendonça a porta do
jardim do capelão. Preocupado com a frieza de Estácio, lembrara-lhe falar a Melchior e pedirlhe conselho. Melchior ia responder ao sobrinho de D. Úrsula, quando ouviu rumor de passos
na areia do jardim.
— Aí vem o noivo, disse ele.
Estácio deu dois passos para pegar no chapéu; reconsiderou e foi sentar-se ao pé da
mesa redonda. Havia ali um exemplar das Escrituras. Abriu-as ao acaso; a página acertou ser
um capítulo dos Provérbios; leu este versículo: “Quem quer abrir mão de seu amigo, buscalhe as ocasiões; ele será coberto de opróbrio.” Envergonhado, voltou a folha. Mendonça
entrara na sala. Não contava com Estácio, mas estimou vê-lo ali.
— Venha, disse Melchior; tratávamos justamente do seu casamento.
Estácio lançou ao padre um olhar de exprobração. O padre não o  viu; olhava para
Mendonça, que imediatamente lhe respondeu:
— Não venho cá para outra causa. Uma vez  que a fortuna o fez nosso confidente,
desejo constituí-lo meu conselheiro e diretor.
— Antes de tudo, sou advogado da sua causa, disse Melchior; estava expondo agora
as vantagens dela.
Mendonça olhou fixamente para o amigo, e, depois de curta pausa:
— Rejeitas ou aceitas o noivo? perguntou ele.
Posto entre a espada e a parede, Estácio não soube logo que respondesse; ficou a olhar
para a lauda aberta, receoso de encontrar a vista dos dois. O silêncio era pior que a resposta; e
nem o caso nem as pessoas permitiam tão grande pausa. Estácio fechou de golpe o livro e
ergueu-se.
— Discutia somente as vantagens do casamento, disse ele.
— E qual é a tua opinião?
— Minha opinião é que Helena está ainda muito menina. Mas não é só essa, nem é a
principal; o voto, em todo o caso, é a favor do casamento. A principal razão é o teu próprio
crédito.
— Meu crédito?
— Helena pode vir a amar-te como lhe mereces; a verdade é que não sente ainda hoje
igual paixão à tua; foi o padre-mestre que mo disse. Estima-te, é certo; mas a estima é flor da
razão, e eu creio que a flor do sentimento é muito mais própria no canteiro do matrimônio...
— Há muita flor nesse ramalhete de retórica, interrompeu benevolamente o padre.
Falemos linguagem singela e nua. Não literalmente o que lhe diz este filósofo, prosseguiu ele,
voltando-se para Mendonça; ele gosta de ambos e quer vê-los felizes; próprio zelo que lhe faz
falar assim. Numa palavra, deseja que o senhor a conquiste, depois de campanha formal.
Mendonça respondeu ao capelão com um sorriso pálido, que arrebitou um pouco as
pontas do bigode, recolhendo-se logo medroso e frio. O rosto ficara carregado e pensativo; a
língua de Estácio tocara-lhe o coração. Disposto a aceitar a estima e a de Helena com a
esperança de converter êsse pequeno avultado capital, não lhe ocorrera que, a olhos estranhos,
parecer que o fim exclusivo era a riqueza da moça. Estácio rompera o véu a essa
probabilidade. Uma só palavra desfizera a ilusão de poucos dias.
— Vamos lá, disse o padre, abracem-se como irmãos.
Nenhum deles se mexeu. Melchior sentiu toda a gravidade da situação; viu perdidos
os esforços, desfeita a união assentada, um  abismo cavado entre os dois amigos, incerto o
destino de Helena. Interveio  outra vez com palavras de brandura, que os dois ouviram sem
interromper. Quando acabou: — O Estácio tem razão, disse Mendonça; meu crédito padecerá, desde que alguém se
lembre de dizer que o casamento foi arranjado sem nenhuma preocupação das preferências de
D. Helena. Ela me desobrigará, em troca da palavra que lhe restituo.
A frase brotou-lhe dolorida, mas sem hesitação nem fraqueza. Estácio olhava para ele
e sentia alguma coisa semelhante a um remorso. Uma voz interior parecia dizer-lhe: —
“Sonâmbula, abre os olhos, tem consciência de tuas ações;  teu abraço enforca; teus
escrúpulos fazem-te odioso; tua solicitude é pior do que a cólera.” Viu o mancebo cortejar o
padre; deteve-o pelo braço.
— Onde vais? disse ele.
— Vou aonde me leva o pundonor, disse singelamente Mendonça.
— Pobres rapazes! exclamou o padre. São dois estouvados, nada mais; um quer catar
argumentos onde sua irmã só achou nobre e franca resolução; o outro rompe de coração leve
uma promessa feita em presença de um sacerdote. Estouvados, disse eu? São mais do que
isso: são dois dementes. Ora, como só eu tenho juízo e conseqüente autoridade, digo que nem
um há de sair assim desenganado, nem o outro há de recusar a aquiescência que lhe peço em
nome de seu finado pai.
Estácio estremeceu, Mendonça conservou-se  frio. A arma era rija, mas o golpe
excedia a necessidade. Mendonça não quereria dever a esposa à evocação do nome do
conselheiro: equivalia a um  rapto. Percebeu-o Melchior, quando viu Estácio estender a mão
ao amigo, mão que este recebeu com dignidade e frieza. Contaria Estácio com essa mesma
repulsa do pretendente? O certo é que lhe disse, sem a menor sombra de hesitação:
— Meu zelo foi talvez excessivo; a intenção é boa e pura. Que posso eu desejar senão
ver felizes os meus? Amem-se; será o remate das minhas aspirações. Prometes fazê-la feliz?
— Não prometo nada, disse Mendonça; o casamento é já impossível. Tu abriste-me os
olhos; não te quero mal por isso. Perco muito, é certo, mas não me exponho à língua dos
maus.
Mendonça foi buscar o chapéu e dispôs-se  a sair, não obstante a intervenção de
Melchior, que procurou trazê-lo a sentimentos de reconciliação. Não insistiu o padre; viu no
rosto do mancebo uma resolução digna e firme, que era impossível dobrar naquele momento.
Quando Mendonça lhe estendeu a mão em despedida, ele apertou-lhe com ternura e
esperança. Estácio tentou ainda retê-lo; foi inútil; Mendonça saiu dali sem rancor, mas sem
pesar. O coração sangrava-lhe, a consciência ia contente.
Melchior foi até à porta, a despedir-se de Mendonça. Quando este saiu, ele voltou o
rosto para dentro, cruzou os braços e fitou o sobrinho de D. Úrsula. O moço desviou os olhos.
— Viu? perguntou o padre. Não sei qual seja a sua resolução; mas prometo-lhe que
serei como Maomé,  — Deus me perdoe! — ainda que veja o sol à minha direita e a lua à
minha esquerda, não deixarei de executar o meu desígnio. Vá ter com sua família; deixe-me
alguns instantes com o meu breviário.
Estácio não pôde resistir à intimação do sacerdote; não achou uma palavra para lhe
dizer. Saiu aturdido, desconsolado, colérico.  Na rua e na chácara, ia pensando na cena
daquela última hora, e parecia apenas reconstruir um sonho. Desconhecia-se, apalpava a
inteligência, chamava em seu auxílio todas as forças da realidade; olhava para o chão,
suspeitoso de que ia calcando as nuvens. Quando a razão tornou pé no meio de lembranças
tão desconcertadas, ele viu claramente o resultado de suas ações: perdia um amigo de longos
anos e abdicava a direção da família, pelo menos em relação ao casamento da irmã. Se esta
lhe agradecesse a resistência, Estácio dar-se-ia por bem pago de tudo. Não era em seu favor
que ele conspirara? este pensamento levantou-lhe o ânimo; tivesse a aprovação de Helena,
pouco lhe importaria o resto.
Helena ouviu-lhe a narração fiel do que se passara em casa de Melchior. Ouviu-a
comovida; no fim reprovou tudo o que ele fizera. — Mendonça é já o fruto proibido, concluiu a moça; começo a amá-lo. Se ainda assim
me obrigar a desistir do casamento, adorá-lo-ei.
— Chegamos ao capricho! exclamou ele; é o fundo do coração de todas as mulheres.
Helena sorriu e voltou-lhe as costas. Subiu ao quarto, travou de uma pena e escreveu
um bilhetinho. A tinta secou  primeiro que duas grossas lágrimas caídas no papel; mas as
lágrimas secaram também. Antes de fechar o bilhete, desceu Helena a mostrá-lo ao irmão.
Quando a moça entrou no gabinete, Estácio ia ter com ela. Tinha resolução assentada.
Uma vez que a irmã aceitava de boa feição  o casamento, não havia mais que o aprovar e
celebrar. Encontraram-se na porta; Estácio recuou para dentro.
— Helena, disse ele, faça-se a tua vontade.
— Consente?
Estácio fez um gesto afirmativo.
—  Não basta isso, tornou a moça; Mendonça  não voltará aqui  depois do que se
passou. Peço-lhe a remessa dêste bilhete.
Estácio abriu o bilhete; continha estas  poucas palavras: “Venha hoje a Andaraí; é o
meu coração que o pede e a nossa felicidade que o exige.” Cinco minutos gastou o moço a ler
as duas linhas; leu o que estava escrito e o que não estava. Helena desarmava os escrúpulos
de Mendonça, tirando à futura união qualquer suspeita de interesse. Leu e fechou lentamente
o papel.
— Aprova? perguntou a moça.
— Assim, pois, disse o moço tristemente, a tua felicidade exige que esse homem
venha cá, que te cases com ele, que nos fujas? Não te basta a família, a afeição de nossa tia, a
minha própria afeição? Estes meses de doce intimidade vão ser esquecidos em um só instante,
sacrificados aos pés do primeiro homem que te apraz escolher e seguir? No dia em que
penetraste nesta casa, entrou contigo um raio de luz nova, alguma coisa que nos faltava e que
tu trouxeste contigo; nossa família completou-se; nossos corações receberam um sentimento
último. Pensávamos que isto seria duradouro, e era simplesmente fugaz. Oh! Helena, melhor
fora não ter vindo!
Helena quis responder, a voz  travou-se-lhe na garganta,  e a palavra retrocedeu ao
coração. Apontou para o papel como pedindo-lhe, ainda uma vez, que o enviasse e saiu.
De tarde, apareceu Melchior; ia tranqüilo e resoluto a dar um golpe decisivo. Estácio
rendeu-se, antes que ele falasse.
—  Padre-mestre, disse o moço logo que o viu, a reflexão venceu-me; faça-se a
vontade de todos.
— Fala de coração?
— De coração.
— Pois bem, seja completo, tornou o padre. Sou ministro de uma religião que condena
o orgulho. Não há de ser em curar as feridas de um amigo; vá ter com o seu amigo; traga-o a
esta casa, como irmão.
— Irei amanhã.
— Não; vá hoje mesmo.
A noite caiu logo; Estácio foi dali vestir-se. Não tendo enviado o bilhete de Helena,
meteu-o na algibeira para entregá-lo ele próprio; depois tirou-o e releu-o; tendo-o relido, fez
um gesto para rasgá-lo, conteve-se e perpassou-o ainda uma vez pelos olhos. A mão, à
semelhança de mariposa indiscreta, parecia atraída pela luz; resistiu, resistiu algum tempo;
enfim chegou o bilhete à vela e queimou-o. CAPÍTULO XX
A visita de Estácio não causou nenhum espanto a Mendonça; ele a esperava com a
confiança das índoles ingênuas e avessas ao ódio. Não era crível que um amigo de longos
anos dormisse sobre a injustiça de um minuto; contudo dormiu. Foi na seguinte manhã que
Estácio procurou o pretendente de Helena.
Entrou naturalmente em casa de Mendonça, sem expansão nem secura. A entrevista
foi breve e cordial; houveram-se os dois com  afetuosa dignidade. Estácio explicou os
escrúpulos, declarou-se contente com a aliança. O contentamento podia existir; todavia, a
manifestação foi parca e seca. Houve mais calor e expansão quando ele lhe pediu que desse
vida feliz à irmã.
— Será para mim um eterno remorso, se Helena vier a ser desgraçada, disse ele. Não
tivemos o mesmo berço, vivemos nossa infância debaixo de teto diferente, não aprendemos a
falar pelos lábios da mesma  mãe. Importa pouco; nem por isso lhe quero menos. Meu pai
recomendou-a à nossa família, e ela correspondeu ao sentimento que  ditou essa última
vontade.
Mendonça não respondeu nada; refletira, durante a noite,  nas palavras que ouvira a
Estácio no dia anterior; — palavras que bem podiam ser ditas ou pensadas por outros, talvez
por todos, logo que soubessem do casamento. Helena viria a amá-lo, talvez; mas, desde logo
lhe levava para casa a chave da independência. Mendonça recuou. Quando o Padre Melchior
o soube, não pôde conter um gesto de admiração; mas, se louvou o escrúpulo, não aprovou a
resolução, que vinha derrubar tudo.
— Não tapará nunca a boca aos maus, disse o padre; eles acharão meio de envenenarlhe a generosidade.
— Paciência! tornou o moço, é menor esse perigo. Se casar, dirão que faço uma
operação vantajosa; talvez a família o suponha; talvez ela própria o pense.
Helena teve notícia dos receios do pretendente, e da resolução a que parecia inclinar o
coração. Perguntou-lhe se era verdade. Mendonça afirmou que sim. Ela contemplou-o longamente, sem dizer palavra; travou-lhe das mãos, apertou-as com efusão; ele persistiu.
No desinteresse de Mendonça havia porventura um pouco de faceirice. A moça o
percebeu, nem por isso deixou de crer na sinceridade do rapaz. Tentou dissuadi-lo; e, posto
nada alcançasse nos primeiros minutos, estava certa de que venceria o derradeiro obstáculo.
Teria os olhos mais hábeis e felizes que os lábios do padre. Foi o que ela disse ao capelão.
— Tomo à minha conta efetuar este casamento, continuou Helena.
— Resolvida a tudo?
— A tudo.
— Mas, se ele insistir.
— Se ele insistir, vencê-lo-ei, ou por um modo ou por outro. Uma moça que quer ser
noiva, vale por um exército; eu sou um exército.
— Muito bem! Contudo, sua dignidade...
— Oh! em último caso abro mão da herança.
— Era capaz disso? perguntou Melchior.
— Se era capaz? Desejo-o até, disse a moça com veemência.
E acrescentou em tom mais brando:
— Sobre o homem de minha escolha desejo que não paire a mínima desconfiança.
Tal era a situação, dois dias depois da volta de Estácio. O casamento podia contar-se
feito. Mendonça não resistiu ao desinteresse de Helena. D. Úrsula aprovou tudo com efusão e
amor, nada sabendo das incertezas e contradições dos últimos dias.
Na noite desse dia, Estácio escreveu  para Cantagalo dando notícias suas. Do
casamento de Helena falou pouco, quase nada. Tudo o descontentava; tanto o que ele fizera e dissera, sem proveito, como o desenlace da situação. Não soubera opor-se com eficácia, nem
aplaudir oportunamente.
Posto fosse tarde, o sono teimava em fugir-lhe, e ele velou até muito além da meianoite. Ocupado, sem dúvida, em adormecer organizações menos sensíveis e existências
menos complicadas, o sono fez-lhe apenas uma  curta visita. Pelas cinco horas da manhã,
Estácio acordou e ergueu-se. A manhã estava  fresca; quase toda a  família dormia. Estácio
desceu; o único escravo que  achou levantado preparou-lhe uma xícara de café. Não tendo
ainda chegado os jornais, bebeu-a sem a leitura do costume.
Quem sabe por que fios tênues se prendem muitas vezes os acontecimentos humanos?
Estácio ouviu o som longínquo de um tiro; era algum caçador, talvez; a suposição deu-lhe
idéia de ir caçar, foi buscar a espingarda, proveu-se de pólvora e chumbo, e saiu.
Se a habilidade não era muita, parecia ter ainda diminuído naquela manhã, ou porque
a mão estivesse menos firme, ou porque a vista andasse menos segura. Estácio caminhava
longo tempo sem pensar no fim que o levava; ia absorto, alheio ao lugar e às coisas. Fez
algumas tentativas de caça. Quando cansou de errar, consultou o relógio e viu que não era
cedo. Tinha o braço cansado de suster a espingarda; só então reparou que não trouxera um
pajem consigo. Dispôs-se a voltar. Vendo uma parasita, colheu-a com a intenção de a dar a
Helena, como seu primeiro presente de núpcias. Depois desceu, em caminho para casa.
Vinha descendo, com a espingarda debaixo do braço, os olhos no chão, a passo lento,
apesar de ser tarde. De uma vez que ergueu os olhos, viu um caso estranho, que lhe fez deter
o passo. Um pouco abaixo, saía, de trás de uma casa velha, o pajem de Helena, conduzindo a
mula e a égua. Estácio não soube que pensar daquilo; cedendo ao impulso, que não pôde
dominar, deu um salto por cima da cerca de espinhos, agachou-se e esperou o resto.
O resto não se demorou muito. Assomou à porta da frente a figura de Helena. Depois
de olhar cautelosamente para um e outro lado, saiu e montou a égua; o pajem cavalgou a mula
e os dois desceram a trote.
Estácio sentiu uma nuvem cobrir-lhe os olhos; ao mesmo tempo, apertava o primeiro
objeto que achou debaixo das mãos: era a cerca de espinhos. A dor fê-lo voltar a si; tinha a
mão ensangüentada. Ao longe, cavalgavam Helena e o pajem. Logo que os viu desaparecer,
Estácio saltou de novo à estrada. Sem resolução nem plano, caminhou em direção à casa
donde vira sair a irmã. Era a mesma da bandeirinha azul que Helena cumprimentara de longe,
alguns meses antes, e não esquecera de reproduzir na paisagem que dera ao irmão, no dia dos
anos dele. Estas circunstâncias, antes indiferentes, apareciam-lhe agora como outros tantos
artigos de um libelo.
O prédio parecia ainda mais velho do que a primeira vez que  o vira; a caliça das
paredes e das colunas ia caindo, e  o esqueleto de tijolo estava  a nu, em mais de um lugar.
Alguma erva mofina brotava a  custo junto às paredes, cobrindo com folhas descoloridas o
chão desigual e úmido. Por baixo de uma das janelas havia um banco de pau, gretado pelo
tempo, com as bordas roliças de longo uso. Tudo ali respirava penúria e senilidade.
— Não, dizia Estácio consigo, não é este o asilo de um Romeu de contrabando. Mora
aqui alguma família pobre, que a caridade engenhosa de Helena vem afagar de longe em
longe.
A solução do enigma pareceu-lhe tão natural que o moço resolveu parar a meio da
aventura, e chegou a dar alguns passos para trás. Mas a suspeita é a tênia do espírito; não
perece enquanto lhe resta a cabeça. Estácio sentiu o desejo imperioso de indagar o que aquilo
era, e voltou sobre seus passos. Para entrar ali era necessário um motivo ou pretexto.
Procurou algum; a aventura dera-lhe o melhor de todos.  Olhou para a mão ferida e
ensangüentada, e foi bater à porta. CAPÍTULO XXI
Poucos instantes esperou Estácio. Veio um homem abrir-lhe a porta; era o mesmo que
ele vira ali uma vez. Entre ambos houve meio minuto de silêncio, durante o qual nem Estácio
se lembrou de dizer o que queria, nem o desconhecido de lhe perguntar quem era. Olhavam
um para o outro.
— Que desejava? disse enfim o dono da casa.
— Um favor, respondeu Estácio, mostrando-lhe a mão ferida. Ia a cair há pouco;
procurando amparar-me, numa cerca de espinhos, feri-me, como vê. Podia dar-me um pouco
d’água para lavar este sangue e...
— Pois não, interrompeu o outro. Queira sentar-se aí no banco, ou, se prefere, entrar...
É melhor entrar, concluiu, abrindo-lhe caminho.
Em qualquer outra ocasião, Estácio teria recusado o convite, porque o espetáculo da
pobreza lhe repugnava aos olhos saturados de abastança. Agora, ardia por haver a chave do
enigma. Entrou. O desconhecido abriu uma das janelas para dar mais alguma luz, ofereceu ao
hóspede a melhor cadeira e foi por um instante ao interior.
Estácio pôde então examinar, à pressa, a sala em que se achava. Era pequena e escura.
A parede, pintada a cola já de longa data, tinha em si os sinais do tempo; primitivamente de
uma só cor, a pintura apresentava agora uma variedade triste e desagradável. Aqui o bolor, ali
uma greta, acolá o rasgão produzido por um móvel; cada acidente do tempo ou do uso dava
aquelas quatro paredes o aspecto de um asilo da desgraça. A mobília era pouca, velha,
mesquinha e desigual. Cinco ou seis cadeiras, nem todas sãs,  uma mesa redonda, uma
cômoda e uma marquesa, um aparador com duas mangas de vidro cobrindo castiçais de latão,
sobre a mesa um vaso de louça com flores, e  na parede dois pequenos quadros cobertos de
escumilha encardida, tais eram as alfaias da sala. Só as flores davam ali um ar de vida. Eram
frescas, colhidas de pouco. Atentando nelas, Estácio estremeceu: pareceu-lhe reconhecer uma
acácia plantada em sua chácara. Quando a suspeita germina  na alma, o menor incidente
assume um aspecto decisivo. Estácio sentiu um calafrio.
Voltou o dono da casa, trazendo nas mãos uma bacia, e nos braços uma toalha, cuja
alvura contrastava singularmente com a cor da parede e o aspecto senil da casa. Estácio
ergueu-se.
— Deixe-se estar, disse o desconhecido.
— Estou perfeitamente bem.
— Nesse caso, faça o favor de chegar à janela.
A bacia foi posta na janela; o desconhecido quis lavar ele próprio a mão do hóspede; o
moço não lho consentiu.
— Ao menos, disse o dono da casa, há de consentir que a enxugue. Eu entendo um
pouco disto; infelizmente, não tenho aqui nenhum medicamento caseiro para aplicar.
Estácio aceitou o oferecimento. O dono da casa abriu a toalha e começou
cuidadosamente a operação. O sobrinho de D. Úrsula pôde então examiná-lo à vontade.
Era um homem de trinta e seis a trinta e oito anos, forte de membros, alto e bem
proporcionado. Uma cabeleira espessa e comprida, de um castanho escuro, descia-lhe da
cabeça até quase tocar nos ombros. Os olhos eram grandes, e geralmente quietos, mas riam,
quando sorriam os lábios, animando-se então de um brilho intenso,  ainda que passageiro.
Havia naquela cabeça, — salvo as suíças, — certo ar de tenor italiano. O pescoço, cheio e
forte, surgia dentre dois ombros largos, e,  pela abertura da camisa, que um lenço atava
frouxamente na raiz do colo, podia Estácio ver-lhe a alva cor e a rija musculatura. Vestia
pobre, mas limpamente, um rodaque branco, calça de ganga  e colete de brim pardo. O
vestuário, disparatado e mesquinho, não diminuía a beleza máscula  da pessoa; acusava
somente a penúria de meios. Quando acabou de lavar os arranhões de Estácio, — eram pouco mais do que isso, —
propôs-se a ir buscar um pedaço de pano. Estácio, com a outra mão e os dentes, rasgou o
lenço que trazia, e o dono da casa completou o sumário curativo.
— Pronto! disse ele. Se tiver em casa algum medicamento apropriado, será
conveniente aplicá-lo. Toda a cautela é pouca; convém evitar alguma inflamação.
—  Obrigado, respondeu Estácio. Realmente,  vim dar-lhe uma maçada, sem grande
necessidade, talvez.
— Por quê?
— Podia fazer isto mesmo quando chegasse à casa.
— Mora perto?
— Um pedaço abaixo.
— Foi conveniente curar já; nenhuma precaução é inútil em coisa nenhuma da vida.
— Máxima de prudência, observou Estácio, procurando sorrir.
—  Que só aprende tarde quem a não traz  na massa do sangue, replicou o outro,
suspirando.
A não ser indiscreto ou falador, era difícil levar a conversa por diante. O favor estava
feito, o assunto esgotado. Restava agradecer, despedir-se e sair. Estácio, entretanto, tinha
necessidade de mais tempo; queria arrancar àquele homem uma palavra menos indiferente à
situação, ou conhecer-lhe, se fosse possível, o caráter e os costumes. Para isso havia, talvez,
um meio; contrafazer-se, empregar maneiras estranhas às suas, apegar-se à ocasião por todas
as bordas. Estácio determinou-se a isso,  confiando o resto ao acaso. Voltou à cadeira e
sentou-se.
— Consente que descanse um pouco? Estou fatigadíssimo.
— Não pelo que caçou, disse o desconhecido, rindo.
— Volto com as mãos abanando. Nunca fui bom caçador, e tenho, não obstante, a
mania de atirar aos pássaros.
— Não é esse o defeito de muita outra gente, em mais elevada ordem das coisas? Eu
fui vítima desse defeito mortal.
— Ah! exclamou Estácio com certa entonação interrogativa.
O dono da casa sorriu levemente, mas não  pareceu molestá-lo a curiosidade do
hóspede; talvez mesmo não desejasse outra causa.
— É verdade, disse ele; devo a minha atual penúria ao erro de teimar em coisas
estranhas à minha índole e aptidão, estranhas e totalmente opostas.
— Há de perdoar-me, interrompeu Estácio com um ar de familiaridade indiscreta, que
lhe não era habitual; eu creio que um homem forte, moço e inteligente não tem o direito de
cair na penúria.
 — Sua observação,  disse o dono da casa  sorrindo, traz o sabor do chocolate que o
senhor bebeu naturalmente esta manhã antes de sair para a caça. Presumo que é rico. Na
abastança é impossível compreender as lutas  da miséria, e a máxima de que todo homem
pode, com esforço, chegar ao mesmo brilhante  resultado, há de sempre parecer uma grande
verdade à pessoa que estiver trinchando um peru... Pois não é assim; há exceções. Nas coisas
deste mundo não é tão livre o homem, como supõe, e uma coisa, a que uns chamam mau
fado, outros concurso de circunstâncias, e que nós batizamos com o genuíno nome brasileiro
de caiporismo, impede a alguns ver o fruto de  seus mais hercúleos esforços. César e sua
fortuna! toda a sabedoria humana está contida nestas quatro palavras.
O desconhecido proferiu isto com o tom  mais simples e natural do mundo, e uma
facilidade de elocução que Estácio mal lhe podia supor. Era aquilo uma comédia ou a
expressão da verdade? Estácio olhou fixamente para ele, como a querer penetrá-lo. Ao
mesmo tempo, ouviu-se um rumor na parte da casa que ficava além da sala; Estácio voltou a cabeça com um gesto de desconfiança. A porta abriu-se e apareceu uma preta velha trazendo
nas mãos uma bandeja. A criada estacou a meio caminho.
— Põe em cima da mesa, disse o dono da casa. É o meu almoço, continuou ele,
voltando-se para Estácio; almoço parco e higiênico. Ousarei oferecer-lho?
Estácio fez um gesto negativo, e dispôs-se a sair.
— Já! Não é meu intento despedi-lo; almoçarei conversando. Vivo tão solitário que a
presença de alguma pessoa é para mim um encanto...
Estácio aceitou sem dificuldade o convite;  sentou-se defronte do homem, ao pé da
mesa, e assistiu ao almoço, que não podia ser mais escasso: um pão, duas hóstias de queijo
duro e uma chávena de café. O que mais valia era o contentamento do dono da casa e a
franqueza com que ostentava aos olhos de um estranho a simplicidade de seus hábitos.
—  Não é refeição de príncipe, dizia ele,  mas satisfaz todas as ambições de um
estômago sem esperança. Aqui é a sala de visitas e a sala de jantar; a cozinha é contígua;
além, ficam duas braças de quintal; para lá do quintal... o infinito da indiferença humana.
E depois de um silêncio:
— Não digo bem, emendou ele; nem sempre acho indiferença. Meu trabalho não me
dá mais do que escasso pão de cada dia; mas tenho algumas alegrias, no meio de minha
perpétua quaresma; e essas recebo-as de mãos caridosas e puras.
Dizendo isto, o desconhecido esgotou a chávena, e reclinou-se sobre a cadeira, fitando
em cheio a cara do hóspede. Estácio refletiu nas últimas palavras, e um raio de esperança veio
rasgar-lhe a nuvem que lhe entenebrecia a fronte. Os dois homens pareciam interrogar-se. O
filho do conselheiro sacou do bolso um charuto e ofereceu-o ao dono da casa.
— Obrigado, disse este.
— Não fuma?
— Já fumei; hoje economizo esse vício. Nem por isso faço mais lentamente a
digestão.
— Mora só?
— Só.
— Não tem família?
— Nenhuma.
— Há de achar-me singularmente indiscreto...
— Não; suponho que a sua curiosidade tem uma causa honrosa e legítima.
— Acertou; o senhor inspira-me simpatia. E se eu conhecesse alguma dessas mãos
puras, que lhe emendam as lacunas da sorte.
— Dar-me-ia, por intermédio delas, o seu óbolo?
— Se o não ofendesse...
— Não ofendia, mas eu recusava, se soubesse; peço-lhe desde que o não faça às
escondidas...
Estácio fez um gesto de assentimento.
 — Não é orgulho, continuou o dono da casa; é um resto de pudor que a pobreza me
não tirou ainda. Fiz-lhe agora um obséquio, um simples dever de vizinho... Pareceria que o
senhor mo pagava com um benefício. O benefício seria menos espontâneo de sua parte e
menos agradável para mim. Agradável não exprime, talvez, toda a minha idéia; mas o senhor
facilmente compreenderá o que quero dizer.
— Entendeu-me mal; o meu óbolo não seria na espécie a que o senhor alude. Tenho
amigos e alguma influência; poderia arranjar-lhe melhor posição.
O desconhecido refletiu um instante.
— Aceitaria? perguntou Estácio.
— Estou pensando na maneira  de recusar. Ouro é o que  ouro vale. Eu vexar-me-ia
eternamente de dever qualquer melhora da sorte ao cumprimento de um dever de caridade. — Já me não admira a vida pobre que tem tido.
— Excessivo escrúpulo, talvez?...
— Escrúpulo desarrazoado.
— Antes demais que de menos.
— Nem de menos nem demais; mas, só a porção justa.
— A porção varia, conforme as necessidades morais de cada um. Mas eu mesmo, que
lhe estou a falar, nem sempre tive esta virtude intratável; e porventura alguma vez fraqueei...
A fronte do desconhecido tornou-se sombria; a voz morreu-lhe nos lábios, e os olhos
caíram naquela atonia que exprime uma grande concentração de espírito. Era ocasião de
interrogá-lo diretamente ou sair. Estácio preferiu o último alvitre.
— Não o quero demorar mais, disse o dono  da casa, quando o mancebo proferiu as
palavras de despedida. Já é tarde, e sua mãe talvez esteja ansiosa.
Estácio limitou-se a olhar para ele em cheio, dizendo:
— Se alguma vez resolver dar de mão a seus escrúpulos, mande procurar-me. Minha
casa é conhecida em todo Andaraí pela casa do Conselheiro Vale...
O desconhecido, em cujo rosto Estácio esperou ver um  sinal qualquer de abalo ou
surpresa, conservou-se impassível e risonho. Curvou-se em sinal de agradecimento; e como
Estácio hesitasse em estender-lhe a mão, ele meteu as suas nas algibeiras.
— Talvez nos vejamos ainda, disse Estácio já fora da porta.
— Sim?
— Passeio algumas vezes por estes lados.
— Nem sempre estou em casa; mas, ainda estando, conservo fechadas as portas.
Quando quiser descansar, bata; a casa é pobre, mas será amiga.
Estácio afastou-se rapidamente. Eram dez horas, e o sol aquecia; ele não deu pelo sol
nem pelo tempo. Semelhante ao transviado florentino, achava-se no meio de uma selva
escura, a igual distância da estrada reta, —  diritta via — e da fatal porta, onde temia ser
despojado de todas as esperanças.  Nada sabia, nada conjeturava; eram tudo novas dúvidas e
oscilações. O homem com quem acabava de conversar, parecia-lhe sincero; a pobreza era
autêntica, sensível a nota de melancolia que, por vezes, lhe afrouxava a palavra. Mas, onde
cessava ali a realidade e começava a aparência? Vinha de tratar com um infeliz ou um
hipócrita? Estácio rememorou todos os incidentes da manhã, e todas as palavras do
desconhecido; eram outros tantos pontos de interrogação suspeitos e irrespondíveis. Repelia
com horror a idéia do mal: custava-lhe a aceitar a idéia do bem; e a pior das angústias, — a
dúvida, — continha-o todo e agitava-o em suas mãos felinas. O sol e a agitação alastravamlhe a testa de pérolas de suor; ao ofego da  marcha apressada juntava-se o da violenta
comoção. Estácio não via os objetos que ia costeando, nem as pessoas que lhe passavam ao
lado; ia cego e surdo, até que o choque da realidade o despertasse.
Chegou enfim à casa. Ao portão estava  um escravo, a quem deu a espingarda. A
demora causara alguma inquietação à família;  logo que as duas senhoras souberam de seu
regresso, correram a recebê-lo, ficando D. Úrsula a uma janela, e descendo Helena até meio
caminho. A aparição súbita da moça, a alegria e o amor, que  pareciam impeli-la, a perfeita
ingenuidade do gesto, tudo produziu nele a necessária reação, —  reação de um instante, —
mas salutar, porque a crise era demasiado violenta. Estácio apertou as mãos da moça com
energia. Um fluido sutil percorreu as fibras de Helena, e aquele rápido instante teve toda a
doçura de uma reconciliação.
Estácio contava recolher-se ao quarto para pôr em ordem as idéias, compará-las,
extrair uma conjetura, pelo menos, e verificá-la ou desmenti-la. Mas, nem a tia nem a irmã
haviam almoçado, à espera dele, e forçoso lhe foi acompanhá-las na satisfação de uma
necessidade que não sentia. Durante o almoço, Estácio procurou observar Helena; trabalho
ocioso, porque o rosto da moça, se alguma coisa traía nessa ocasião, eram as alegrias ine-fáveis da família. Ela própria servia por suas mãos a Estácio e D. Úrsula; inexcedível na
atenção com que sabia repartir-se entre os convivas, não o era menos no carinho, e na graça.
Nos olhos parecia estampada a ignorância do mal, e o sorriso era o das almas cândidas.
Poder-se-ia atribuir àquela criatura de dezessete anos corrupção e hipocrisia? Estácio
envergonhou-se de tal idéia; sentiu as vertigens do remorso.
Mas o almoço acabou, dispersou-se a companhia, o mancebo recolheu-se ao gabinete,
e, desfeita a visão, voltou a suspeita. Estácio buscou dominar a situação. Ele não ia ao ponto
de supor em Helena a completa perversão dos sentimentos; o limite do mal, que se lhe podia
atribuir, era o de uma  culposa leviandade. Se,  em vez de um ato leviano, fosse aquilo um
simples estratagema de caridade, Helena não mereceria menos uma advertência; mas a pureza
da intenção salvava tudo, e a paz da família, não menos que o seu decoro, se restabeleceria
inteira. Estácio examinou um por um todos os indícios de culpabilidade e de inocência;
buscou sinceramente os elementos de prova;  não esqueceu um só argumento de indução.
Nesse trabalho despendeu longo  tempo, sem resultado apreciável, pela razão de que, se a
sentença era difícil de formular, o juiz era incompetente para decidir; entre a dignidade e a
afeição balouçava incerto.
Quase à hora do jantar, Estácio, que não saíra uma só vez do gabinete, chegou a uma
das janelas, e viu atravessar a chácara a mais humilde figura daquele enigma, humilde e
importante ao mesmo tempo:  o pajem. O pajem apareceu-lhe como uma idéia nova; até
aquele instante não cogitara  nele uma só vez. Era o confidente e o cúmplice. Ao vê-lo,
recordou-se de que Helena lhe pedira uma vez a liberdade daquele escravo. A ameaça rugiulhe no coração; mas a cólera cedeu à angústia, e ele sentiu na face alguma coisa semelhante a
uma lágrima.
Nesse momento duas mãos lhe taparam os olhos.
CAPÍTULO XXII
Não era preciso grande esforço para adivinhar a dona das mãos. Estácio, com as suas,
afastou as mãos de Helena,  segurando-lhe os pulsos de modo que lhe arrancou um leve
gemido. Voltando-se, deu com os olhos na irmã, que lhe disse em tom de gracioso reproche:
—  Você é muito mau! Pagou-me a carícia  com um apertão. Deixe estar que nunca
mais cairei em outra. Vim vê-lo, porque você hoje não se lembrou ainda de dar à gente um ar
de sua graça... Doeu-me! continuou ela olhando para os pulsos. Mas... tenho os dedos
molhados; seria...você estaria...que é? que foi?
Estácio, que ouviu o discurso da irmã, com o rosto desfeito e o olhar ansioso, não lhe
respondeu às últimas interrogações, e continuou  a olhar para ela, como a querer ler na
fisionomia da moça a explicação do enigma que o atordoava. Helena ainda insistiu, aterrada e
aflita. Indo pegar-lhe nas mãos, Estácio desviou o corpo, dirigiu-se à parede, despendurou o
desenho que Helena lhe dera no dia de seus anos, e aproximou-se da moça.
— Que é? repetiu esta admirada.
A única resposta de Estácio foi estender o dedo sobre a misteriosa casa reproduzida na
paisagem. Helena olhou alternadamente para o desenho e para  o irmão. A expressão
interrogativa e imperiosa deste fê-la atenta no ponto indicado. Súbito empalideceu; os lábios
tremeram-lhe como a murmurar alguma coisa, mas a alma falou tão baixo que a palavra não
chegou à boca. Durou aquilo poucos instantes. A angústia lia-se no rosto dos dois; a moça,
para ocultar a sua, cobriu os olhos com as mãos. O gesto era eloqüente; Estácio lançou para
longe de si o quadro, com um movimento de cólera. Helena atirou-se para o corredor.
D. Úrsula aguardava os sobrinhos para jantar. Demorando-se estes, dirigiu-se ela
própria ao gabinete de Estácio. A porta estava aberta; D. Úrsula entrou e deu com ele, sentado
numa poltrona, com o lenço na cara, como a soluçar. A tia correu com a velocidade que lhe permitiam os anos. Estácio não a ouviu entrar; só deu por ela quando as mãos da boa senhora
lhe arrancaram as suas dos olhos, O assombro de D. Úrsula foi  indescritível, sobretudo
quando Estácio, erguendo-se, atirou-se-lhe aos braços, exclamando:
— Que fatalidade!
— Mas. .. que é?. . . explica-te.
Estácio enxugou as faces molhadas do longo e silencioso pranto, com o gesto decidido
de um homem que se envergonha de um ato de debilidade.  A explosão desabafara-lhe o
espírito; podia enfim ser homem, e era preciso que o fosse. D. Úrsula pediu e ordenou que lhe
confiasse a causa da inexplicável aflição em que viera achá-lo. Estácio recusou dizê-la.
— Saberá tudo amanhã ou logo. Agora só poderia dar-lhe um enigma, e eu sei o que
ele me há custado. Algumas horas mais, e precisarei de seu conselho e apoio.
D. Úrsula resignou-se à demora. Quando chegou à sala de jantar, achou um recado de
Helena; mandava-lhe dizer que se sentira repentinamente incomodada e que a dispensasse
naquela tarde e noite. Dona Úrsula suspeitou logo que o recado de Helena tivesse relação com
a aflição de Estácio, e correu ao quarto da sobrinha. Achou-a meio inclinada sobre a cama,
com o rosto na almofada, e o corpo tranqüilo e como morto. Ao sentir os passos de D. Úrsula,
ergueu a cabeça. A palidez era grande e profundo o abatimento; mas não houvera lágrimas. A
dor, se a houve, e houve, parecia ter-se petrificado. O que restava ainda vivo na figura da
moça, eram os olhos, que não perderam o fulgor natural. Ela ergueu-os a medo, e abraçou a
tia com um olhar de súplica e de amor.  D. Úrsula travou-lhe das mãos, encarou-a
silenciosamente, e murmurou:
— Conta-me tudo.
— Saberá depois! suspirou a moça.
— Não tens confiança em tua tia?
Helena ergueu-se e lançou-se-lhe nos braços; duas lágrimas rebentaram-lhe dos olhos,
e foram as primeiras que eles verteram naquela meia hora. Depois beijou-lhe as mãos com
ternura:
— Pode receber estes beijos, disse ela, os anjos não os têm mais puros.
Foram as últimas palavras que D. Úrsula pôde arrancar-lhe; a moça recolheu-se ao
silêncio em que ela a encontrou. D. Úrsula saiu; e foi dali ter com Estácio. O sobrinho
encaminhava-se para a sala de jantar.
— Vamos para a mesa, disse ele, não convém que os escravos saibam de tais crises.
D. Úrsula referiu o estado em que achara Helena e as palavras que trocara com ela.
Estácio ouviu-a sem nenhuma expressão de simpatia. O jantar foi um simulacro; era um meio
de iludir a perspicácia dos escravos, que aliás não caíram naquele embuste. Eles conheceram
perfeitamente que algum acontecimento oculto trazia suspensos e concentrados os espíritos.
As iguarias voltavam quase intactas; as palavras eram trocadas com esforço entre a sinhá
velha e o senhor moço. A causa daquilo era, com certeza, nhanhã Helena.
Estácio deu ordem para que a todas as pessoas estranhas se declarasse estar ausente a
família. A única exceção era o Padre Melchior. A esse escreveu pedindo-lhe que os fosse ver.
— Não posso esperar até amanhã, disse D. Úrsula; se tens de revelar alguma coisa a
um estranho, por que o não fazes a mim primeiro? Dize-me o que há. Não posso ver padecer
Helena; quero consolá-la e animá-la.
— O que tenho para dizer é longo e triste, retorquiu Estácio; mas, se deseja sabê-lo
desde já, peço-lhe ao menos que espere a presença do Padre Melchior. Eu não poderia dizer
duas vezes as mesmas coisas; seria revolver o punhal na ferida.
A curiosidade de D. Úrsula cresceu com  estas meias palavras  do sobrinho; mas era
forçoso esperar, e esperou. Foi dali ao quarto  de Helena. Como a porta estivesse fechada,
espreitou pela fechadura. Helena escrevia. Esta nova circunstância veio complicar as
impressões de D. Úrsula. — Helena está encerrada no quarto, e escreve, disse ela ao sobrinho.
— Naturalmente, respondeu este, com sequidão.
O Padre Melchior não se demorou em acudir ao chamado de Estácio. O bilhete era
instante e a letra febril. Algum acontecimento grave devia ter-se dado. A reflexão do padre
era justa, como sabemos; ele o reconheceu desde logo, não só no aspecto lúgubre da família,
como na ânsia com que era esperado. Os três recolheram-se a uma das salas interiores.
— Helena? perguntou Melchior.
— Vamos tratar dela, respondeu Estácio.
Referir o que se passara naquela fatal manhã era mais fácil de planear que de executar.
No momento de expor a situação e as circunstâncias dela, Estácio sentiu que a língua rebelde
não obedecia à intenção. Achava-se num tribunal doméstico, e o que até então fora conflito
interior entre a afeição e a dignidade, cumpria agora reduzi-lo às proporções de um libelo
claro, seco e decidido. Inocente ou culpada, Helena aparecia-lhe naquele momento como uma
recordação das horas felizes, — doce recordação que os sucessos presentes ou futuros podiam
somente tornar mais saudosa, mas não destruiriam nunca,  porque é esse o misterioso
privilégio do passado. Reagiu, entretanto, sobre  si mesmo; e, ainda que a custo, referiu
minuciosa e sinceramente o que se passara desde aquela manhã.
Não fora talhado para tão melindrosas revelações o coração de D. Úrsula. Desde o
princípio da conversação sentiu o atordoamento que dão os grandes golpes. Esperava,
decerto, um grande infortúnio de Helena, um episódio da família anterior, alguma coisa que
desafiasse a compaixão, sem diminuir o sentimento da estima. Acontecia justamente o
contrário; a estima era impossível e a compaixão tornava-se apenas provável.
— Mas não! é impossível! exclamou ela daí a pouco, logo que a razão, obscurecida
pelo abalo, pôde readquirir alguma luz... não!  eu a vi há pouco; senti-lhe as lágrimas na
minha face, ouvi-lhe palavras que só a inocência pode proferir. E, além disso, seu
procedimento irrepreensível, um ano quase de convivência sem mácula, a elevação de seus
sentimentos... não posso crer que tudo isso... Não! pobre Helena! Vamos chamá-la, ela explicará tudo. Interroguemos o Vicente.
Um gesto dos dois homens mostrou que nenhum deles julgava digno este último
recurso para conhecer a verdade.
D. Úrsula caíra em prostração, recordava suas apreensões do primeiro dia, e recuava
com horror à idéia de ter acertado. Defronte dela, Estácio ocupava uma poltrona rasa, em
cujos braços fincava os cotovelos, apoiando  nas mãos a cabeça ardente e abatida. A alma
ruminava a dor.
Um só dos três vingava a dignidade da situação. O Padre Melchior não sentira menor
assombro que os dois parentes de Helena, nem padeceu menos profundo golpe; mas reergueuse de um e outro; pôde vencer-se e conservar a  razão clara, fria e penetrante. Entre os dois
corações ulcerados e sem força, compreendeu Melchior que lhe cabia a principal ação, e não
recuou ante a responsabilidade que daí poderia deduzir. Viu de um lance a extensão possível
do mal, a desunião da família, os desesperos da ocasião, os ódios do dia seguinte, as
amarguras indeléveis, e, talvez, as indeléveis saudades; mas nem este quadro o aterrou, nem
ele o aceitou sem exame. Melchior não condenava nem absolvia; esperava. Ele pertencia ao
número dessas virtudes singelas para as quais o vício é uma rara exceção; natureza sincera e
franca, era-lhe difícil crer na hipocrisia. Enquanto Estácio prosseguia calado e pensativo, e D.
Úrsula, ora sentada, ora de pé, intercalava  o silêncio com exclamações de dor, Melchior
observava-os e refletia também consigo. Enfim, proferiu estas palavras de animação:
— Sossegue, D. Úrsula; a verdade há de aparecer, e não estamos certos de que seja o
que nos parece. Em todo o caso, não antecipemos a aflição. Seria padecer duas vezes. Há
tempo de chorar à larga.
Melchior levantou-se: — Convém sacudir o abatimento, continuou, dirigindo-se a Estácio; é a hora da ação e
do vigor. Sobretudo, é necessário não boquejar de semelhante assunto por agora; daria azo às
vozes estranhas e seus naturais comentários. Eu tomarei nesta colisão o lugar que me
compete, se mo não contestam...
— Oh! exclamou Estácio.
— ...Mas, desejo que desde já se compenetrem bem de que, se a dignidade pede uma
coisa, a caridade pede outra, e que o dever estrito é conciliá-las. Nada de ódios; perdão ou
esquecimento.
— Mas, padre-mestre, que lhe parece? perguntou D. Úrsula com ansiedade.
— D. Úrsula, disse o padre, é preciso agora que a razão fale e trabalhe; o sentimento
deve retrair-se e esperar. Examinarei o caso, e aconselharei o necessário remédio. Talvez
estejamos a debater-nos no vácuo; quem sabe? trata-se de um equívoco, de uma aparência.
— Oh! ela confessou tudo! interrompeu Estácio. Vi-lhe a expressão da culpa nos
olhos. Mas, enfim, estou pronto para tudo, continuou ele erguendo-se. Não foi o senhor um
dos melhores amigos de meu pai? Não o é ainda nosso? Ajude-nos, aconselhe-nos; faremos o
que lhe parecer melhor. Na situação em que  nos achamos, nenhum de nós tem o espírito
bastante senhor de si para colher os elementos da verdade, apurá-la e resolver. Esse papel é
seu.
Vieram trazer a Estácio uma carta. Era do Dr. Camargo, anunciando-lhe que a
madrinha de Eugênia falecera, e que ele no prazo de alguns dias estaria na Corte. Era o pior
momento para semelhante vinda; Estácio não pôde reprimir um gesto de desgosto. O padre,
dizendo-lhe o mancebo de que tratava a carta, observou que nenhum  inconveniente podia
haver no regresso de Camargo, uma vez que, sem demora, ficasse liquidado o assunto que os
afligia.
— D. Úrsula, continuou ele, deixe-nos agora sós alguns instantes; vá tranqüila, confie
em Deus, e não faça suspeitar a ninguém o que se passa nesta casa.
D. Úrsula obedeceu. Logo que ela saiu, Melchior fechou a porta. Estácio sentou-se de
novo, disposto a ouvir o capelão. Este deu alguns passos entre a porta e uma das janelas. Ia
anoitecendo; Estácio acendeu um  candelabro. Melchior  sentou-se ao pé dele, sem lhe falar
nem lhe voltar sequer os olhos. Meditava ou lutava consigo mesmo; a fronte pesada e
merencória traduzia a agitação interior. Já não era a inalterável placidez, reflexo de uma
consciência religiosa e pura. Se a consciência era a mesma, não o era o coração, a braços com
uma crise nova. Após dez minutos de profundo silêncio entre ambos, o padre falou.
CAPÍTULO XXIII
— És forte? perguntou o padre.
— Sou.
— Crês em Deus?
Estácio estremeceu e olhou para o ancião, sem responder. Melchior insistiu:
— Crês?
— Essa pergunta...
— É menos ociosa do que parece. Não basta supor que se crê; nem basta crer à ligeira,
como na existência de uma região obscura da Ásia, onde nunca se pretende pôr os pés. O
Deus de que te falo, não é só essa sublime necessidade do espírito, que apenas contenta
alguns filósofos; falo-te do Deus criador e remunerador, do Deus que lê no fundo de nossas
consciências, que nos deu a vida, que nos há de dar a morte, e, além da morte, o prêmio ou o
castigo. Crês?
— Creio. — Pois bem, tu transgrediste a lei divina, como a lei humana, sem o saber. Teu
coração é um grande inconsciente; agita-se, murmura, rebela-se, vaga à feição de um instinto
mal-expresso e mal compreendido. O mal persegue-te, tenta-te, envolve-te em seus liames
dourados e ocultos; tu não o sentes, não o vês; terás horror de ti mesmo, quando deres com
ele de rosto. Deus que te lê,  sabe perfeitamente que entre teu coração e tua consciência há
como um véu espesso que os separa, que impede esse acordo gerador do delito.
— Mas que é, padre-mestre?
Melchior inclinou-se e encarou o moço. Os olhos, fitos nele, eram como um espelho
polido e frio, destinado a reproduzir a imagem do que lhe ia dizer.
— Estácio, disse Melchior pausadamente, tu amas tua irmã.
O gesto mesclado de horror, assombro e  remorso com que Estácio ouvira aquela
palavra, mostrou ao padre, não só que ele estava de posse da verdade, mas também que
acabava de a revelar ao mancebo. O que a consciência deste ignorava, sabia-o o coração, e só
lho disse naquela hora solene. A consciência, depois de tatear nas trevas, recuou apavorada,
como afastando de si o clarão súbito que acendera nela a palavra do  sacerdote. Estácio não
respondeu nada; não podia responder nada. Com que vocábulo e em que língua humana
exprimiria ele a comoção nova e terrível que lhe abalara a alma toda? que fio pudera atar-lhe
as idéias rotas e dispersas? Nem falou, nem se atreveu a erguer os olhos; ficou como estúpido
e morto. Melchior contemplou-o alguns minutos, silencioso e compassivo. Os olhos, que
eram de águia para os mistérios da vida, eram de pomba para os grandes infortúnios. Abaixo
da cabeça máscula, havia um coração feminino.
A mudez de Estácio cessou enfim; o corpo agitou-se; o lábio articulou algumas frases
desconcertadas. Vago era o sentido delas; podia concluir-se que ele não cria na revelação de
Melchior, que o suposto sentimento era tão absurdo e desnatural que só a maus instintos devia
ser atribuído. Melchior ouviu-o, sorriu com satisfação. Não era aquilo mesmo um protesto de
consciência honrada?
— Maus instintos, não, respondeu Melchior; um desvio da lei social e religiosa, mas
desvio inconsciente. Entra em teu coração, Estácio; revolve-lhe os mais íntimos recantos, e lá
acharás esse gérmen funesto; lança-o fora  de ti, que é o preceito  do Eterno Mestre. Não o
sentiste nunca; a tentação usa essa tática serpentina e dolosa; é insinuante como a calúnia, e
pertinaz como a suspeita. Mas eu sou a verdade que afirma, e a caridade que consola. Digo-te,
não que pecaste, mas que ficaste à beira do pecado, e estendo-te a mão para que recues do
abismo.
— Padre-mestre! murmurou Estácio, cujo coração recebia a influência da palavra de
Melchior, a um tempo severa e meiga.
— Não fales, continuou o padre; negá-lo é mentir; confessá-lo é ocioso. Como nasceu
em teu coração semelhante sentimento? Quis a fortuna que entre vocês dois não houvesse a
imagem da infância e a comunhão dos primeiros anos; que, em plena mocidade, passassem,
do total desconhecimento um do outro, para a intimidade de todos os dias. Esta foi a raiz do
mal. Helena apareceu-te mulher, com todas as seduções próprias da mulher, e mais ainda com
as de seu próprio espírito, porque a natureza e a educação acordaram em a fazer original e
superior. Não sentiste a transformação lenta que se operou em ti, nem podias compreendê-la.,
São Paulo o disse: para os corações limpos, todas as coisas são limpas. Vias a afeição
legítima naquilo que era já afeição espúria; daí vieram os zelos, a suspicácia, um egoísmo
exigente, cujo resultado seria subtrair a alma de Helena a todas as alegrias da terra,
unicamente para o fim de a contemplares sozinho, como um avaro.
Ouvindo a palavra do padre, Estácio soletrava o próprio coração e lia claramente o que
até então era para ele como um livro fechado. A situação tornava-se, entretanto, por demais
aflitiva, profunda a vergonha, intenso o remorso. Estácio ergueu-se: erguendo-se, deu com os olhos no retrato do conselheiro que, na penumbra em que ficava, parecia olhar para o filho e
interrogá-lo. Esta circunstância desorientou o moço:
— Não, padre-mestre! exclamou ele deixando-se cair na cadeira. É impossível! isto
que me está dizendo é um sonho mau, é um funesto equívoco; é impossível; juro-lhe que é
impossível. É certo que a amo... que a amava, com sentimentos de irmão; mas esquecer-me,
aninhar em minha alma tão odioso afeto... oh! era impossível!
Melchior erguera-se. Após meia dúzia de passos, aproximou-se de Estácio, sobre cuja
cabeça estendeu a mão direita, enquanto com a outra lhe erguia a barba, obrigando-o a olhar
para ele.
— Digo-te que tens uma raiz de má erva no coração; esta é a cruel verdade. Há no
homem uma ligação de sentimentos, às vezes inexplicável. Produtos de climas opostos aí se
alternam ou se confundem... Mas queres saber o resto?
— O resto?
— Ouve, continuou o padre,  sentando-se. A planta ruim  bracejou um ramo para o
coração virgem e casto de Helena, e o mesmo  sentimento os ligou em seus fios invisíveis.
Nem tu o vias, nem ela; mas eu vi, eu fui o triste espectador dessa violenta e miserável
situação. São irmãos e amam-se. A poesia trágica pode fazer do assunto uma ação teatral; mas
o que a Moral e a Religião reprovam, não deve achar guarida na alma de um homem honesto
e cristão.
— Impossível! impossível! exclamou Estácio. Mas, dado que assim fosse, por que
acumular à dificuldade presente o horror de semelhante revelação?
— Porque a revelação explica a dificuldade. Helena não saberá que ama, mas ama.
Ora, um amor clandestino, de parceria com esse outro amor incestuoso, embora inconsciente,
provaria da parte de Helena uma perversão que ela não pode ter, e que, em tal idade, faria
dela um monstro. Será Helena esse monstro? Se o fosse, eu desesperaria da natureza humana.
Não! essa casa, onde a viste entrar, é com certeza asilo de miséria: o que ela aí vai levar é a
esmola e a compaixão.
Um raio de esperança alumiou a fronte de Estácio. O raciocínio do padre era exato, e
por mais perigosa que fosse a  situação revelada por ele, já agora não se podia desejar outra
coisa; a dignidade da família ficava intacta. Estácio refletiu largo tempo no que acabava de
ouvir. Mas a esperança foi curta, embora a necessidade dela fosse grande.
— Helena continua recolhida? perguntou o padre.
Estácio fez um leve sinal afirmativo.
— Falar-lhe-ei amanhã; por  hoje convém não dizer palavra nem deixar transpirar
coisa nenhuma.
Dizendo isto, Melchior recolheu-se ao silêncio, como se refletisse ainda alguma coisa.
Estácio erguera-se e entrara a passear lentamente. De quando em quando, apertava a cabeça
entre as mãos; tantas comoções bastavam para atordoar mais forte espírito. O mistério o
cercava de todos os lados. Ele ia até à janela, daí até à porta, intercalando as reflexões
interiores com sacudimentos nervosos do braço ou da cabeça. A intervalos, olhava a furto e
de través para o capelão, como o criminoso  olha para a consciência; não podia evitar o
sentimento de terror, e ao mesmo tempo de respeito, que lhe  infundia aquele  investigador
exato e profundo de seus sentimentos mais recônditos e inacessíveis. Ruminava o que o padre
lhe dissera; cada minuto lhe ia tornando mais clara a verdade revelada, e o que era obscuro
fizera-se-lhe enfim transparente. É assim que a luz de um astro, acesa desde séculos, chega
finalmente a ferir a retina de nossos olhos mortais.
Uma vez, interrompendo os passos, ergueu os olhos para o retrato do conselheiro. Não
os retirou aterrado; cravou-os com ar de reproche e de amargura, em que o padre reparou, e
que o fez sorrir tristemente. O olhar do filho pedia contas ao pai. — Paz aos mortos! observou Melchior. Os  atos de seu pai já não pertencem à
jurisdição deste mundo.
Melchior proferiu estas palavras já de pé.
— O Dr. Camargo, disse ele mudando de tom, deve chegar um dia destes, segundo
anuncia. Há alguma razão para demorar o casamento?
— Nenhuma.
— Convém realizá-lo imediatamente?
— Imediatamente.
Melchior caminhou para a porta. Ia dar volta à chave e deteve-se.
— Antes de nos separarmos, disse ele, desejo a promessa de que não falarás a Helena
antes de amanhã.
— Prometo.
O padre refletiu um instante; Estácio pareceu adivinhá-lo.
— Quer ainda outra promessa, perguntou ele. Quer que a evite de todos os modos?
— Sim; que a considere como pessoa totalmente estranha.
— Poderia ser de outra maneira? observou  melancolicamente Estácio. Os sucessos
destes dias são, por enquanto ao menos, uma barreira entre ela e sua família. Demais, eu seria
destituído de todo o senso moral...
— Juras?
— Juro.
Melchior desabrochou a camisa, e aventou um crucifixo de marfim, que lhe pendia de
uma fita preta, ao pescoço.
— Este, disse ele com voz singela, é a  efígie do teu Deus. Tão puro exemplo de
castidade não viram os séculos nem antes nem depois que ele desceu à terra. Jura o que me
prometes.
— Padre-mestre, retorquiu Estácio; minha palavra era bastante. Mas, se é preciso
afirmação mais solene, eu a darei tal qual me pede.
Estácio inclinou a cabeça sobre o crucifixo e beijou-o respeitosamente; depois beijou a
mão ao padre. Melchior abençoou-o e saiu.
Saindo do gabinete de Estácio, dirigiu-se para a sala de costura, onde achou D. Úrsula
um pouco menos agitada.
— Falou a Helena? perguntou ela, dirigindo-se ao padre.
— Ainda não; sei que não quer sair do quarto; deixemos passar a primeira comoção.
Amanhã virei saber tudo. Por hoje é preciso que a senhora sossegue.
— Oh! estou sossegada! Não perdi a confiança.
D. Úrsula proferiu estas  palavras com tamanha serenidade e tão profunda convicção
que fortaleceu o espírito do próprio Melchior,  aliás não inclinado a crer no mal. O ancião
deteve-se alguns instantes a contemplar o rosto plácido de D. Úrsula, a admirar a força secreta
que a tornava surda ao clamor da realidade, — pelo menos, da realidade aparente.
Contemplou-a silencioso, e desceu à chácara.
CAPÍTULO XXIV
A noite era escura. Calcando a terra e a areia das largas calhes da chácara, Melchior,
em sua imaginação, refloria  o passado, nem sempre  feliz, mas geralmente quieto. Mais de
uma vez buscara dissipar a sombra pesarosa que alguns erros do conselheiro acumularam na
fronte da consorte. Haveria naquela casa uma geração de dores, destinadas a abater o orgulho
da riqueza com o irremediável espetáculo da debilidade humana?
“Não, dizia ele consigo mesmo. A verdade é que tudo se encadeia e desenvolve
logicamente. Jesus o disse: não se colhem figos dos abrolhos. A vida sensual do marido produziu o infortúnio calado e profundo daquela  senhora, que se foi em pleno meio-dia; o
fruto há de ser tão amargo como a árvore; tem o sabor travado de remorsos.”
Neste ponto chegava ao portão. Aí deteve-se um instante. O passo cauteloso e tímido
de alguém fê-lo voltar a cabeça. Um vulto, cujo rosto não via, tão escuro como a noite, ali
estava e lhe tocava respeitosamente as abas da sobrecasaca. Era o pajem de Helena.
— Seu padre, disse este, diga-me por favor o que aconteceu em casa. Vejo todos
tristes; nhanhã Helena não aparece; fechou-se no quarto... Me perdoe a confiança. O que foi
que aconteceu?
— Nada, respondeu Melchior.
— Oh! é impossível! Alguma coisa há por força. Seu padre não tem confiança em seu
escravo. Nhanhã Helena está doente?
— Sossega; não há nada.
— Hum! gemeu incredulamente o pajem. Há alguma coisa que o escravo não pode
saber; mas também o escravo  pode saber alguma coisa que  os brancos tenham vontade de
ouvir...
Melchior reprimiu uma exclamação. A noite não lhe permitia examinar o rosto do
escravo, mas a voz era dolente e sincera. A idéia de interrogá-lo passou pela mente do padre,
mas não fez mais do que passar; ele a rejeitou logo, como a rejeitara algumas horas antes.
Melchior preferia a linha reta; não quisera empregar um meio tortuoso. Iria pedir a Helena a
solução das dificuldades. Entretanto, o pajem, como interpretasse de modo afirmativo o
silêncio do sacerdote, continuou:
— Nhanhã Helena é uma santa. Se alguém a acusa, acusa o bom procedimento dela.
Eu lhe direi tudo...
Melchior ia recusar, mas  um incidente interrompeu a  palavra do pajem, contra a
vontade deste, e talvez contra o desejo de Melchior. Ouviram-se passos; era um escravo que
vinha fechar o portão.
— Vem gente, disse Vicente; amanhã...
O pajem tateou nas trevas em procura da mão do padre;  achou-a, enfim, beijou-a e
afastou-se. Melchior seguiu para casa, abalado com a meia revelação que acabava de ouvir.
Outro qualquer podia duvidar um instante da sinceridade do escravo; podia supor que o ato
dele era menos espontâneo do que parecia; enfim, que a própria Helena sugerira aquele meio
de transviar a expectação e congraçar os sentimentos. A interpretação era verossímil; mas o
padre não cogitou de tal coisa. A ele era principalmente aplicável a máxima apostólica: para
os corações limpos, todas as coisas são limpas.
A seguinte aurora alumiou um céu puro de nuvens. Estácio acordou com ela, depois
de uma noite mal dormida. Nunca a manhã lhe  pareceu mais rumorosa e jovial; nunca o ar
apresentara tão fina transparência nem a folhagem tão lustrosa cor. Da janela a que se
encostara, via as flores de todos os matizes, quebrando a monotonia da verdura, e enviandolhe, a ele, uma nuvem invisível de aromas; aspecto de festa e ironia  da natureza. Estácio
achava-se ali como um saimento em horas de carnaval.
Almoçou sozinho; D. Úrsula estava com  Helena. Logo depois  do almoço, recebeu
uma carta de Mendonça, que, tendo ido na véspera a Andaraí  recebera a resposta dada a
todos, e mandava saber se havia moléstia em casa. Estácio respondeu afirmativamente,
acrescentando que, posto não se tratasse de coisa grave, só o esperava dois dias depois. A
resposta podia ser mais circunspecta; no estado em que ele se achava, pareceu-lhe excelente.
Pela volta do meio-dia, chegou Melchior. Na sala de visitas achou D. Úrsula, que o
espreitava de uma das janelas.
— Helena? perguntou ele ansioso. — Já hoje desceu, respondeu D. Úrsula. Está mais tranqüila. Não lhe perguntei nada,
mas dizendo-lhe que o senhor viria falar-lhe, mostrou-se ansiosa por vê-lo, e pediu-me até
que o mandasse chamar.
Seguiram os dois até à saleta que ficava ao pé da sala de jantar. Helena estava sentada,
com a cabeça caída sobre as costas da cadeira, e os olhos metade cerrados. Logo que o padre
entrou, Helena abriu os olhos e ergueu-se.  Vivo e passageiro rubor coloriu-lhe as faces
pálidas da vigília e da aflição. Ergueu-se e deu dois passos para o padre, que lhe apertou as
mãos entre as suas.
— Imprudente! murmurou Melchior.
Helena sorriu, um sorriso pálido e tão passageiro como a cor que lhe tingira o rosto. D.
Úrsula dispôs-se a ir chamar Estácio, que estava no andar de cima. Apenas a viu sair, Helena
segurou em uma das mãos do padre.
— Queria vê-lo! disse ela. Não tenho ânimo de falar a ninguém mais, de dizer tudo...
— E inútil; tudo sei, interrompeu Melchior sorrindo. O Vicente foi hoje de manhã à
minha casa; foi de movimento próprio; relatou-me quanto sabia; disse-me que esse homem é
seu irmão; que a senhora o ia ver, a ocultas, não podendo ou não querendo apresentá-lo em
casa de seus parentes. O escrúpulo era excessivo, e o ato leviano. Por que motivo dar
aparência incorreta a um sentimento natural? Teria poupado muita aflição e muita lágrima, a
si e aos seus, se tomasse antes o caminho direito, que é sempre o melhor.
Helena ouviu estas palavras  do padre com a alma debruçada dos olhos. Não parecia
sequer respirar. Quando ele acabou, perguntou sôfrega:
— Com que intento lhe falou ele?
— Como mais puro de todos; desconfiou que a senhora padecia e por isso veio contarme tudo.
Helena cruzou os dedos e ergueu os olhos. Melchior não a quis interromper nessa
ascensão mental ao céu; limitou-se a contemplá-la. A beleza de Helena nunca lhe parecera
mais tocante do que nessa atitude implorativa.
— Orei a Deus, disse ela, descendo as  mãos, porque infundiu aí no corpo vil do
escravo tão nobre espírito de  dedicação. Delatou-me para restituir-me a estima da família.
Aquilo que ninguém lhe arrancaria do coração, tirou-o ele mesmo no dia em que viu em
perigo o meu nome e a paz de meu espírito. Infelizmente, mentiu.
Melchior empalideceu.
— Mentiu sem o saber, continuou a moça. Disse o que supunha ser verdade, o que eu
lhe dei como tal. Não é meu irmão esse homem.
Melchior inclinou-se para a moça e pegando-lhe nos pulsos, disse imperiosamente:
 — Então quem é? Seu silêncio é uma delação; não tem direito de hesitar.
— Não hesito, replicou Helena; em tais situações, uma criatura, como eu, caminha
direito a um rochedo ou a um abismo; despedaça-se ou some-se. Não há escolha. Este papel,
— continuou, tirando da algibeira uma carta, — este papel lhe dirá tudo; leia e refira tudo a
Estácio e a D. Úrsula. Não tenho ânimo de os encarar nesta ocasião.
Melchior, atordoado, fez um leve sinal de cabeça.
— Lido esse papel, estão rotos os vínculos que me prendem a esta casa. A culpa do
que me acontece, não é minha, é de outros;  aceitarei contudo as conseqüências. Poderei
contar ao menos com a sua bênção?
A resposta do padre foi pousar-lhe um beijo na fronte,  beijo de absolvição ou de
demência, que ela lhe pagou com muitos na destra enrugada e trêmula de comoção. Helena
precipitou-se depois para o corredor, deixando o padre só, com a carta nas mãos, sem ousar
abri-la, receoso dos males que iam dali sair, sem certeza ao menos de que ficaria no fundo a
esperança. Ia abri-la, e hesitou se o devia fazer na ausência de Estácio e D. Úrsula; venceu o
escrúpulo e leu. D. Úrsula, que entrou na ocasião em que ele fechava a carta, recuou aterrada.
Melchior estava pálido como um defunto. Antes que nenhum deles falasse, entrou Estácio na
saleta. Melchior dirigiu-se a ele e entregou a carta. Leu-a Estácio e dizia assim:
“Minha boa filha. Sei pelo Vicente que alguma coisa aí há que te aflige. Presumo
adivinhar o que é. O Estácio esteve comigo, logo depois que daqui saíste a última vez. Entrou
desconfiado, e deu como razão ou pretexto a necessidade de curar algumas feridas feitas na
mão. Talvez ele próprio as fizesse para entrar aqui em casa. Interrogou-me; respondi
conforme pedia o caso. Supondo que  ele soubesse de tuas visitas, não lhe ocultei a minha
pobreza; era o meio de atribuí-las a um sentimento de caridade. A virtude serviu assim de
capa a impulsos da natureza. Não é isso em grande parte o teor da  vida humana? Fiquei,
entretanto, inquieto; talvez  lhe não arrancasse o espinho do  coração. Pelo que me disse o
Vicente, receio que assim acontecesse. Conta-me o que há, pobre filha do coração; não me
escondas nada. Em todo caso, procede com cautela. Não provoques nenhum rompimento. Se
for preciso, deixa de vir aqui algumas semanas ou meses. Contentar-me-ia a idéia de saber
que vives em paz e feliz. Abençôo-te, Helena, com quanta efusão pode haver no peito do mais
venturoso dos pais, a quem a fortuna, tirando tudo, não tirou o gosto de se sentir amado por ti.
Adeus. Escreve-me. — Salvador.
“P. S.  Recebi o teu bilhete. Pelo amor de Deus, não faças nada; não saias daí; seria
um escândalo.”
Estácio não compreendeu desde logo o que acabava de ler. A verdade parecia
inverossímil, O primeiro movimento foi sair dali e ir ter com Helena. Melchior deteve-o a
tempo.
— Não precipitemos nada, disse ele. Sossegue primeiro.
Estácio deixou-se cair numa cadeira. Melchior comunicou o conteúdo da carta a D.
Úrsula, cujo pasmo foi ainda mais profundo que o do sobrinho, porque ela não soltou uma
palavra, não fez um gesto; ficou a olhar estupidamente para o papel. Houve então entre
aqueles três personagens dez minutos de mortal silêncio. D. Úrsula não pensava; olhava para
a carta, logo depois para o sobrinho e o padre, como a esperar uma conclusão que seu próprio
espírito não podia deduzir dos acontecimentos. Estácio ficara desorientado; em vão procurava
um fio de dedução entre as idéias; a revelação nova era uma complicação mais. Se a carta era
sincera, como explicar a declaração testamentária de seu pai? Se o não era, como explicar a
audácia de semelhante invenção? Ele não podia discernir o que era favorável a Helena, nem
ousava afirmar o que lhe era adverso.
No meio daquela família, arriscada a dispersar-se, Melchior considerava a
superioridade da morte sobre alguns lances terríveis da vida. Se o óbito de Helena tomara o
lugar da carta, a dor seria violenta, mas o irremediável desfecho e  o consolo da Religião
teriam contribuído para sarar a alma dos que ficassem e converter o desespero de alguns dias
na saudade da vida inteira. Em vez disto, estava ele, talvez, diante de um destino aniquilado;
via um abismo possível entre corações que a vontade de um morto vinculara. Qualquer que
fosse a veracidade da carta, o resultado era talvez esse.
Melchior foi dali ter com Helena, para alcançar mais detida explicação do que acabava
de ler. Ela ergueu-se quando o viu, e pareceu  reviver ao contemplar o gesto benévolo com
que ele lhe falou. Um longo suspiro de alívio rompeu-lhe o coração: os braços caíram sobre
os ombros do padre, em cujo seio escondeu o rosto e repousou enfim, — um minuto — das
dores que a afligiam.
— Perdoaram-me? disse ela.
— Hão de perdoar; conte-me tudo.
— Oh! não posso, não sei; sei que é meu pai.
O capelão não insistiu; voltou aos outros  dois, a quem achou na posição em que os
deixara. Interrogaram-no com os olhos. — Nada, disse ele. O coração dela não possui nesta ocasião a necessária força para
responder a quanto se lhe devia perguntar;  demais não saberá  tudo. Temos a primeira
confissão da verdade...
— Da verdade? interrompeu melancolicamente Estácio. Quem sabe se é verdade o que
lemos nesse papel?
— É, deve ser. Faltam-nos, é certo, os fundamentos da asseveração; mas eu incumbome de ir buscá-los.
— Iremos ambos.
D. Úrsula quis dissuadir o sobrinho de ir à casa do homem, causa dos desastres da
família, não tanto porque lhe parecia que entre Estácio e  ele nenhuma relação convinha
estabelecer, mas sobretudo porque ela precisava de alguém  que a acompanhasse em tão
graves circunstâncias. Melchior inclinou-se ao alvitre de D. Úrsula.
— Irei eu só, disse ele; depois conduzi-lo-ei até cá, se for preciso.
— Não posso esperar, insistiu Estácio; preciso falar a esse homem, ouvi-lo, ler-lhe a
verdade ou o embuste nas linhas do rosto. Talvez o decoro da família exigisse outra coisa;
mas, padre-mestre, meu coração goteja sangue...
Era impossível dissuadi-lo: Melchior tratou  somente de o moderar. De resto, a crise
era violenta; cumpria resolvê-la sem demora nem hesitação. O padre animou D. Úrsula, e saiu
acompanhado de Estácio, cujo coração, convalescido do primeiro abalo, deixava as regiões da
dúvida para entrar na atmosfera da verdade, — pelo menos da esperança. Quaisquer que
fossem as conseqüências da nova revelação, vinha esta como um bálsamo, após tão dolorosas
comoções; era um rasgão azul no céu tempestuoso daqueles dias. Ia ele pensando assim, —
ou antes sentindo, — porque o pensamento não ousava regê-lo, desde que a vida inteira do
moço se lhe concentrara no coração.
Chegando à frente da casa, Estácio desviou os olhos; custava-lhe encará-la, mas
venceu-se. Houve demora em abrir a porta; abriu-se esta enfim, e a figura do dono da casa
apareceu aos dois. Vendo-os, empalideceu um  pouco, mas um sorriso procurou disfarçar a
impressão. Estácio foi direito ao fim.
— Suponho que se lembra de mim? disse ele.
— Perfeitamente.
— Sabe que motivo nos traz à sua casa?
— Não, senhor.
— Confessa a autoria desta carta?
Salvador estremeceu; depois respondeu com um gesto afirmativo.
— Pretende que Helena é sua  filha, disse o moço depois  de um instante. Confirma
verbalmente o que escreveu?
— Helena é minha filha.
Melchior interveio:
— Há um ano, falecendo, o meu velho amigo Conselheiro Vale reconheceu Helena,
por uma cláusula testamentária; recomendava à família que a tratasse com afeto e carinho e
designava o colégio em que ela estava sendo educada. O fato do reconhecimento e as
circunstâncias que apontou, dão toda a veracidade à palavra do morto. Que prova apresenta o
senhor em contrário a ela?
— Nenhuma, disse Salvador; não tenho prova de nenhuma natureza.
— Na falta de provas, prosseguiu o capelão, poderia dizer-nos como supor da parte do
conselheiro uma falsificação, tratando-se de disposição tão grave como essa de introduzir
uma pessoa estranha na família?
Salvador sorriu amargamente.
— Suponha, disse ele, que eu havia iludido a confiança do conselheiro, e que ele
acreditava ser pai de Helena. — Era isso?
— Não era. Na posição em que nos achamos, já não há lugar para meias palavras.
Força é referir tudo. Dez minutos apenas.
Os três sentaram-se. Melchior olhava  para o dono da casa com a persistência e a
curiosidade naturais da ocasião. Salvador esteve alguns instantes calado; enfim, voltou-se
para o capelão.
— Estimo, disse ele, que o Sr. padre viesse; sua caridade temperará a legítima
indignação deste moço; e eu farei as declarações indispensáveis na presença das duas pessoas
a quem mais amo, abaixo de Helena.
— Queira falar, disse secamente Estácio.
CAPÍTULO XXV
— A  mãe de Helena, disse Salvador, cuja beleza foi a causa, a um tempo, da sua má e
boa fortuna, era filha de um nobre lavrador  do Rio Grande do Sul,  onde também nasci.
Apaixonamo-nos um pelo outro. Meu pai opôs-se ao casamento; tinha alguns bens, mandarame estudar, queria ver-me em posição brilhante. Ângela podia ser obstáculo à minha carreira,
dizia ele. Opôs-se, e eu resisti; raptei-a; fomos viver na campanha oriental, donde passamos a
Montevidéu, e mais tarde ao Rio de Janeiro. Tinha vinte anos quando deixei a casa paterna;
possuía alguns estudos, poucos, meia dúzia de patações, muito amor e muita esperança. Era
de sobra para a minha idade, mas insuficiente para o meu futuro. A lua-de-mel foi desde logo
uma noite de privações e trabalhos. Minha vida começou a ser um mosaico de profissões;
aqui onde me vêem, fui mascate, agente  do foro, guarda-livros, lavrador, operário,
estalajadeiro, escrevente de cartório; algumas semanas vivi de tirar cópias de peças e papéis
para teatro. Trabalhava com energia, mas a fortuna não correspondia à constância, e o melhor
dos anos gastei-o em luta áspera e desigual. Uma compensação havia, a mais doce de todas:
era o amor e o contentamento de Ângela, a igualdade do ânimo com que ela encarava todas as
vicissitudes. Pouco tempo depois da nossa fuga, havia outra compensação mais: era Helena.
Essa menina nasceu em um dos momentos mais tristes da minha vida. Os primeiros caldos da
mãe foram obtidos por favor de uma mulher da vizinhança. Mas nasceu em boa hora, e foi um
laço mais que nos prendeu um ao outro. A presença de um ente novo, sangue do meu sangue,
fez-me redobrar de energia. Trabalhava com alma, lutava resoluto contra todas as forças
adversas, certo de encontrar à  noite a solicitude da mãe e as ingênuas carícias da filha. Os
senhores não são pais;  não podem avaliar a força que possui o sorriso de uma filha para
dissolver todas as tristezas acumuladas na fronte de um homem. Muita vez, quando o trabalho
me tomava parte da noite, e eu, apesar de robusto, me sentia cansado, erguia-me, ia ao berço
de Helena, contemplava-a um instante e parecia cobrar forças novas. Se o próprio berço era
obra de minhas mãos! Fabriquei-o de alguns sarrafos de  pinho velho; obra grosseira e
sublime; servia a adormecer metade da minha felicidade na terra.
Salvador interrompeu-se comovido.
— Perdoem-me, continuou ele,  depois de alguns instantes, se estas memórias me
abalam o coração. Eu era pobre, tão pobre como hoje. Desse tempo só resta um eco doloroso
e consolador. Crescia Helena e cresciam suas graças. Era o encanto e a esperança do meu
albergue. Quando pôde aprender os rudimentos da leitura, dei-lhe as primeiras lições; assisti
pasmado à aurora daquela inteligência que os senhores vêem hoje tão desenvolvida e lúcida.
Aprendia com facilidade, porque estudava com amor. Ângela e eu construíamos os mais
lindos castelos do mundo. Nós a víamos já mulher, formosa como viria a ser, porque já o era, inteligente e prendada, esposa  de algum homem que a adorasse e elevasse. Vivíamos dessa
antecipação, que era apenas um sonho, e não sentíamos os golpes da fortuna.
— Por que razão, perguntou Melchior, dado esse amor e  nascida uma filha, não
santificou o senhor a situação em que se achavam?
— A curiosidade é justa, replicou Salvador, mas a resposta é decisiva. Casar era a
nossa justificação; era um argumento contra o ressentimento de meu pai. Nos primeiros dias
da nossa fuga do Rio Grande, a própria embriaguez da felicidade desviou qualquer idéia de
santificar e legalizar uma união consentida pela natureza. Depois vieram os trabalhos e as
necessidades. Como eu tinha certeza de não fugir ao dever que tomara em meus ombros, ia
adiando o ato de mês para mês, de ano para ano. Afinal  o projeto esvaiu-se de todo.
Estávamos ligados pela miséria e pelo coração,  não pretendíamos o respeito da sociedade;
triste desculpa; e ainda mais triste recordação, porque o casamento teria talvez obstado os
acontecimentos posteriores. Helena contava seis anos. Minha  fortuna, adversa sempre, com
intermitências favoráveis, parecia abrandar um pouco. Ia  encetar um novo meio de vida,
quando uma circunstância grave me chamou ao Rio Grande. Meu pai adoecera; mandava-me
o seu perdão, ordenando-me que o fosse ver sem demora. Obedeci prontamente. Do que ele
me remeteu para as despesas de viagem e outras, deixei alguma coisa a Ângela e Helena, e
parti. Vinte e quatro horas depois de ver meu  pai, tive a dor de o perder. A liquidação dos
negócios foi curta; os bens todos ficaram pertencendo aos  credores; restavam-me alguns
patacões. Recebi esse golpe novo com a filosofia da insensibilidade. Quem sabe se não era eu
o culpado do acontecimento? Os negócios entretanto, apesar de curtos, demoraram-me mais
do que eu pretendia e convinha. A ânsia de voltar cresceu, desde que não recebi a resposta das
últimas cartas que escrevi a Ângela. Enfim, pude regressar ao Rio de Janeiro com um luto
mais e uma esperança menos. Neste ponto entra a pessoa de seu pai.
Estácio desviou os olhos.
— Logo que cheguei, continuou Salvador, corri à casa; achei-a fechada. Um vizinho,
testemunha da minha aflição, deu-me notícia de que Ângela se mudara para S. Cristóvão. Não
sabia nem o número nem a rua; mas deu-me algumas indicações que me guiaram. Ainda hoje
tenho ante os olhos o sorriso com que aquele homem me respondia. Era um sorrir de compaixão que humilhava. Sem nunca haver recebido de mim a menor ofensa, vejo que ele tinha
um prazer secreto com o meu infortúnio. Por quê? Deixo aos filósofos liquidarem esse enigma da natureza humana. Voei a S. Cristóvão; gastei tempo em procurar a casa, mas dei com
ela. Quando a vi, duvidei de meus olhos ou das indicações. Era uma casa elegante, escondida
entre o arvoredo, no meio de  um pequeno jardim. Podia ser  aquela a residência da
companheira de minha miséria? Receoso de ir bater ali, vi assomar ao portão um homem, que
me pareceu ser o jardineiro. Perguntei pela  dona da casa, a quem dei o seu próprio nome,
dizendo que lhe desejava falar. “A senhora saiu”, respondeu ele distraidamente. Dispus-me a
esperar, mas o jardineiro observou-me que ia sair e fechar o portão, e que a senhora só
voltaria à noite. “Esperarei até à noite”, redargüi. O jardineiro mediu-me de alto a baixo,
circulou um olhar cauteloso pela rua e disse-me baixinho: “Aconselho ao senhor que não
volte; o patrão não há de gostar”. Não escrevo um romance;  dispenso-me de lhes pintar o
efeito que produziram essas palavras. O que senti excede a toda a descrição. Há catástrofes
mais solenes, há situações mais patéticas; mas naquela ocasião parecia-me que todas as dores
do mundo se tinham convergido  para meu coração. O jardineiro era verdadeiramente
compassivo; lendo em meu rosto  o efeito de suas palavras,  disse-me alguma coisa de que
absolutamente não  me lembro. Convidou-me com brandura a sair;  obedeci maquinalmente.
Podendo informar-me acerca de Ângela, não o fiz. A febre reteve-me três dias de cama, numa
pobre cama alugada em péssima estalagem da Cidade Nova. No terceiro dia recebi uma carta
de Ângela. Pedia-me que lhe perdoasse o passo que dera; que uma paixão nova e delirante a
havia guiado, e que, se viesse a arrepender-se, seria essa a minha vingança. Quando li a carta, tive ímpeto de ir ter com ela e esganá-la; mas o ímpeto passou, e a dor desfez-se em
reflexões. Poucos dias antes, a bordo, um engenheiro inglês  que vinha do Rio Grande para
esta Corte, emprestara-me um volume truncado de Shakespeare. Pouco me restava do pouco
inglês que aprendi; fui soletrando como pude, e uma frase que ali achei fêz-me estremecer, na
ocasião, como uma profecia; recordei-a depois, quando Ângela me escreveu. “Ela enganou
seu pai, diz Brabantio a Otelo, há de enganar-te a ti também
9
.” Era justo; pelo menos, era
explicável. Dois dias depois da carta de Ângela, escrevi-lhe pedindo meia hora de
conversação; nada mais. Ângela concedeu-me  a entrevista. Meu plano era arrebatar-lhe
Helena; ela parece que o previu, recebendo-me sozinha, no jardim, às nove horas da noite.
— Por que razão recorda todas essas minúcias? Interrompeu Melchior com brandura;
nós desejamos somente saber o essencial.
— Tudo é essencial na minha narração, disse Salvador. Aquela entrevista mostrou-me
a toda a luz o caráter de Ângela. Que outra mulher se arriscaria, em tais circunstâncias, a
afrontar a cólera do homem desprezado? Ângela era um complexo de qualidades singulares.
Capaz de suportar as maiores  angústias, forte e risonha no  meio das máximas privações,
esqueceu num instante as virtudes que tinha para correr atrás de uma fantasia de amor. Não
foi a riqueza que a seduziu; ela iria, ainda que tivesse de trocar a riqueza pela miséria. Ângela
nasceu metade freira e metade bailarina; capaz  das austeridades de um claustro, não o era
menos das pompas da cena. E dai... não fui eu mesmo que a desviei da estrada real para metê-
la por um atalho obscuro? Disse-lho naquela noite em que procurei ser tranqüilo e superior
aos acontecimentos. “Meu fim, declarei eu, é só um: levar Helena; Helena é minha filha, não
quero deixá-la entregue a seus maus exemplos.” As lágrimas com que me banhou as mãos, as
rogativas que me fez, ajoelhada a meus pés, para que lhe deixasse Helena, não há como negar
que foi tudo sincero. Cedi aparentemente. Minha resolução estava assentada; sem Helena, a
vida parecia-me impossível. Que outro vínculo me prendia ao mundo? A morte e a miséria
tinham feito em redor de mim completa solidão. A única felicidade sobrevivente era ela.
— Segundo rapto, observou o padre. O senhor condenava-se a só adquirir um
vislumbre de felicidade por meios violentos.
— Tem razão, respondeu Salvador com tristeza; um abismo chamava outro abismo.
Felizes os que sabem o caminho  reto da vida e nunca se arredaram dele! Quis arrebatar
Helena; espreitei-a noite e dia. Não a via nunca; a própria casa rara vez tinha uma porta ou
janela aberta. Havia ali o recato e o mistério. Um dia resolvi ir ter com o protetor de Ângela.
A notícia que me deram do Conselheiro Vale era a mais honrosa do mundo. Assentei que me
ouviria e cederia a meus justos rogos. O demônio do orgulho impediu a execução do plano.
Quase a entrar em casa do conselheiro, recuei. Decorreram assim cerca de dois meses.
Emagreci; as longas vigílias fizeram-me pálido; o trabalho não me atraía; cheguei a padecer
fome. O poeta que disse que a  saudade é um pungir delicioso, não consultou meu coração.
Acerbo o achei eu; é certo que a ela misturava-se a cólera, a cólera da impotência e o
desgosto mortal do abandono. Um  dia, dirigi-me para S. Cristóvão, disposto a empregar a
violência, contanto que trouxesse Helena ou fosse dali para o Aljube. Era à tardinha.
Aproximei-me do jardim de Ângela, ouvi a voz de minha filha. Era a primeira vez depois de
longos meses! Parou-me o sangue todo. Passado o primeiro abalo, caminhei cauteloso,
encostado à cerca; Helena falava a alguém. Por uma abertura da cerca, pude espreitá-la.
Estava ao colo de um homem. Esse homem era o conselheiro. Olhei para um e outro; ora para
o meu rival, ora para a minha Helena. Helena acariciava as barbas dele; este sorria para ela
com um ar de ternura, que o absolvia quase da ofensa a mim feita. O coração, porém, apertouse-me, ao ver dar a outros afagos a que só eu tinha direito. Era um  roubo feito à natureza;
                                                       
9 — A citação pertence à tragédia Otelo (1604-1605), e faz uma alusão a Desdêmona, linda e virtuosa
donzela que o mouro Otelo, incendiado de ciúme, acaba assassinando. mas, se meu próprio sangue me repudiava, que podia eu exigir de alheios corações? Daí a
algum tempo, — não sei se foi curto ou longo, porque eu ficara a olhar para ambos, pasmado
de amor e de cólera, ouvi que falavam de mim. “Mas, olhe, dizia Helena, papai quando vem?”
O conselheiro deu um beijo na menina, e falou de uma borboleta que nesse momento pairava
sobre a cabeça dela. As crianças, porém, são implacáveis; aquela repetiu a pergunta. “Papai
não volta”, respondeu o conselheiro. Helena ficou séria. “Não volta? por quê?” “Tua mamãe
disse ontem que papai está no céu.” Helena levou as mãos aos olhos, donde lhe rebentaram
lágrimas copiosas. Uma nuvem passou-me pelos olhos... tentei dar alguns passos, entrar no
jardim, dizer quem era e exigir minha filha. Os músculos não corresponderam à intenção;
senti fraqueza nas pernas; achei-me de bruços. Quando dei acordo de mim, volvi de novo os
olhos para o lugar onde os vira. Ainda ali estavam, mas a atitude era diferente. O conselheiro
erguera-se, tendo nos braços Helena, que já não chorava. Ele  beijava-lhe as mãozinhas e
dizia-lhe: “Se papai foi para o céu, fiquei eu no lugar dele, para dar-te muito beijo, muito
doce e muita boneca. Queres ser minha filha?”  A resposta de Helena foi a do náufrago;
estendeu-lhe os braços em volta do pescoço, como se dissesse: “Se não tenho ninguém mais
no mundo!” O gesto foi tão eloqüente que eu vi borbulhar uma lágrima nos olhos do conselheiro. Essa lágrima decidiu do meu destino; vi que ele a amava, e de todos os sacrifícios que
o coração humano pode fazer, aceitei o maior e mais doloroso: eliminei a minha paternidade,
desisti da única herança que tinha na terra, força da minha  juventude, consolo de minha
miséria, coroa de minha velhice, e voltei à solidão mais abatido que nunca!
Salvador interrompeu a narração; levou a mão direita aos olhos; por entre seus dedos
escorreram algumas lágrimas, que ele, de envergonhado, enxugou rapidamente.
— Essas recordações são penosas, disse o padre; não convém despertá-las de uma vez;
seria abrir feridas que o tempo cicatrizou. Sabemos o essencial...
— Não, resta ainda alguma coisa, disse Salvador.
Estácio erguera-se. Visivelmente comovido, procurava lutar contra o sentimento que o
dominava, a fim de conservar a necessária independência de espírito para julgar da narrativa e
do alcance que ela podia ter. Tinha involuntariamente apertado a mão de Salvador, ao
escutar-lhe as últimas palavras; e arrependera-se desse  primeiro movimento, que podia
parecer uma absolvição sumária. A verdade é que ele não refletia nem sentia claramente, a
mente e o coração eram um campo de idéias e comoções contrárias.
— Vou acabar, disse Salvador, depois de alguns minutos. Resta explicar o
procedimento de Helena.
CAPÍTULO XXVI
— Seu pai, continuou Salvador dirigindo-se a Estácio, que, para acabar de compor o
rosto, tinha ido até à janela e voltara a sentar-se, — seu pai era honrado e cavalheiro.
Arrebatando-me Ângela, não me traiu, porque não me vira nunca; não contribuiu diretamente
para a traição dela, porque supunha cortadas nossas relações. Soube depois que Ângela,
quando eles se apaixonaram um pelo outro, lhe ocultara completamente o motivo da minha
viagem; dera-se como separada de mim. Mentiu, como mentiu mais tarde, dizendo que eu
havia morrido. O conselheiro não sabia sequer o meu nome. A mentira no primeiro caso não
teve fim nenhum; não houve cálculo; foi uma sugestão de amor ou um esquecimento; foi,
talvez, um modo de respeitar-me; no segundo caso, houve cálculo: era o de redobrar o afeto
que o conselheiro tinha a Helena. Assim aconteceu, porque o conselheiro sentiu-se pai de
Helena, e assumiu esse caráter desde aquela tarde. Do contrato, feito ali entre o homem e a
criança, cumpriu ele todas as cláusulas com generosa pontualidade. Pode crer que lhe fiquei
profundamente grato. Uma vez, passando por uma litografia, vi um retrato dele; comprei-o e
conservo-o ali ao lado do de Helena. Melchior e Estácio olharam para a parede, onde pendiam dois quadrinhos, ainda
cobertos, conforme Estácio os vira, no primeiro dia em que ali foi.
— Os meses e os anos passaram, continuou Salvador. Helena deu entrada em um
colégio de Botafogo, onde recebeu apurada  educação. O conselheiro a levou ali, dando-a
como órfã de um amigo de Minas; Ângela, que se dera por sua tia, ia buscá-la aos sábados.
Omito mil circunstâncias intermediárias, e as vezes, poucas, em que pude ver minha filha, de
passagem e a ocultas. Se o tempo houvesse produzido em mim os seus naturais efeitos, se a
natureza não se ajustasse em fazer contraste com a fortuna, conservando-me o vigor e o viço
da mocidade, é possível que eu achasse meio de empregar-me no colégio ou nas imediações,
a fim de ver mais freqüentemente Helena. Mas eu era o mesmo; passado o primeiro abalo,
voltaram-me as carnes, voltou-me a cor, e eu  era o mesmo que antes de partir para o Rio
Grande. Helena podia reconhecer-me; e eu faltava à convenção tácita que fizera com o
conselheiro. Um sábado, porém, tinha Helena doze anos, vindo ambas do colégio, parou o
carro defronte do Passeio Público. Vi-as descer e entrar. Levado por um impulso irresistível,
entrei também. Queria contemplá-las de longe, sem lhes falar; mas a resolução estava acima
das minhas forças. Que pai não faria outro tanto? No lugar mais solitário do Passeio, corri
para Helena. Vendo-me, a menina pareceu não reconhecer-me logo; mas tentou um pouco,
recuou espavorida e agarrou-se à mãe, abraçando-a pela cintura. Conheci que não estava ali
um pai, mas um espectro que regressava do outro mundo. Ia afastar-me, quando ouvi a voz de
Helena perguntar à mãe: “Papai?” Voltei-me. Ângela  envolvera o rosto da criança entre os
vestidos. O gesto equivalia a  uma confissão; mas esta foi  ainda mais clara quando a mãe,
cedendo à boa parte da sua natureza, ergueu resoluta os ombros, descobriu o rosto da filha,
pousou-lhe um beijo na testa, fitou-a e fez com a cabeça um gesto afirmativo. A menina não
exigiu mais; correu para mim e atirou-se menos braços. Ângela não se atreveu a impedir o
movimento da filha; o passado e o sacrifício falavam em meu favor. Abracei Helena e beijei-a
como doido. Ângela interveio: “Basta!” disse ela. Pegou na mão da filha e estendeu-me a sua.
Apertei-a maquinalmente; meus olhos estavam pregados na criança. Era tão gentil, com o
vestido rico que trazia, os cabelos enlaçados com fitas azuis, um chapelinho de palha e os
pezinhos calçados com botinas de seda! “Fez  bem, disse eu a Ângela, depois de alguns
instantes; deu-lhe um pai melhor do que eu.” Reparei então que ela própria se transformara;
trajava com elegância e estava superiormente  bela. A abastança aperfeiçoara a natureza.
Olhei-a sem inveja nem cólera, — mas com saudade, — dessa vez deliciosa, porque
rememorei os bons tempos da nossa ebriedade e loucura. O passado é um pecúlio para os que
já não esperam nada do presente ou do futuro; há ali sensações vivas que preenchem as
lacunas de todo o tempo. “Fez mal”, disse-me ela baixinho. E suspirou. “Sei que morri, disse
eu, e não pretendo ressuscitar.” Depois voltei-me para Helena: — “Minha filha, faze de conta
que me não viste; morri para ti e para o mundo. Teu pai é outro. Prometes que não dirás
nada?” Helena fez um leve sinal de cabeça e beijou-me a mão a furto, como se não quisesse
ser vista de Ângela. Nesse simples gesto reconheci que ela ia obedecer-me; mas a tristeza que
lhe ficou, foi o castigo de sua mãe. Pedíamos à natureza mais do que ela podia dar.
Salvador fez uma pausa, ergueu-se, foi  à cômoda, e de uma das gavetas tirou uma
caixinha, que colocou sobre a mesa. Melchior e Estácio trocaram um olhar de curiosidade.
Salvador sentara-se de novo.
— Ângela morreu, prosseguiu ele, daí a  um ano. Seu pai e alguns amigos, poucos,
foram levá-la à sepultura. Também eu lá me achei. A diferença é que ele enterrava uma
aventura, e eu via enterrar o meu passado. Vi-o triste e taciturno, como sinceramente pesaroso
da criatura que perdera. Helena, entretanto, não podendo estar só na mesma casa, foi
removida para o colégio, onde  ficou residindo definitivamente.  O conselheiro ia visitá-la
todas as semanas. Pela minha parte, certo da discrição de minha filha, encetei com ela uma
correspondência que era toda a consolação  que me podia caber. Uma escrava do colégio servia de intermediária entre nós. Então como hoje, achei uma alma compassiva que me
ajudou a ser feliz com mistério; a diferença é  que naquele tempo era  precisa a intervenção
pecuniária. Eu tinha pouco, mas dava o jantar de um dia para ler cartas de Helena. Conservoas todas, tanto as de outrora como as destes últimos meses; estão fechadas aqui.
Salvador mostrou a caixinha que colocara sobre a mesa.
— Um dia, almoçando em um botequim, li a notícia da morte do conselheiro. O fato
consternou-me; mas eu peço licença para lhes  dizer tudo: de envolta com o sentimento de
pesar, houve em mim alguma coisa semelhante a uma satisfação. Respirava enfim! O contrato
expirava com ele; eu ia entrar na posse de minha filha. Não escrevi desde logo a Helena; fi-lo
ao cabo de alguns dias. Tive duas respostas: a primeira era no sentido da minha carta; a
segunda anunciava-me que o conselheiro a reconhecera por testamento. Podia procurar e lerlhes a segunda carta: é um documento da  elevação dos sentimentos daquela menina.
Exprimia-se com a maior gratidão e saudade a respeito do conselheiro; mas negava-se a
aceitar o favor póstumo. Sabendo a verdade,  não queria escondê-la ao mundo. Aceitando o
reconhecimento, entendia que  prejudicava direitos de terceiro, além de repudiar-me
solenemente, o que não queria fazer desde que adquiria a liberdade de ação. Entre a herança e
o dever, dizia ela, escolho o que é honesto, justo e natural. Esta carta tirou-me o sono uma
noite inteira, perplexo como fiquei entre o ato do finado e a resolução da herdeira. Que mão
invisível tocara no coração do conselheiro essa corda de sensibilidade? Melhor fora que ele
houvesse traduzido em uma simples lembrança a afeição que tinha a Helena. Longo tempo
refleti nisso; o pai lutava com o pai. Tê-la comigo era a minha ventura, o meu sonho, a minha
ambição; era a realidade que eu chegara a tocar com as mãos. Mas, podia atá-la ao carro
decrépito da minha fortuna, dar-lhe o pão amargo de todos os dias? A família do conselheiro
ia afiançar-lhe futuro, respeito, prestígio; a lei ia ampará-la. Perguntei a mim mesmo se,
depois de haver morrido para o mundo, me era lícito ressuscitar para reclamar e reaver um
título de que me havia despojado; finalmente, se possuía já o direito de fazer um escândalo.
Estas reflexões, se viessem sós, teriam triunfado desde logo; mas, em oposição a elas, vieram
as sugestões do coração. Adverti que, cedendo à vontade do morto, cavaria um abismo entre
mim e Helena, e que não mais, ou só raramente e a ocultas, podia desfrutar a felicidade de lhe
dizer que a amava, de ouvir a mesma palavra de  seu coração. Nessa luta gastei três longos
dias. Helena escreveu-me outra carta, insistindo na resolução que dizia haver tomado.
Urgindo responder-lhe, fi-lo sacrificando-me. Não a convenci. Procurei ter uma entrevista
com ela. Não era fácil; mas o  interesse venceu tudo; a escrava intermediária aumentou o
preço da complacência. O que se passou entre  nós não o poderei repetir agora; curto era o
prazo concedido, mas a luta foi renhida e longa. Busquei persuadi-la com reflexões e
súplicas; ela resistiu com indignação e lágrimas. A nobre alma repudiava a cumplicidade e o
lucro de uma usurpação. Eu não via usurpação, porque a meus olhos  nem os interesses da
família do conselheiro, nem as noções da simples moral prevaleciam; eu via minha filha e seu
futuro: nada mais. Talvez os culpados desse meu proceder fossem somente Ângela e seu benfeitor. Eles me acostumaram a amá-la de longe, a não disputar a outrem o benefício que ela
recebia. Enfim, meu coração, egoísta e ulcerado, entendia que o reconhecimento daquela
pobre criança era o simples retorno das carícias de que eu havia sido defraudado; tais foram
os motivos da minha consciência. Helena resistiu até à última; cedeu somente à necessidade
da obediência, à imagem de sua mãe que eu invoquei, como um supremo esforço, à fiança
que lhe dei de que a acompanharia sempre, de que iria viver perto dela, onde quer que o
destino a levasse; cedeu exausta, sem convicção nem fervor. Se nesse ato decisivo de Helena
há culpa, é toda minha, porque eu fui o autor único; ela não passou de simples instrumento,
instrumento rebelde e passivo. Seu erro foi não ter a prudência necessária para não transpor o
abismo que nos separava. Eu devia contar com as resoluções súbitas e prontas dessa menina;
há ali uma costela de sua mãe. Mandando-lhe dizer, com as indicações precisas, onde morava, estava longe de esperar que ela viesse ver-me. A princípio fiquei aterrado com as possíveis
conseqüências; mas se o homem se habitua ao mal e à dor, por que se não há de acostumar ao
prazer e ao bem? Helena veio mais vezes; o gosto de a ver fez olvidar o perigo, e eu bebi, em
horas escassas e furtivas, a única felicidade que me restava na terra, a de ser pai e a de me
sentir amado por minha filha.
CAPÍTULO XXVII
Tinha acabado; grossas lágrimas, retidas a custo enfim lhe rebentaram dos olhos e
rolaram pelo rosto abaixo do narrador. A comoção não ficou só nele; os dois ouvintes a
sentiram também. Acabara; e o pior que podia acontecer, era isso mesmo. Uma vez finda a
narração, ficaram os dois calados e perplexos, sem que ousassem contradizê-lo. Depois de
curta pausa, Salvador rematou assim:
— De tudo o que lhes disse  não tenho outras provas além destas cartas, que seriam
bastantes, e de minhas lágrimas, que hão de ser eternas. Mas, ainda quando haja outras, creio
que não serão precisas. Na situação em que estamos, só há duas soluções possíveis; ou nada
se altera do que o conselheiro estatuiu, e somente eu carregarei as conseqüências da sorte,
desaparecendo; ou a família rejeita Helena, e eu a levarei comigo. Dir-se-á que a lei a protege
a todo transe? Pois ela assinará todas as desistências necessárias.
Estácio cortou-lhe a palavra, dizendo que oportunamente lhe dariam resposta. Saíram
logo depois; não trocaram uma só palavra; cada um deles ia absorto. Contudo, o padre
observava de quando em quando  o sobrinho de D. Úrsula,  buscando adivinhar-lhe os
pensamentos.
Chegando à porta da chácara, o padre perguntou ao moço:
— Que pretende fazer?
— Não sei ainda.
— Sei eu o que deve fazer: nada.
— Conservar esta situação?
— Decerto. Helena obedeceu à vontade de  seus dois pais, aceitando o equívoco em
que ambos a vieram colocar. Obedeceu à força. Agora, está reconhecida; é um fato que não
podemos discutir nem alterar.
Estácio esteve silencioso alguns instantes.
— Mas, posso eu, à vista do que acabamos de ouvir, conservar a Helena um título que
rigorosamente lhe não pertence? Helena não é minha irmã; é absolutamente estranha à nossa
família; o título que nos ligava, desaparece. Por que motivo continuaríamos nós uma
falsificação.
— De seu pai? atalhou Melchior.
— Padre-mestre!
— Aquele homem falou verdade; mas nem a lei nem a Igreja se contentam com essa
simples verdade. Em oposição a ela, há a declaração derradeira de um morto. A justiça civil
exige mais do que palavras e lágrimas; a eclesiástica não extingue, com um traço de pena, a
afirmação póstuma. Demais, não espere que esse homem reproduza perante ninguém as
declarações de há pouco; só o fará quando perder a última esperança. É evidente que ele nada
quer alterar do que seu pai estabeleceu, e antes se sacrificará do que envergonhará a filha.
Sente-se disposto a fazer o que ele recusa?
Estácio não respondeu; tinham entrado na chácara, e caminhavam lentamente na
direção da casa. Melchior deteve-o.
— Estácio! disse o padre, depois de olhar para ele um instante. Compreendo, quisera
despojar Helena do título que seu pai lhe deixou, para lhe dar outro, e ligá-la à sua família por
diferente vínculo. Estácio fez um gesto como protestando.
— Esquece duas coisas graves: o escândalo e o casamento de um e outro; já se não
pertence, nem ela se pertence a si. Vamos lá; seja homem. Sepultemos quanto se passou no
mais profundo silêncio, e a situação de ontem será a mesma de amanhã.
Quando Estácio e Melchior entraram em casa, já D. Úrsula sabia tudo; lograra desatar
a língua de Helena. Abatida com a leitura da carta, não lhe levantara o ânimo a narração
verbal da moça; preferia talvez que Helena fosse verdadeiramente filha do conselheiro.
Alguns meses de espaço e a convivência afetuosa produziram a diferença de sentimento entre
o primeiro e o último dia.
— Nada podemos fazer já agora, disse o  padre; provocaríamos  um escândalo sem
esperança do resultado.
D. Úrsula fez um gesto de assentimento. Chamada a ouvi-los, Helena desceu daí a
alguns minutos. A cor da vergonha tingiu-lhe  a face; logo que ela deu com Estácio, que a
esperava, ao lado de Melchior, ambos calados, mas sem nenhum vislumbre de irritação. Após
um silêncio longo e abafado, Estácio comunicou a Helena a resolução da família e seus
sentimentos de generosidade  e confiança; concluiu dizendo  que, sobre todas as coisas,
prevalecia a vontade derradeira de seu pai. Helena empalideceu e cerrou os olhos; D. Úrsula
correu a ampará-la. O organismo debilitado pelas vigílias e comoções das últimas horas não
pudera resistir; mas o delíquio foi leve e curto. Voltando a si, Helena beijou ardentemente as
mãos de D. Úrsula e as do padre, estendeu a  sua a Estácio, que a apertou; depois, com voz
trêmula, disse:
— Meu coração ficará eternamente grato ao resto de estima que não perdi; a situação
mudou, e força é mudar com ela. Não quero a  proteção da lei, nem poderia receber a
complacência de corações amigos. Cometi um erro, e devo expiá-lo. Enquanto a vergonha
vivia só comigo, era possível continuar nesta  casa; eu atordoava-me para esquecê-la; mas
agora que é patente, vê-la-ei nos olhos de todos e no sorriso de cada um. Peço-lhes que me
perdoem e me deixem ir! Não deveria ter entrado, é certo. Expio a fraqueza de um coração
que eu me habituara a amar de longe, com o prestígio do mistério e o encanto do fruto
proibido. De hoje em diante, amá-los-ei de longe ou de perto, mas estranha... e perdoada!
Dizendo isto, Helena abraçou D. Úrsula, como a pedir o benefício da sua intervenção.
D. Úrsula abraçou-a igualmente, mas fez com a cabeça um gesto negativo. Melchior observou
que a repulsa era pelo menos um sintoma de desprendimento pouco explicável em relação à
família que, sem embargo dos últimos sucessos, não lhe retirara a estima nem a proteção.
— Herdou o orgulho do pai! murmurou Estácio.
A frase foi dita em voz baixa, mas Helena ouviu-a, e seus olhos fulgiram de
momentânea satisfação. Atribuir a orgulho o que era vergonha e remorso, dava-lhe certa
superioridade que a moça julgava não ter naquele lance. Protestou  em favor de seus
sentimentos de gratidão, com a palavra viva, animada, cordial que todos três lhe conheciam,
interrompida a intervalos pela comoção interior, e pelas lágrimas que lhe escorriam dos olhos,
quase exaustos de chorar. Estácio pôs termo a todas as hesitações.
— Pois bem, disse ele, será isso mais tarde; a lei é por nós; e nossa vontade é que nos
obedeça.
Helena mordeu o lábio com desesperação, mas não respondeu. A cabeça descaiu-lhe
lentamente como ao peso de uma idéia, a mais e mais opressora. Depois, ergueu-a; os olhos
tristes, mas animados dos últimos raios de uma esperança, dirigiram-se para os de Estácio,
que nessa ocasião pareciam falar as dores todas da paixão sufocada e rebelde. Ambos eles os
baixaram à terra, medrosos de si mesmos.
— Não creio que ela aceite facilmente a sua decisão, disse Melchior a Estácio, logo
que pôde achar-se só com ele. Acautele-se; é capaz de fugir-nos.
— Crê? — Não a conhece ainda? A posição em que estes acontecimentos a deixaram,
repugna-lhe mais que tudo. Prefere a miséria à vergonha, e a idéia de que interiormente não a
absolvemos, é o verme que lhe fica no coração.
De noite, recebeu Estácio uma carta de Salvador, acompanhada de um pacote.
“Refleti muito durante estas duas horas, dizia ele, e cheguei a uma conclusão única.
Elimino-me. É o meio de conservar a Helena a consideração e o futuro que lhe não posso dar.
Quando esta carta lhe chegar às mãos, terei desaparecido para sempre. Não me procure, que é
inútil. Irei abençoá-lo de longe. Recaia, entretanto, sobre mim todo o ressentimento; eu só o
mereço, porque só eu o provoquei. Vão as cartas de Helena; guardo três apenas, como
recordação da felicidade que perdi.”
Estácio teve vontade de ler as cartas de Helena, mas a tempo recuou; mandou-as dar à
moça. Helena, que estava com D. Úrsula, entregou-as a esta.
— São a minha história, disse ela; peço-lhe que as leia e me julgue.
Havia em seus olhos uma expressão que não era usual. Recolheu-se imediatamente a
seu quarto, onde jazeu longo tempo, calada, quieta, sinistra, o corpo atirado em um sofá, a
alma sabe Deus em que regiões de infinito desespero.
CAPÍTULO XXVIII
Naquela noite, a segunda de tão extraordinários sucessos, foi que Estácio sentiu toda a
violência do amor que lhe inspirara Helena. Enquanto os detinha um vínculo sagrado, amara
sem consciência; e ainda depois de esclarecido pelo padre, o esforço empregado em vencer-se
e a própria natureza da catástrofe não lhe permitiram ver a extensão do mal. Agora, sim; roto
o vínculo, restituída a verdade, ele conhecia que a voz da natureza, mais sincera e forte que as
combinações sociais, os chamava um para o outro, e que a mulher destinada a amá-lo e ser
amada era justamente a única que as leis sociais lhe vedavam possuir.
Durante as primeiras horas o coração mordeu rebelde o freio da necessidade. A vigília
foi longa e crua; e a reflexão veio enfim dominar a tempestade interior, ou antes alumiar seus
destroços. Ele viu que o padre tinha razão; que era força desfolhar a esperança de um dia. Ao
mesmo tempo, o exemplo de Helena deu-lhe ânimo. Senhora do segredo de seu nascimento, e
consciente de amar sem crime, a moça apressara, não obstante, o casamento de Estácio e
escolhera para si um noivo estimado apenas. Se uma vez a palavra delatora lhe rompeu dos
lábios, ela a retraiu logo, fazendo o mais obscuro dos sacrifícios.
Não quis Estácio ser menos generoso. Logo de manhã escreveu a Mendonça, pedindolhe que não deixasse de os  ir visitar nesse dia. Não o  fez sem custo, mas fê-lo sem
arrependimento. Tinha por fim apressar o casamento de  Helena e o seu, condenando-se a
sofrer calado os golpes do avesso destino.
A manhã entretanto não trouxe a Helena  o esquecimento e a paz. A noite não lhe
serviu de remédio, antes legou à aurora toda a sua mortal angústia. Debilitada, nervosa,
impaciente, não podia a moça vencer-se nem suportar-se. Ora, repelia com sequidão as boas
palavras de D. Úrsula; ora, pedia intercedesse com Estácio para a resolução que ela admitia
como único meio de a poupar à vergonha. A excitação moral era grande; cumpria aquietá-la
por meios persuasivos. Helena fugia a todos; não encarava Estácio e D. Úrsula, sem que o
pejo lhe colorisse a face, mudança tanto mais visível quanto que a vigília e a dor a tinham
empalidecido muito. Diziam-lhe  que a vontade do conselheiro estatuíra uma lei na família,
segundo a qual ela continuava a ser parenta como dantes, e tão amada como era. A moça
agradecia a generosidade, mas não podia fugir à idéia de haver contribuído para uma
usurpação. Queria que a deixassem ir ter com o pai, ao pé de quem a natureza e a consciência
lhe indicavam que poderia estar sem remorso. Estácio e D. Úrsula respondiam-lhe com afagos e protestos; mas quando viram que estes eram inúteis, não houve mais que revelar-lhe a carta
de Salvador.
O Padre Melchior incumbiu-se de lhe fazer essa delicada comunicação.
— Seu pai, disse ele, praticou em seu favor um ato heróico; fugiu para lhe não fazer
perder a consideração e o futuro. Leia esta carta, e veja se ela lhe dá a força necessária para
resistir.
Helena pegou na carta com sofreguidão, leu-a de um lance d’olhos. O gemido que lhe
rompeu do coração mostrou bem a ferida que acabava de receber. O padre acolheu-a
lacrimosa e esvaecida em seus braços; disse-lhe palavras de conforto e de esperança. Nos
primeiros minutos, Helena nada pôde ouvir; o golpe ensurdecera a alma. Melchior fê-la sentar
ao pé de si; ela obedeceu sem consciência. Após alguns minutos de silêncio e concentração, a
moça dirigiu a palavra ao padre e agradeceu-lhe a caridade. Depois referiu-lhe os
acontecimentos de sua infância, os mesmos que o capelão ouvira. A sagacidade natural do
espírito cedo lhe fizera ver que a posição de sua mãe não era a mesma das outras mães: essa
descoberta, porém, não teve outra virtude mais que comunicar ao amor de filha uma
intensidade e energia capazes de afrontar os  mais fortes obstáculos, como se ela quisesse
reunir em si toda a soma de afetos e respeitos que a sociedade afiança às situações regulares.
Melchior ouviu-a comovido; nutrido da medula do Evangelho, reconheceu um efeito da graça
divina nesse amor imaculado, que valia por todas as absolvições da terra. Ele a aplaudiu e
confortou; falou-lhe do futuro, do carinho de sua família, — sua, a despeito de tudo; enfim da
obrigação em que ela estava de corresponder a tanta confiança.
Talvez Helena, em sua razão, correspondesse aos conselhos de Melchior; mas a razão
é o que menos a dirigia naquelas circunstâncias aflitivas. Ela deixou o padre para recolher-se
aos aposentos. Quando D. Úrsula ali foi, meia hora depois, achou-a profundamente abatida; a
violência da crise passara. A linguagem que lhe falou foi maternal, ungida de amor e perdão;
Helena ouviu-a agradecida, mas um sorriso  descorado e sem convicção lhe entreabria os
lábios. Supunha ler comiseração onde havia afeto e respeito, e o orgulho rebelava-se de
inspirar o único sentimento que a consciência lhe dizia merecer.
As instâncias de D. Úrsula para que Helena se alimentasse foram inúteis; ela apenas
recebia o que bastava para não sucumbir à fome. A companhia repugnava-lhe; assim, poucas
vezes a viram desde os dias que se seguiram aquela funesta manhã. Mendonça não conseguiu
mais do que os outros. A família teve o cuidado de anunciar que Helena se achava enferma. A
aflição do noivo foi grande; mas todos buscaram tranqüilizá-lo. Nada havendo transpirado do
acontecimento, fácil foi sustentar aquela explicação.
Melchior encomendara muito à família que vigiasse a moça, cujo espírito lhe parecia
atrevido e tenaz; ele receava que Helena ou fugisse de casa, ou recorresse a algum ato de
desespero.  O  mesmo padre desvelou-se em trazer a alma de Helena ao sentimento da
resignação. A autoridade do caráter religioso, a influência que ele tinha no espírito de Helena,
eram armas poderosas, temperadas com o amor verdadeiro e paternal que o ligava à donzela.
Nada poupou; mas tais esforços não tiveram mais fruto que os da família. Helena mal podia
tolerar a situação.
Uma vez, como ela descesse à chácara, saiu Estácio a procurá-la, não a encontrando
senão ao cabo de alguns minutos. Achou-a ao pé do tanque, no lugar em que lhe falara poucos
dias antes, sentada no mesmo banco de pau. Vendo-o, estremeceu; ele aproximou-se, contente
de a haver encontrado enfim. O dia estava feio; grossas nuvens negras pejavam o ar, túmidas
de temporal próximo. Estácio convidou-a a recolher-se.
— Deixe-me estar aqui um instante mais, respondeu ela.
— Dois minutos apenas.
Sentou-se ao pé dela e ficaram calados. Helena tinha uma taquara na mão; Estácio
quis tomar-lha; ela arremessou-a para longe. Ergueu-se então o moço e foi buscá-la; só então viu que estava molhada até certa altura; calculou que seria o fundo do tanque. O tanque era
raso; não poderia dar a morte; mas, a suspeita de que Helena não recuaria diante do suicídio,
aterrou naturalmente o espírito de Estácio. Parecendo-lhe que a causa não comportava o
efeito, perguntou a si mesmo se os sucessos daqueles dias não teriam velado a razão da moça.
Sentou-se de novo e falou-lhe com brandura.
Ao escutá-lo, sentiu Helena como uma ressurreição de outras horas, que ela julgava
escoadas para sempre; um sorriso lhe animou  os lábios sem cor, ao passo que os olhos
doridos e murchos pareciam reviver de um resto de luz. Estácio falou-lhe de si, da tia, do
padre e de Mendonça, dos próximos casamentos, da felicidade futura. Depois insistiu com ela
para que entrasse. Uma brisa mais forte começava a agitar as árvores, e a tempestade
ameaçava cair de repente.
— Ainda não, disse a moça; alguns minutos mais.
— Mas pode adoecer...
— Talvez, se todos quiserem a minha saúde. Há criaturas tão malfadadas que aqueles
mesmos que as desejam fazer venturosas não alcançam mais do que preparar-lhes o
infortúnio. Tal foi o meu destino. Seu pai e minha mãe não tiveram outro pensamento; meu
próprio pai foi levado do mesmo impulso, quando me obrigou a ser cúmplice de uma
generosa mentira. Agora mesmo que ele me  foge, com o fim único de me não tolher a
felicidade, arranca-me o último recurso em que eu tinha posto a esperança...
— Helena! interrompeu Estácio.
O último, repetiu a moça.
Esvaíra-se-lhe o sorriso, e o olhar tornara a ser opaco. Estácio teve medo daquela
atonia e concentração; travou-lhe do braço; a moça estremeceu toda e olhou para ele.
A princípio foi esse olhar um simples encontro; mas, dentro de alguns instantes, era
alguma coisa mais. Era a primeira revelação, tácita mas consciente, do sentimento que os
ligava. Nenhum deles procurara esse contato de suas almas, mas nenhum fugiu. O que eles
disseram um ao outro, com os simples olhos, não se escreve no papel, não se pode repetir ao
ouvido; confissão misteriosa e secreta, feita de um a outro coração, que só ao céu cabia ouvir,
porque não eram vozes da terra, nem para a terra as diziam eles. As mãos, de impulso próprio,
uniram-se como os olhares; nenhuma vergonha, nenhum receio, nenhuma consideração
deteve essa fusão de duas criaturas nascidas para formar uma existência única.
O vento tornara-se mais rijo; uma lufada os despertou, em má hora, porque há sonhos
que deviam acabar na realidade do outro século. Estácio ergueu-se; sacudiu valorosamente o
torpor da felicidade, e reassumiu o papel que o pai lhe assinara ao pé de Helena. Esta desviou
os olhos e cravou-os na água, fascinada e absorta. A idéia do suicídio roçaria deveras sua asa
invisível pela fronte da moça? Estácio foi a ela, pegou-lhe nas mãos e convidou-a a sair dali.
— Entremos, disse ele pela terceira vez, olhe que vai chover.
Helena deixou-se levantar; um calafrio percorreu-lhe o corpo todo, e as mãos, que o
moço ainda tinha entre as suas, estavam muito mais quentes que o natural.
— Ande repousar, continuou Estácio; pode adoecer, e não tem direito para tanto;
nossa afeição não o consentirá nunca. Vamos...
— Amar-me-ão sempre? perguntou Helena.
— Oh! sempre!
— Impossível! Há uma voz no fundo de seu coração, que lhe dirá, de quando em
quando, esta triste palavra: aventureira!
— Helena!
— Não posso ser outra coisa a seus olhos,  prosseguiu a moça, tristemente. Quem o
convencerá de que a declaração de seu pai não foi obtida por artifício de minha mãe?. Quem
lhe dará a prova de que, cedendo aos rogos de meu pai, não fiz mais do que executar um plano preparado já? São dúvidas que lhe hão de envenenar o sentimento e tornar-me suspeita
a seus olhos. Resista quem puder; é-me impossível encarar semelhante futuro!
Helena caíra ofegante no banco. Estácio falou-lhe com abundância e ternura; jurou-lhe
que sua família era incapaz da mínima suspeita; pediu-lhe por seu pai que não julgasse mal
deles. Ela sorriu, mas foi um sorrir de incrédula.
Grossos pingos de chuva começavam a rufar nas árvores. Estácio pegou na mão de
Helena para conduzi-la a casa. A moça fugiu-lhe, indo colocar-se alguns passos adiante, onde
a chuva lhe caía mais em cheio na cabeça nua e no corpo levemente coberto. Quando Estácio,
desvairado de terror, correu para ela, Helena afastou-se dele; mas nem seus pés o poderiam
vencer nunca, nem lho permitiam agora as forças quebradas por tantas e tão profundas
comoções. Ele alcançou-a; estendeu o braço em volta da cintura da moça, dizendo:
— Que capricho é esse? Vamos embora; eu quero que venha comigo para dentro.
Ao sentir o braço de Estácio, Helena estremeceu e fez um movimento para arredá-lo
de si; mas a fraqueza traiu-lhe o pudor. Ela fitou no moço uns olhos de corça moribunda; as
pernas fraquearam, e o corpo esmorecido iria a  terra, se lho não sustivessem as mãos de
Estácio.
— Deixe-me morrer! murmurou ela.
— Não! bradou o mancebo.
Com um gesto rápido, tomou nos braços,  estendido, o corpo exausto de Helena, e
caminhou na direção da casa. O vento flagelava-os; a chuva, que subitamente caía a jorros,
alagava-os sem misericórdia;  ele ia andando, o mais depressa que lhe permitia o peso de
Helena, cuja cabeça pendia para a terra, e de cujos lábios brotavam trechos soltos de frases
sem sentido.
D. Úrsula viu entrar aquele doloroso espetáculo; correu a receber Helena, que Estácio
depositou em um sofá, donde foi transferida ao leito. A febre, já começada antes dela sair,
tomara conta enfim da pobre moça. Um médico foi chamado à pressa; o Padre Melchior
correu por baixo d’água até à casa de Estácio. As primeiras horas foram de ansiedade e susto;
o estado da doente era grave; assim o disse o médico; assim o tinham já sentido os corações
amigos.
D. Úrsula pagou naquela ocasião os serviços que, em caso análogo, lhe prestara
Helena, mau grado o peso dos anos, que lhe não permitiam longas vigílias nem aturado
trabalho. Velou a boa senhora à cabeceira da enferma durante essa primeira noite de incerteza
e terror. Mendonça, que ali fora sem suspeitar nada, porque a doença que lhe disseram ter
padecido Helena, supunha ele ser passageira, e em todo caso, estar quase extinta, Mendonça
recebeu essa triste notícia com a morte no coração.
Durante sete dias o estado de Helena apresentou alternativas que lançavam na alma
dos seus a confiança e a desesperação. Algumas horas houve de delírio, durante o qual dois
nomes volviam freqüentemente aos lábios da enferma, — o de Estácio e o do pai. Nas horas
da razão, falava pouco, não proferia nenhum nome, salvo o de Melchior que ela queria ver
junto de si. O capelão obedecia docilmente. Ao pé dela, via-a com pena, mas sem
desesperação; primeiramente, porque ele aceitava sem murmúrio os decretos da vontade
divina; depois, porque não sabia ao certo se, em tal situação, era a vida melhor do que a
morte. Em todo caso, consolava-a.
No quarto dia chegou a família de Camargo, e, sabendo da doença de Helena,
apressou-se a ir a Andaraí. Ao ver Eugênia, a moça sorriu tristemente, lampejo de inveja que
para logo se apagou e morreu no coração.
Estácio mal ousava entrar na alcova da doente e não podia viver fora dela. Sua aflição
era patente. Ele prometia a si mesmo todos os sacrifícios em troca da vida de Helena,
espreitava uma esperança no rosto do médico, e interrogava o coração da tia e do padre. Na
noite do sétimo dia da cena do jardim, D. Úrsula, que ficara ao pé de Helena, mandou chamar à pressa o sobrinho e o Padre Melchior, que estavam  na sala contígua. Acorreram os dois.
Helena tivera uma síncope, que D. Úrsula cuidara ser a morte. Voltando a si, leu a moça a sua
sentença no rosto de todos três.
— Ainda não, murmurou ela; ainda não é a morte.
D. Úrsula chegou-se-lhe mais perto, beijou-a, disse-lhe algumas palavras de conforto.
— Deixe estar, respondeu ela, deixe que eu não morro; estou só muito doente.
Estácio buscou animá-la, mas a voz morreu-lhe às primeiras expressões, e ele saiu.
Melchior acompanhou-o.
— Uma coisa poderia talvez salvá-la, disse aflito o moço; era a presença do pai. Vou
mandá-lo procurar por toda a parte. Havemos de achá-lo; é preciso que o achemos.
Melchior aprovou a idéia do mancebo; e não lhe disse que o remédio viria talvez
tarde, se viesse. Estácio ordenou as coisas  para a seguinte manhã.  Voltaram à alcova da
enferma. Esta fechara os olhos, como se dormisse. Houve então entre aquelas quatro paredes
meia hora de silêncio, interrompido apenas, de quando em quando, pelos movimentos que a
doente fazia, como a querer mudar de posição. No fim desse tempo, abriu os olhos e
murmurou algumas palavras. Chegou o médico, viu-a e desenganou a família.
Enquanto Melchior dava as  ordens precisas para que Helena tivesse os socorros
espirituais, Estácio saiu dali, para ir, longe, desabafar o desespero; desceu à chácara, vagou
por ela delirante, a soluçar como uma criança, ora abraçado a uma árvore, ora ajoelhado e
pedindo a Deus a vida de Helena. O coração do moço não conhecia o fervor religioso; mas a
imagem da morte deu-lhe o que a vida lhe levara, e ele rezou, rezou sozinho, sem hipocrisia
nem dúvida. Mendonça veio achá-lo nessa luta derradeira entre a realidade e a esperança. Não
o consolou; não tinha consolações que distribuir, porque também a dor lhe devastara o cora-
ção. Nos braços um do outro, choraram o mesmo bem que se lhes ia embora.
Um escravo veio chamar Estácio à pressa; ele subiu trôpego as escadas, atravessou as
salas, entrou desvairado no quarto, e foi cair de joelhos, quase de bruços, junto ao leito de
Helena. Os olhos desta, já volvidos para a eternidade, deitaram um derradeiro olhar para a
terra, e foi Estácio que o recebeu, — olhar de amor, de saudade e de promessa. A mão pálida
e transparente da moribunda procurou a cabeça do mancebo; ele inclinou-a sobre a beira do
leito, escondendo as lágrimas e  não se atrevendo a encarar o  final instante. Adeus! —
suspirou a alma de Helena, rompendo o invólucro gentil. Era defunta.
A noite foi cruel para todos. D. Úrsula, profundamente abatida pela dor e pelas
vigílias, não consentiu, ainda assim, que outras mãos amortalhassem Helena; ela mesma lhe
prestou esse derradeiro  e triste obséquio. A morte não diminuíra a beleza da donzela; pelo
contrário, o reflexo da eternidade parecia dar-lhe um encanto misterioso e novo. Estácio
contemplou-a com os olhos exaustos, o padre com os seus úmidos. Melchior suportara a dor
até ao momento da definitiva separação; agora,  que a moça se ia de vez, deixou-se abater
enfim, ao pé daqueles pálidos restos, despojo último de generosas ilusões.
No dia seguinte, prestes a sair o enterro, as senhoras deram à donzela morta as
despedidas derradeiras. D. Úrsula foi a primeira que lhe prestou esse dever; seguiu-se
Eugênia e seguiram as outras. Estácio viu-as subir, uma a uma, o estrado em que repousava a
essa. Depois, quando ia fechar-se o féretro, caminhou lentamente para ele; trepou ao estrado,
e pela última vez contemplou aquele rosto, — sede há pouco de tanta vida, — e a coroa de
saudades que lhe cingia a cabeça, em vez de  outra, que ele tinha direito de pousar nela.
Enfim, inclinou-se também, e a fronte do cadáver recebeu o primeiro beijo de amor.
Fecharam o féretro; ao moço pareceu  que o encerravam a ele próprio. Saindo o
enterro, deixou-se Estácio cair numa cadeira, sem pensar nada, sem sentir nada. Pouco a
pouco, despovoou-se a casa; os amigos saíram; um só de tantos ainda ali ficou, a lastimar
consigo a noiva, tão cedo prometida e tão cedo roubada. Esse mesmo saiu, enfim, não ficando
mais do que a família, cujo pai espiritual era Melchior. Sozinho com Estácio, o capelão contemplou-o longo tempo; depois, alçou os olhos ao
retrato do conselheiro, sorriu melancolicamente, voltou -se para o moço, ergueu-o e abraçou
com ternura.
— Ânimo, meu filho! disse ele.
— Perdi tudo, padre-mestre! gemeu Estácio.
Ao mesmo tempo, na casa do Rio Comprido, a noiva de Estácio, consternada com a
morte de Helena, e aturdida com a lúgubre cerimônia, recolhia-se tristemente ao quarto de
dormir, e recebia à porta o terceiro beijo do pai.